Não deixem calar a nossa voz (por Leonardo Melgarejo)

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Nesta semana tivemos os escândalos da família presidencial num limite inédito.

O filho Eduardo “bananinha” pedindo confirmação em vídeo de tortura vivenciada por Miriam Leitão, durante o golpe de 1964.

O aparecimento, após dois anos de amorcegação, de um áudio sugerindo que a morte do miliciano envolvido no assassinato de Marielle seria queima de arquivo negociada no Palácio do Planalto para proteção da família presidencial, com quem o morto teria fortes e suspeitos laços de intimidade. Muito estranho mesmo, que um miliciano cercado por 50 policiais precisasse ser morto, e que até agora nada se saiba sobre o conteúdo dos 13 celulares, apreendidos naquela “operação”.

Também causou espanto a rápida defesa esboçada por Queirós, o operador das rachadinhas, referindo que a irmã do morto teria – em sua fala – errado 3 vezes de Palácio, insistindo em dizer Palácio do Planalto, quando queria dizer Palácio da Guanabara. E por fim, o próprio Bolsonaro, escorregando ao falar que a tramoia teria ocorrido no Palácio das Laranjeiras, sendo por isso óbvia mentira, posto que ele não tinha interesse na morte da Marielle. Enfim, trazendo em ato falho aquele homicídio até hoje impune, à gravação que o coloca como suspeito de articular a eliminação de Adriano da Nóbrega.

Tudo horrível e estranho, sugerindo que nosso problema nacional tem a ver com o tema da inconsciência coletiva e do desrespeito a valores, que nesta terra dependem da educação para a cidadania.

Mas que educação avança, neste governo?

De cara se percebe que também o Ministério da Educação segue a regra. Ali também não faltam escândalos. Após as propinas para construções de creches e escolas favorecidas por religiosos pouco cristãos, que atuando como intermediários do dinheiro público sob recomendação do presidente, se davam ao luxo de oferecer inclusive descontos em subornos que segundo a imprensa oscilavam de R$ 30 mil a mais de R$ 300 mil (um Kg de ouro). Também tivemos o escândalo de corrupção e super faturamento (da ordem de R$ 700 milhões), na compra de ônibus escolares, e, por último, ainda esta semana, tivemos anuncio de gastos da ordem de R$ 26 milhões para aquisição de “kits-robótica” destinados inclusive a escolas onde os alunos não possuem sequer água para beber.

De fato, temos um enorme problema educacional, que tende a se agravar. E é este o tema de hoje.

Milton Ribeiro, o último ministro da Educação, ao reconhecer em depoimento à Câmara Federal que vivemos a pior crise educacional de nossa história, afirmou que sua equipe técnica estaria trabalhando para investir 98% de todo dinheiro disponível para educação. Seria de fato algo urgente, pois, segundo ele, 2 em cada 3 de nossos alunos não conseguiria ler ou entender textos adequados para a faixa etária.

Como se viu em poucos dias, com os escândalos, relacionados àquele empenho cívico de sua equipe, o ministro caiu.

Mas e o governo?

Este parece que vai bem, até porque, com a fragilidade do sistema educacional, é lenta a decepção e a evolução de consciência, entre nossa população.

A dificuldade de acesso à educação e a qualidade do ensino, hoje transformado em mercadoria sem alma, parecem estar na raiz disso tudo.

Ao que se percebe, este governo colocou em marcha um mecanismo que distorce conteúdos fundamentais à democracia, permitindo que avancem conceitos e idealizações criminosas a respeito de papeis institucionais.

Assim, o Estado, os representantes públicos e as normas de convívio vêm sendo manipulados em favor de uma concepção de mundo onde não há espaço para a dignidade e os direitos humanos. Com isso, a sociedade, as famílias, as escolas e os valores de base ética e moral perdem legitimidade e força, sendo substituídos por ideias enganosas e ofensivas a toda forma de emancipação.

Vemos a sociedade desistindo de si mesma. Acatando uma padronização e normatização de conceituações validadas por este governo, quanto aos fundamentos da felicidade, da honestidade, da justiça, da sexualidade, dos direitos humanos, e sem perceber, nos encaminhamos para a barbárie.

A inacessibilidade a bens da modernidade, imposta àqueles que só possuem seu corpo e seu trabalho para vender, coloca a exclusão como regra de convívio nacional. Neste trote, os direitos à alimentação, à saúde, à educação, ao trabalho e ao lazer, se tornam produtos de mercado, a serem disputados de forma desigual e injusta entre diferentes camadas da sociedade.

O livre arbítrio e a organização social em defesa da humanidade e da natureza passam a ser vistos como impulsos criminosos a serem combatidos com todas as armas, pelas forças públicas. E com a destruição dos caminhos para a educação popular se solidifica a perpetuação deste sistema iníquo. É através deste empenho pela “deseducação” que as discriminações e todas as formas de racismo se expressam. Ali se sustenta a definição (e aceitação pacífica) do que é válido e a quem compete aprender/ensinar, bem como para quem é legítimo e permitido acessar os processos de educação formal e ascender por meio do conhecimento.

Por isso, e diante da resistência efetiva a esta avalanche que tende a soterrar milhões de brasileiros, quero evidenciar a importância, a trajetória e o livro de Alex Cardoso, o Alex Catador. O título é do Lixo a Bixo, e o livro pode ser comprado pela internet neste link.

Dentre os muitos ensinamentos ali impressos quero destacar o fato de que para grande parte dos excluídos, o acesso à escola se assemelha à noção de vergonha e à perda de tempo. Implica em se enganar, sonhando com um futuro distante, enquanto no presente se transfere esforço aos familiares e se deixa de contribuir com a manutenção da família, perdendo tempo no estudo, ao invés de trabalhar.

O desafio superado por Alex na condição de primeiro universitário da história em sua família de fato exigiria para quase todos, como ele relata, além de um governo de verdade, também e, principalmente, a compreensão, o sacrifício e uma ampla articulação familiar e comunitária. Uma verdadeira mudança de perspectiva e paradigma, onde o cuidar das pessoas necessariamente se confundirá com o cuidar de si, da sociedade e do planeta.

Neste relato percebemos a necessidade de enfrentamento e superação de dogmas e mitos ardilosamente colocados em favor de poucos, em todas as dimensões de nossa convivência social. Vejam o debate ocorrido também esta semana no auditório Dante Barone. Ali a pergunta era simples: o Guaíba é um rio ou um lago? A ciência indica ser um rio, que flui até desaguar na lagoa dos Patos. Porém, em sendo um lago, ele atende melhor aos interesses de investidores, patrocinadores e especuladores e por isso, tantos inocentes repetem, com apoio das grandes mídias e sem pensar: lago, lago, lago, mito, mito, mito.

O que permite insinuar ligação entre a concepção de rio ou lago, para o Guaíba e o desgoverno que nos guia, ou os fundamentos da educação e a luta dos milhões de Alex? Segundo Marilena Chauí, aí reside uma lógica que dá força àquelas ideologias que achatam o espírito humano. Se trata do silenciamento e das cumplicidades que o generalizam, alimentando a apatia.

A ocultação das raízes, causas e interesses faz que ideias e vantagens benéficas às classes dominantes sejam vistas, aceitas, e até defendidas como ideais e justas, pelas vítimas a elas submetidas. É preciso acordar, e reagir, como nos alerta Beatriz Fagundes, todos os dias, na rádio Manawa.

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* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Por Leonardo Melgarejo

Edição: Katia Marko

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