Democracia esmagada  (Por Marcio Pochmann*)

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Ainda sob as cinzas da destruição da segunda Guerra Mundial, George Orwel se propôs a denunciar na forma de um romance as aflições do totalitarismo expresso pelo governo que observava tudo através de câmeras. Meio século depois, batizada de Big Brother, a série reality show explicitaria a profética questão da quebra de privacidade pelo grande irmão contida no livro 1984 publicado em 1949.

Mas ao contrário do que anteviu Orwell a partir das experiências conhecidas pelos regimes autoritários de bisbilhotar a vida alheia, coletando e monitorando as informações sobre os cidadãos, as novas tecnologias revelaram a atualidade da atual sociedade de massas do exibicionismo/voyeurismo. Através das novas ferramentas tecnológicas, Facebook, Youtube e outras difundidas inicialmente por quase monopólio de grandes empresas em associação com o Departamento de Estado dos EUA, o anonimato perderia sentido perante a exploração do privado, inclusive na forma de participação pública.

Após o sucesso das empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) baseadas na internet, a crise de 2001 redefiniu outro modelo de negócios para as empresas ponto com. A economia de dados pessoais passaria a ser operada por grandes empresas (Apple, Facebook e Google) e corretoras de grandes bases individuais, que enriqueceram rapidamente ao armazenar e compartilhar seletivamente bancos de dados disponibilizados gratuitamente pelos usuários das ferramentas tecnológicas de comunicação e informação.

Nesse mesmo sentido, o desenvolvimento das redes neurais artificiais levou às máquinas o aprendizado e o reconhecimento de padrões, permitindo que algoritmos passassem a gerir simuladamente comportamentos humanos individuais e coletivos. Com isso, há a combinação sinistra entre a economia e a política estabelecida pelo capitalismo de vigilância para articular um novo modelo de negócios com o totalitarismo.

O esmagamento da democracia como se conhece foi sendo antecipado com o uso do Facebook na reeleição de Obama em 2012. Quatro anos depois, o Facebook e o Twitter teriam importância decisiva na vitória de Trump, assim como o Whatsapp na eleição de Bolsonaro, em 2018. Atualmente, assiste-se ao movimento de asfixia crescente dos meios de comunicação progressistas imposto pela ditadura dos likes e, sobretudo, da induzida orientação dos algoritmos a esvaziar seguidores e a inviabilizar a sua sustentação financeira.

Em virtude disso, a preocupação com a democracia e a soberania nacional ganhou mais relevo em países como a União Europeia. E diante da hegemonia exercida pelo capitalismo de vigilância, surgiu a alternativa da constituição de plataformas próprias de comunicação e informação como na China, Rússia e outros.

Há quase quatro décadas, Jürgen Habermas no seu livro Teoria da Ação Comunicativa defendeu o controle público sobre os meios de comunicação de massa com vistas a garantir a formação e sustentação democrática de vontades. Do contrário, a desregulamentação das estruturas e a monetarização de todas as dimensões da vida imporiam a ditadura dos interesses do mercado, esmagando a democracia tal como se conhece.

Veja também o artigo sugerido no Painel do Terapia Política com tema relacionado a esse texto.

Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br)

*Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados sobre economia social, trabalho e emprego.

Uma resposta

  1. Maria da Graça Nóbrega Bollmann

    Muito bom seu artigo, Márcio!

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