Quanto tempo leva para uma mulher perceber que foi vítima de abuso sexual? (Por Maiara Marinho)

Inicio meu primeiro texto como colunista sobre feminismo, abordando questões de gênero, raça e classe. É uma importante oportunidade em dois sentidos: primeiro por que escrever é definitivamente o que me traz mais satisfação na vida e segundo por que, com isso, tenho a oportunidade de aprender mais e mais com as temáticas que serão abordadas. Nos próximos textos, darei especial atenção aos temas identidade racial e a mulher pobre no mundo do trabalho hoje. Espero construir com as leitoras e com os leitores um espaço de diálogo e aprendizado coletivo. Obrigada a RádioCom pelo convite!

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Quanto tempo uma mulher demora para perceber que foi vítima de abuso sexual? Algumas mulheres, principalmente se o abuso é causado na infância, não identificam a situação como violência por consequência da naturalização de determinadas normas do patriarcado e pelo tabu que é falar sobre este tema. No Brasil, os casos de abuso sexual frequentemente acontecem com crianças e adolescentes, e as maiores vítimas são mulheres negras e mulheres em condições de vulnerabilidade social. Em geral, as vítimas são culpabilizadas em decorrência da roupa que estava usando, do comportamento que teve, de “insinuações” que supostamente deu. Mas o mais assustador é algumas pessoas assimilarem essas justificativas sem sequer se perguntar: e mesmo que a saia estivesse curta, e mesmo que a menina estivesse insinuado interesse, isso justifica uma relação sexual sem consentimento? É comum também os casos serem abafados pela família para não causar mais “constrangimento”.

Segundo um relatório ‘Out of the Shadows’, publicado em janeiro deste ano na revista The Economist, as dificuldades enfrentadas para lidar com abuso sexual estão relacionadas ao índice de democracia de um país. O Brasil ocupa o 11° lugar no ranking. Percebemos, no último processo eleitoral, o desconhecimento de parte da população brasileira sobre o que seria tratar sobre temáticas de gênero nas escolas, por exemplo, e o quanto isso causou estranhamento, medo e indignação. É claro que esta cultura é reforçada por séculos. Em alguns momentos temos avanços importantes e, então, quando nossa democracia está sob ameaças os discursos conversadores ecoam. 

A cultura patriarcal, contudo, também é reproduzida em espaços políticos progressistas. Principalmente se estes espaços forem hegemonizados por homens. Por experiência própria, nestes espaços são as mulheres (nem todas!) que chamam a atenção para determinados comportamentos, que buscam dialogar (nem sempre com paciência e isso é compreensível) a fim de fazer decifrável para os homens que determinados comportamentos são nocivos a nós mulheres e que isso só ajuda a manter uma cultura que não corresponde aos princípios coletivos que defendemos. Por isso, homens: chamem também vocês a atenção de outros homens quando perceberem comportamentos que reproduzem esta cultura que devasta a vida das mulheres. 

Quando uma mulher entende que viveu um abuso sexual, isso pode prejudicar uma vida inteira de relacionamentos dela com as outras pessoas. Algumas psicólogas falam que quem sofre o abuso desenvolve a questão da erotização, mas não da afetividade, e, por isso, apresenta dificuldades em manter relacionamentos. E não apenas relacionamentos românticos, assim como relacionamentos afetivos com qualquer outra pessoa. Também são inúmeras as situações de crianças que sofrem violência e crescem violentando seu corpo com prostituição, em relacionamentos abusivos, em situações de risco, acarretando em um ciclo de violências. 

Trago aqui três relatos, de forma anônima, de mulheres que vivenciaram diferentes situações de abuso. A primeira e a segunda viveram abuso sexual em casa, com pessoas da família ou próxima. A primeira foi com um primo. Ele tinha 16 anos e ela 9. Os abusos aconteciam em forma de chantagem: ela só poderia brincar com ele se ela o masturbasse. A situação mais emblemática foi quando estavam ele, ela e o irmão dela em casa, sozinhos, e o primo queria mostrar algo que ela iria gostar. Então, na frente do irmão, ele fez sexo oral nela. Segundo a menina, ela não sentiu nada, achou estranho, mas seguiu o resto de sua infância aparentemente normal. Foi na fase adulta, quando percebeu o que havia acontecido, que as consequências daquela situação apareceram. Hoje ela apresenta dificuldades de se relacionar e de acreditar que é digna de respeito e amor, manifestando uma série de comportamentos para afastar as pessoas quando percebe algum sintoma de afeto de outros em relação a ela. 

Com a segunda menina, o caso foi com o padrasto. Ela relata que talvez a situação tenha durado anos, mas não tem memória do tempo certo, pois era muito jovem. Segundo a vítima, “com o passar do tempo e com o meu despertar precoce para a sexualidade comecei a perceber que aquilo não era algo normal, não me fazia bem, embora eu nunca tenha me sentido obrigada, o que não descaracteriza um abuso já que eu era uma criança de uns seis ou sete anos. Eu era manipulada pelo indivíduo e só pude perceber isso no início da adolescência, quando me senti traidora da minha própria mãe”. Ela também conta que tem dificuldades para falar sobre o tema, pois tem receio de como as pessoas vão reagir e o que vão dizer. 

