A guerra dos generais (por Jorge Branco)

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General Villas Boas publicou em suas redes sociais uma manifestação que mantém alimentado o golpismo no Brasil. Diz o General da reserva: “pessoas de todas as idades, identificadas com o verde amarelo que ostentam, protestam contra os atentados à democracia, à independência dos poderes, ameaças à liberdade e as dúvidas sobre o processo eleitoral”, se referindo às operações empresariais de desestabilização do sistema democrático brasileiro que acompanhamos desde a derrota de Bolsonaro no segundo turno.

No dia 13 último, o General Rêgo Barros, também na reserva, publicou artigo que vai em sentido contrário ao de Villas Boas. Afirma Rêgo Barros que: “Não há justificativa para que alguns cidadãos se acreditem senhores exclusivos da verdade, esperando mudar no grito o curso da história” se referindo ao legitimo resultado das eleições.

Logo depois, outro General da reserva e ex componente do governo Bolsonaro como os outros dois, Santos Cruz, afirmou que as eleições foram legítimas e que “não há risco nenhum de golpe militar. Os comandantes (…) não vão tomar uma atitude fora da Constituição e desrespeitar o resultado de uma eleição em que maioria do povo brasileiro fez sua opção”.

A troca de manifestações públicas entre oficiais generais na reserva revela a encruzilhada que lideranças militares, ao se associarem politicamente ao governo Bolsonaro, lançaram as Forças Armadas brasileiras. O governo Bolsonaro funcionou como uma oportunidade de redenção política para setores militares que ainda se vinculam com as políticas e ideologias da ditadura militar. Os generais bolsonaristas seguem uma tradição de guerra política e quebra da hierarquia no interior das Forças Armadas que perseguem toda a história republicana do Brasil.

O General Augusto Heleno, Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República de Bolsonaro, por exemplo, formou-se no interior das quezílias e lutas internas da ditadura. Ajudante de Ordens do General Sílvio Frota, participou intensamente das conspirações contra a direção do regime para impedir a abertura de volta à democracia. Conspiração que teve a evidência maior no atentado terrorista do Rio Centro, em um ato do primeiro de maio de 1981.

Augusto Heleno e Villas Bôas são expressões de uma política cujo sentido fundamental é estabelecer a supremacia da ideia de que o fim da Ditadura Militar e a democracia no Brasil foram grandes erros. Suas saudações e regozijos às manifestações que apelam à intervenção militar, o que quer que isto signifique, soam como uma tentativa de indulto político e justiça histórica ao regime autoritário e aos radicais sinceros – nos termos de Ernesto Geisel – aos quais se afiliaram e cultuam.

A guerra agora é outra. Ainda que longe do papel que cumpriram generais da resistência, como Newton Estilac Leal ou Peri Bevilaquia, Rêgo Barros e Santos Cruz, expressam um campo distinto de preocupações entre os generais. Se posicionam na esteira dos que conduziram o regime para o acordo da anistia e da transição para um governo civil e que acabaram por assegurarem a sobrevivência a das lideranças e da estrutura militar, no novo sistema democrático que se abria a partir de 1985.

 As posições de Barros e Cruz apontam, para a transição do governo Lula, um caminho de acordo com a hierarquia militar. O reconhecimento da hierarquia em contra partida a garantia da normalidade democrática com o recuo das Forças Armadas para posições legalistas e no abandono público do ativismo e da politização das Forças Armadas.

Talvez seja suficiente momentaneamente para superar essa disjuntiva criada por Bolsonaro. Contudo, a gestão da questão militar no Brasil deverá passar por uma revisão profunda. Mais de meio século depois do golpe de 1964 e mais de um século do movimento tenentista de 1922, não é plausível a um Estado ser ver a frente de instituições militares que se projetam como poderes moderadores e reguladores da estratégia de desenvolvimento e da política. Em um país com tamanhos problemas estruturais, atrasos econômicos e dívidas sociais, as Forças Armadas devem servir como garantia da soberania nacional e como instrumentos logísticos da integração e da igualdade.

Lula, e a quem ele delegar a condução desta questão, terá que identificar líderes militares capazes de superar, definitivamente, a herança dos “radicais sinceros”. O desafio passará por reconstruir os vínculos das forças militares com a democracia e com o povo brasileiro para reestabelecer a legitimidade das Forças Armadas, tão erodida com a experiência regressiva e brancaleônica da patologia bolsonarista.

Jorge Branco -Sociólogo, Mestre e doutorando em Ciência Política. Diretor Executivo da Democracia e Direitos Fundamentais.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

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