“Água não se vende, água se defende” (por Leonardo Melgarejo)

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Nesta semana acompanhei o VI Congreso Internacional de Salud Socioambiental y III Encuentro Intercontinental Madre Tierra Una Sola Salud e recomendo a todos/todas, que se inteirem a respeito deste evento.

Muitas exposições ricas, atualizadas em conteúdo e instigantes nas suas abordagens. Vários temas relacionados a um pressuposto básico: a vida depende da água.

Territórios que vivenciam degradação da água, experimentam degradação da vida, e os avanços em algumas situações já são irreversíveis. A supressão de áreas de neves “eternas”, nos Andes, a destruição de florestas na Amazônia, o uso absurdo de agrotóxicos, a criminalização de povos tradicionais e ambientalistas, são indicativos do avanço de uma ignorância desembestada, que se enraíza na invasão das Américas, e precisa ser controlada com urgência.

Estas circunstâncias já mudaram para sempre, entre outras tantas artérias que alimentam os povos da América do Sul, aqueles 4.880 km do rio Paraná, e com ele as possibilidades vida de milhões de pessoas e bilhões de outros seres. E aquele rio portentoso é apenas um dos exemplos de alterações irrecuperáveis, relacionadas a nosso descaso com a água. O próprio aquífero guarani passa por tamanha crise que já é classificado como recurso natural não renovável.

Pois bem, o VI Congreso Internacional de Salud Socioambiental y III Encuentro Intercontinental Madre Tierra Una Sola Salud associa este tipo de crime contra a vida à nossa ignorância. Desprezamos a importância de holobiontes e dos macro organismos por eles formados. Holobiontes, seres resultantes de complexas interações relacionadas à coevolução integrada de seus genomas. Assim como nós, humanos, que vivenciamos simbiose com tantas bactérias, em nossa flora intestinal que, a considerar pelo número de suas células e genes (comparativamente ao que é especificamente “nosso”), seria equivocado afirmar que somos pessoas e não colônias bacterianas. Humanos. Somos combinações interativas onde predominam células e genes de outros seres, que coevolucionam conosco, fazendo-se indispensáveis ao funcionamento dos sistemas orgânicos que nos definem. “Sou, porque somos”, afirma sabiamente a expressão Ubuntu, popularizada por Mandela.

Enfim, o mesmo se dá em todos os biomas. Eles são verdadeiros macro organismos formados pela simbiose de suas partes vitais. E no entanto, os biomas, em sua magnificência, não são mais – nem menos – do que partes componentes da vida em Gaia.

E tudo isso depende da água.

Justifica-se, portanto, seu caráter divino e as preocupações que a sabedoria, a consciência e a ciência digna reclamam em sua defesa. As várias mesas do Congresso trataram disso, mostrando que inclusive as radiações eletromagnéticas de fornos micro-ondas e sistemas de comunicação 5G carregam novas ameaças que nos estão sendo ocultadas pelos mesmos mecanismos de escravização e controle que vulgarizaram a essencialidade da água.

A sucessão de pandemias e a distorção de informações sobre o papel de corporações do agronegócio, do mercado de carnes, combustíveis, mineração, armas e comunicações estariam mancomunadas na ampliação de dramas relacionados ao que pode ser visto como redução da água, de sua condição divina ao papel de repositório para todo tipo de lixo.

Ignorância alimentada pela exclusão, pela discriminação, por diversas formas de racismo que hoje incorporam uma dimensão ambiental inédita, que se revela em fatos singelos. Nossa degradação é também intelectual e espiritual, como se revela no fato elementar de nosso superministro da Economia, apontado como inepto por seus pares e pelas evidências de sua gestão, chamar a nosso ministro da Ciência e Tecnologia de “burro” e a outros agentes de governo, de “incompetentes”. Enquanto isso, nosso presidente afirma que vacinas contra covid causam Aids, e que vagas de ministros do Supremo Tribunal Federal seriam influenciadas por caixas de sapato recheadas de grana.

Ao mesmo tempo, nossa contribuição ao aquecimento global cresce como nunca, reafirmando descaso nacional com compromissos presidenciais, na Assembleia Geral da ONU.

Estas ignomínias seriam explicadas pela doença que nos afeta a todos? Parece que sim, pois nisso se revela o virtual fim da ética, da moral e da sabedoria construídas pela humanidade, quando esta se fazia aliada da natureza.

O VI Congreso Internacional de Salud Socioambiental y III Encuentro Intercontinental Madre Tierra Una Sola Salud discute isso e mais, apontando alternativas. 

Quais seriam?

A união dos povos, em respeito a suas peculiaridades e às diferenças culturais – que expressam conexões e identidades profundas, com os territórios por eles habitados. A união da humanidade esclarecida, por avanços em processos educativos e contra a homogeneização ecocida, genocida, etnicida, conduzida por este modelo de desenvolvimento insustentável.

São muitas as evidências neste sentido, tratadas com profundidade no Congresso, das quais vou referir um mínimo, tão somente para fechar a coluna de hoje.

Considere-se, por exemplo, que todos os povos tradicionais das Américas (e inclusive os da África) atribuíam à água um caráter divino. Sua dança circular e permanente ocorreria através de formas perceptíveis desenhadas através dos rios, nuvens, chuvas, fontes e mares, mas também aconteceria na evolução das plantas, insetos, aves e todos os animais. E ainda, na invisibilidade de seres que todos os xamãs sempre afirmavam existir. Espíritos, sim. Mas também, o que hoje sabemos serem as bactérias, protozoários, fungos, cepas viróticas e tudo que se associa à vida, à morte e à reciclagem de todos os seres. A água seria uma divindade que caminharia, voaria, cavaria o solo e brotaria em forma pura, em todas as fontes, em todos os bebês.

De repente, acontece uma invasão – que ainda continua – de territórios onde a água era um dos muitos deuses que orientavam o comportamento coletivo. Os invasores, alegando um deus único, mas cultuando a ganância, a estupidez e o desrespeito à vida, reclassificaram bens comuns divinizados, como a mãe terra, a mãe água, o sol, os ventos, e as ligações misteriosas que une isso tudo, em mercadorias. E se apropriaram delas, limitando seu acesso a todos os demais. A água passou a ser instrumento subordinado ao fogo, desde nas máquinas à vapor até nas usinas nucleares. Passou a ser elemento de transporte de minérios e destino de todo o tipo de dejetos inventados pela civilização da barbárie, capaz de criar lixos virtualmente eternos e invariavelmente destinados a se acumular nas reservas de água.

A água em todas suas formas, inclusive aquela que caminha conosco, ao longo de nossos momentos de passagem pela casa comum, agora metamorfoseada de paraíso em inferno.

Vejam a estupidez de decisões que permitem a privatização da água.

No Chile isto significa que as fontes podem ser alugadas, vendidas, hipotecadas e penhoradas. Com isso, a privatização do direito de uso à água viabilizou mercados futuros, virtuais, onde são factíveis infinitas transações antecipadamente a qualquer tipo de uso efetivo.

Quem não puder pagar, não terá água. Simples assim.

Resulta óbvia uma necessidade vital: precisamos voltar a sacralizar as fontes de água, criminalizar sua destruição, reconstruir noções de respeito à vida de todos, em conformidade com a seguinte premissa: a saúde é uma só. Humana e ambiental, simultaneamente, a saúde do planeta exige que aproximemos nossos compromissos para com os direitos humanos, aos direitos da natureza, onde a proteção da água, que deve ser livre, acessível a todos, se coloca como ponto fundamental.

Como anunciou liderança indígena, no congresso a que nos referimos: “água não se vende, água se defende”.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

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