Sérgio Sampaio, a peste e a caixa preta da terra (por Leonardo Melgarejo)

Notícia chocante de fim de ano?

Que tal a de capitulação da humanidade, em relação às possibilidades de enfrentamento ao caos detonado por este modelo de desenvolvimento idiota, suicida, ecocida e biocida, que nos controla?

O fato: Logo após a Cop26, de onde se esperavam compromissos que não vieram, e que seriam essenciais para contenção do aquecimento global, cientistas anunciaram (Deutsche Welle, 22-12-2021) a instalação, em região remota da Austrália, da Earth’s Black Box – A Caixa Preta da Terra .

Equipamentos encerrados em bloco de aço com 10 metros de comprimento, ligados à rede global de satélites, captando automaticamente dados sobre 500 indicadores de alterações no clima, na temperatura, na biodiversidade, em índices de poluição, de saúde e outros detalhes relativos ao nosso avanço, rumo ao fim da vida que conhecemos.

A finalidade? Garantir, para a posteridade ou eventual curiosidade alienígena, acesso aos registros do apocalipse terrestre.

Nas palavras otimistas do diretor executivo daquele projeto, “se o pior acontecer e a civilização desaparecer por causa das mudanças climáticas, essa caixa indestrutível terá registrado todos os detalhes. Desta forma, quem permanecer, ou quem encontrá-la depois, aprenderá com nossos erros”.

Para entender as implicações do aquecimento global, basta olhar meia dúzia de gráficos.

Para lembrar que o Brasil tem responsabilidades em seu enfrentamento, vale repetir: a biodiversidade capta calor, e seu oposto, a homogeneização territorial, libera calor. Ignorando isso, na pátria do agropop estamos fazendo nosso melhor em favor do aquecimento global. Com o avanço das queimadas, que prenunciam implantação de pastagens e monoculturas dependentes de agrotóxicos, além de ampliar a temperatura do planeta, estamos destruindo as bases essenciais para sua contenção.

Simples assim: com este modelo, mesmo que o mundo suspenda de imediato, e totalmente, o uso de combustíveis fósseis, e ainda assim contando com toda a Amazônia, precisaríamos de um século para retornar ao clima de 1980.

Mas como ter otimismo em relação a isso, sabendo que 2021 foi o ano da pior devastação de que se tem conhecimento, na biodiversidade amazônica?

Por que isso acontece?

Porque aqui opera uma intencionalidade política não apenas negacionista como também estimuladora do caos. Com o desmonte dos órgãos reguladores e na ausência de fiscalização, ambições do mercado tomaram o freio nos dentes. Na cara dura, estão estimulando a apropriação privada e a destruição da biodiversidade contida em terras públicas, da Amazônia Legal. Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), ali as terras públicas concentrariam mais da metade das áreas devastadas. O IPAM também informa que, com a validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) autodeclaratório, em 2020 mais de 23% das terras públicas não destinadas da Amazônia foram registradas como propriedades privadas. Ali teria acontecido 44% do desmatamento registrado em 2019 e 2020. Para completar, 75% daquelas terras já estariam transformadas em pastagens de uso privado.

O quadro piora com o anúncio recente de que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos pretende a inserção de garimpeiros e pecuaristas na classificação de Povos e Comunidades Tradicionais. Assim, eles poderiam solicitar tratamento especial em questões de acesso àqueles ambientes.

Em outras palavras, a aceitação, por muitos, da ilusão de vantagens envolvidas na troca da biodiversidade fundamental à vida de todos pelo lucro de poucos ajuda a entender o sentimento daquelas pessoas sinistras que instalaram, lá no fim do mundo, a tal caixa preta da terra. Eles desistiram. Eles acreditam que, no ponto que chegamos, só resta deixar rolar, acompanhar a temperatura subindo, e morrer.

Felizmente nesta mesma semana também circulou um texto de Raí, irmão de Sócrates, sobre a peste. Ele escreveu quando a peste não é combatida, nos transforma. Sem reação, passamos a ser a própria peste.

Pois bem, eu acredito que ele está certo. Que apatia resignada é covardia.

Por maiores que pareçam os problemas, alguns estão bem ali, na nossa área. E destes, agindo em bloco podemos dar conta.

Para 2022, precisamos abrir os olhos, e botar o bloco na rua. Com Sérgio Sampaio, alegria e fé.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Marcelo Ferreira

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

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