Ser ou não ser? Existe opção? (por leonardo Melgarejo)

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No primeiro domingo deste mês escutei uma fala do Padre Júlio Lancelotti que quero reproduzir aqui. Foi ao meio dia, no DCM, e está gravado no Youtube. Quem ainda não teve oportunidade de ouvir, pode resolver isso fácil. Eu recomendo, adiantando que foi no programa de Rudá Ricci, e que Darcy Costa também participou.   

Pois bem, o Padre Júlio falava sobre o “direito de ser”, e as dificuldades simbólicas e concretas que se agigantam em contrário a este fundamento para a crescente multidão dos sem teto e sem casa que vivem nas ruas das grandes cidades.

Desde o golpe de 2016, a cada dia é maior o seu número. São caminhantes anônimos que se cruzam nas avenidas e se acumulam nos cantos sem vento. Nas esquinas agora encontramos famílias inteiras, recuperando a imagem primitiva dos grupos nômades permanentemente à cata do que comer. E hoje os campos de caça e coleta praticamente se reduziram aos pontos de distribuição de doações que diminuem na medida em que se multiplicam os cartazes de “vende-se” e “aluga-se”, colados em portas onde há pouco se podia conseguir algo para comer.

Ausência de políticas públicas. Restaurantes fechando e a generosidade se fazendo cada dia mais rara e insuficiente. A escassez se abate especialmente sobre os menos egoístas, que são os mais pobres. Simples assim: os agricultores sem terra, as pastorais e todos os grupos solidários enfrentam a expansão dos custos relacionados a seus esforços para produção, coleta, distribuição e entrega de alimentos, nas periferias das cidades.

E o problema de acesso à água não é menor. Assim, pessoas buscando o que comer e beber se assemelham a cães sem dono, evidenciando o ponto a que nossa regressão nos trouxe: sequer   as leis de proteção aos animais são garantidas a 19 milhões de brasileiros famintos.

No frio do Sul, recomendações para contenção da pandemia, tais como “vacine-se, use máscara, lave as mãos, proteja-se, evite contatos”, soam como deboche. Pois, ou os seres se juntam, se amontam, ou morrerão.

O Padre Júlio alerta e quase implora: se você encontrar alguém sozinho, entre os desamparados, ofereça algo. Qualquer coisa. Um sorriso, um gesto de atenção ou até mesmo a disposição para escutar seus pedidos. Pergunte o nome, mostre reconhecimento pela condição humana do outro, porque apenas isso já será algo bom, para ambos.

Leve em conta que a recuperação de uma confiança mínima estimula aproximações que podem salvar vidas. Isso porque os “novos” abandonados podem morrer em sua primeira noite de solidão efetiva, antes de conseguirem se fazer incluídos em alguma rede de proteção solidária. Padre Júlio lembra que os grupos que se formam na miséria não são “bandos” a serem criminalizados e evitados. Longe disso, aqueles grupos são como ninhos onde emergem gestos de uma afetividade que protege os coletivos desde o início da humanidade. Ali, se desenvolvem formas de ser que irmanam humanos a seus irmãos de outras espécies, como recomendam os preceitos da agroecologia. Por exemplo, ali os cachorros não são pets. Eles compõem um todo que partilha a água, a comida, o calor e a fidelidade que ao longo da história vem alimentando os sonhos e as relações de amor. Por isso, abrigos públicos que exigem a ruptura daqueles laços, enviando os cachorros para canis, não são bem aceitos pelos sem casa. São percebidos como “vagas” de pernoite oferecidas sob condição do cancelamento de afetos, da traição à uma simbologia tão familiar como necessária: o “ser” carece a tal ponto de reciprocidades que só é possível “ser um”, “com o outro”.

E isto precisa ser compreendido em sua real magnitude.