A terceira entrevista apresenta uma série de relatos, também comuns, de abuso sexual com o namorado. Situações como essa são bem difíceis, pois quando se está em um relacionamento as pessoas compreendem que se deve fazer uma série de concessões. Em uma cultura machista como a nossa, as relações sexuais acabam fazendo parte deste “acordo”, quando na verdade ninguém é obrigada(o) a ter relações sexuais ou fazer certas coisas quando não quer fazer. Segundo a terceira entrevistada, “a primeira vez foi com o primeiro namorado com quem eu mantive relações sexuais. Foi algo que demorou para eu perceber como abuso, até porque a gente acaba se sentindo envergonhada. Nós estávamos transando e ele insistiu para gozar na minha boca e eu disse que não. Eu tinha 17 anos, ele 20. Ele insistiu, eu disse que não várias vezes e quando percebi ele estava me segurando, já com o pênis na minha cara, me segurou e gozou. Eu saí correndo pra vomitar no banheiro. Depois, ele fingiu que nada tinha acontecido. Com o tempo eu percebi que toda relação que tive com ele, que durou uns seis meses, foi desse tipo. Com esse cara, eu também acordava algumas vezes à noite com ele já se esfregando e me penetrando”. Depois, outra situação aconteceu. “Em um bar, conheci um cara bem mais velho, eu já devia ter 18 e esse cara tinha uns 30. Nós conversamos, dançamos, rimos e ele convidou para ir ao apartamento dele. Eu fui, estava tudo bem, confesso que não lembro direito porque estava bem alcoolizada. Mas lembro que ele me levou para o quarto, já subindo em cima de mim. Eu lembro que eu dizia que não queria e lembro de fazer força pra não deixar ele baixar minha calça, mas não consegui. Eu peso 50 quilos e ele era um cara forte. Quando vê ele já estava penetrando e só parou porque uma ex começou a gritar na janela dele, pedindo pra ele descer. Eu aproveitei a situação, chamei um táxi e fui embora”, relata. 

Como já foi mencionado, os casos de abuso sexual são mais frequentes na infância e com membros da família. Contudo, infelizmente esse tipo de abuso se estende para qualquer fase da vida. Os homens são autoritários com as mulheres, as mulheres têm dificuldades de compreender algumas situações como violência, o Estado não fornece elementos suficientes de proteção às vítimas ou, pelo menos, a quem deseja fazer uma denúncia mas se sente desamparada e insegura. As três mulheres entrevistadas são feministas, compreendem a importância da denúncia, mas nunca conseguiram denunciar. Eu mesma nunca denunciei meus abusadores. Além disso, todas perceberam a situação como um caso de violência apenas anos depois dela ter ocorrido. Mas, para duas das entrevistadas, foi a partir do debate feminista que identificaram algumas situações como abusivas. 

De acordo com a terceira entrevistada, “perceber situações de abuso leva tempo, e acho que o feminismo é fundamental para isso. Porque informa sobre o abuso, porque mostra que é preciso reagir, porque mostra que a gente não precisa se abraçar na culpa quando essas situações acontecem e porque encoraja a falar encoraja a partilhar as situações. Toda mulher tem feridas, umas mais, porque o racismo e a pobreza fazem alvos preferenciais, mas em todos os casos, vejo que o feminismo ajuda tanto no processo de cura como na tentativa de que as mulheres possam sair de situações abusivas”. E então complementa: “Mas só o feminismo não basta, porque é preciso uma rede de apoio que permita às mulheres mais vulneráveis a saírem dessas situações. Isso envolve muita política pública, suporte material e psicológico, e infelizmente nesse sentido vejo a gente caminhando para trás. Não fossem iniciativas das próprias mulheres (de grupos de acolhimento, de grupos de conversa, de grupos de formação), seria bem complicado ter esperança hoje”.

Há muito ainda para destruir e reconstruir. A mulherada dá passos largos há muito tempo na história da humanidade e essa história tem sido contada pela metade. A cultura do estupro durante muito tempo tem sido reproduzida na televisão, nas telenovelas, na publicidade, e hoje já é possível perceber um pequeno avanço. Embora ainda sejam produzidos materiais midiáticos nesse sentido, a resposta dos movimentos sociais é instantânea e os resultados acabam aparecendo. Além disso, o capitalismo se apropria dessas pautas, já que elas já são inevitáveis. Dessa forma, para manter o consumo, o sistema precisa se adequar aos paradigmas contemporâneos. Mas isso é assunto para outro texto. 

Por fim, o feminismo tem muito a contribuir no sentido de auxiliar as pessoas a perceberem relações abusivas e hierárquicas e, a partir disso, romper com essa lógica no âmbito individual. No entanto, apenas isso não será suficiente. Muitas relações abusivas são decorrentes de dependência financeira, e sem uma política econômica e um mercado de trabalho (não flexível e precário como é) que permita autonomia a todas as mulheres, não há como avançar. Sem políticas públicas baseadas na realidade das mulheres negras que sofrem com a sexualização dos seus corpos e com o abandono afetivo, menos ainda avançaremos. Portanto, é apenas com a luta feminista coletiva e organizada, com pautas que sejam contempladas por questões de raça e classe é que definitivamente avançaremos. 

*Para quem quiser mais informações sobre o tema, o Instituto Patrícia Galvão produziu um dossiê sobre violência contra as mulheres. Basta acessar o link: https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencias/violencia-sexual/. 

Fonte: Maiara Marinho – Colunista RádioCom

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