A solidariedade individual precisa incorporar dimensões simbólicas, levando em conta o que isso representa. A luta pela construção de humanidade envolve a valorização, a preservação de laços e a aceitação das diferenças. O Padre Júlio ensina. Neste desafio não estamos diante de uma luta estimulada pelas possibilidades de vitória sobre desafios. É algo maior, pautado pelo amadurecimento da “nossa” própria emancipação. Ele alerta que precisamos nos humanizar, e que isso se alcança fortalecendo a fidelidade a princípios, independente dos sucessos.

No caminho oposto alimentamos a hipocrisia, a indiferença ou a culpa daqueles que traem a si mesmos, quando deixam de fazer o que poderiam fazer, de melhor, em momentos cruciais de sua própria vida. Se trata aqui de culpa destrutiva das possibilidades de ser. Ela se apoiaria na consciência de auto-rejeição. Na negação de atenção, valor e dignidade àquilo que cada um sabe ser seu dever, sua responsabilidade. Equivale, portanto, a enganar a si mesmo, a mentir.

Lutar contra isso, equivale a “se assumir”, a escolher um lado na concepção descrita por Francisco, em sua encíclica Fratelli Tutti. A decisão nos coloca em oposição a ou tentando surfar sobre o tsunami de degradação que avança no Brasil de Bolsonaro.

Vejam estamos nos acostumando a um presidente que, como regra, mente. E mente sem parar, cercado por ministros que mentem inclusive quanto às suas qualificações curriculares, que fazem declarações com base em documentos falsos, que tentam enganar senadores em comissão parlamentar de inquérito, e assim por diante. Naturalmente isso estimula agentes de governo, em níveis mais baixos, a ousarem alterar informações oficiais a ponto de falsear morte em vida, de pessoas tão famosas como Guilherme Boulos, Manuela D’Avila e Gleisi Hoffmann. 

O que não farão no campo dos detalhes menores? A destruição da realidade com o cancelamento do Censo, com a desativação de computadores que monitoram incêndios e estiagens, com destruição pelo fogo dos biomas e da memória nacional indicam claramente. Este governo, além de ameaçar a nação, trata de ir enxovalhando os conceitos de honra e mérito, entre outros símbolos nacionais. Vejam que o presidente elevou o torturador Brilhante Ustra à condição de Marechal, distribuindo medalhas vistosas não apenas para ministros inexpressivos como também para sua esposa.

Aonde isso nos leva?

Bom, estamos diante de realidades paralelas. De um lado, crescem a fome, a miséria, a legião de sem teto, sem casa, sem terra, sem esperança. De outro, o governo festeja o sucesso do agronegócio, ataca inimigos imaginários, constrói alianças de aluguel e estabelece verdadeira rede de pessoas sem ética, sem honra, sem preparo e sem moral, para com elas ensaiar, como ele diz, movimentos por fora “das quatro linhas da Constituição” federal.

Sabemos o que está acontecendo, sabemos quem são os interessados, os responsáveis e as vítimas. Sabemos o que deve ser feito e ainda assim, na calma das boiadas que marcham para a destruição, esperamos que algo mágico faça com que tudo se altere.

Felizmente o Padre Júlio Lancelotti está aí, para nos lembrar de responsabilidades inerentes à condição humana. Se trata de “ser ou não ser”. A primeira opção exige compromisso e atitudes em favor de um projeto de vida com espaço para os excluídos, que aponte um futuro onde a dignidade assuma característica de valor real para os povos deste pais. A segunda é a escravidão, a subserviência, a tristeza e o remorso.

Em qualquer caso, o certo, como afirma Lancelotti, é que o futuro não está contido no presente. Ele está sendo construído.

Como cantava Geraldo Vandré, toda hora é hora de começar, pois quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

Padre Júlio Lancelotti coloca flores no lugar de pedras que tinham sido instaladas pela Prefeitura sob viadutos de SP – Foto: Henrique de Campos/Divulgação

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

Uma resposta

  1. Angela Santos da Fonseca

    Muito bom Leonardo, obrigada por compartilhar 🙂

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