E você? Vai ficar aí parado, esperando a morte chegar? (por Leonardo Melgarejo)

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Uma doença, que impede esforços físicos, que bloqueia a respiração, que não permite lutar nem fugir, e que leva à morte em desespero tanto adultos como velhos, jovens e crianças.

A ausência de governo e crescimento de incêndios que destroem tudo. O terror ampliado pelos gritos dos animais queimados em vida.

E os exércitos de invasores impiedosos.

De repente, 20 mil assassinos, armados com instrumentos de morte para os quais não há defesa possível, avançando rumo às populações remanescentes. Bandos de estupradores pisoteando nas cinzas do paraíso, com cobertura aérea e apoio de telecomunicações avançadas. Pode?

Será o fim dos tempos, como no roteiro futurista de invasões alienígenas?

Não.

Esta é a realidade imposta, hoje, aos Yanomanis e a outros povos da Amazônia.

Está acontecendo agora por deliberação de um governo à serviço da morte, que atua com o apoio de criminosos iludidos pelo frenesi de quem pensa que com sua própria desumanização, vai acabar sacando benefícios do inferno.

E nada disso é novo.

Está se repetindo, em 2021, algo que já aconteceu com os Tapuias, Charruas, Ava Guarani, Guarani Kaiowa, Guajajara, Krenak, Caingangues, ciganos, judeus e os povos de matriz africana, para resumir este drama a alguns poucos exemplos dos períodos recentes.

Esta é uma realidade possível, porque imposta por agentes do caos enlouquecidos, que avançam com o apoio dos coniventes. Uns e outros se escondem atrás de discursos em defesa de alguma família, algumas posses e muitas normas que, eles talvez acreditem, poderão lhes garantir migalhas na eventual partilha das sobras.

Esta semana no programa Arte, Ciência e Ética num Brasil de Fato Roberto Liegbott jogou luzes sobre estas  relações entre o inferno na terra, os sonhos de paraíso elitista e o tratamento reservado aos povos do Brasil. São claras as implicações disso tudo com a desinformação, a passividade ou a covardia dos citadinos que observam desatentos a desterritorialização imposta aos povos das águas, e das matas, a quem está sendo assim negado o direito de existir.

Se trata do extermínio, como agenda de um governo que adota a mentira como estratégia de comunicação social e que conta, para isso, com apoio de deputados, senadores e quem sabe até mesmo de alguns ministros do STF, além da apatia da sociedade local e internacional.

Marco Temporal revela articulação de bandos que, por ganância, além de desmoralizar as instituições nacionais, pretendem corroer a ideia de solidariedade entre os povos, a ONU e o próprio espírito humano.

Não percebem, mas estão acabando com a vida em si. Em ignorância e má fé, desprezam conhecimentos importantes. Estão a um só tempo estimulando o aquecimento global e destruindo elementos essenciais para enfrentamento das crises que daí resultarão.

Estudos recentes apontam que o Acordo de Paris já não poderá ser cumprido. Hoje estima-se que em 2030 o aquecimento global, em relação ao período pré-industrial não será de 1,5, mas sim de 2,7 graus centígrados. O IPCC menciona que, com isso, os efeitos serão irreversíveis, por milênios, para o planeta inteiro, em que pese a heroica luta dos Yanomanis em defesa de todos. (Para que não restem dúvidas sobre isso, recomendo observação do mapa do clima)

Mas o pior está no que já sabemos: a culpa é nossa e as vítimas não estão restritas às gerações futuras. O caos está em andamento. A morte de milhões, pela crise da água, agravada pela covid-19 e pelas novas pandemias que ainda resultarão do desastre ecológico, não reduzirá o problema geral. Mesmo com a eliminação de 50% da população planetária, como os sacrificados tenderão a se concentrar nos mais pobres, tal crime pouco impactará sobre o aquecimento global.

Ademais, os mais pobres incluem os defensores da natureza e aqueles outros que exercem níveis de consumo reduzido. A proteção ambiental é tão importante que na simples falta de áreas verdes estariam as causas de 43 mil mortes ao ano, nas cidades europeias Estudo deste ano, publicado na revista Lancet associa concentração daqueles óbitos à impactos sobre a saúde física e mental de europeus com habitações situadas a mais de 500 metros (5 minutos de caminhadas) de áreas verdes.

Também é relevante o fato de estudos recentes afirmarem que o sucesso de adaptação às mudanças climáticas exigirá adoção urgente de conhecimentos elaborados pelos povos tradicionais. Há certo consenso quanto à necessidade de reorientação nos processos de construção de conhecimentos, englobando visões mais abrangentes do que as adotadas no método científico dominante. Isto se apoia no fato de que em sua simplificação, o método eurocêntrico não apenas ignora variáveis relevantes para compreensão de mecanismos de interação cultura-ambiente, como sequer tenta compreendê-las em escala global.

Em outras palavras, para enfrentar o caos a humanidade precisa, além de interromper suas causas, reconstruir suas leituras de vidas regionalizadas, tomando em conta o efeito das alterações climáticas sobre os calendários ecológicos de todos os biomas, bem como das conexões entre eles.

Trata-se de entender fluxos naturais ecossistêmicos, tendo em conta seus ritmos sazonais sem desprezar indicadores sutis, em fase de transição acelerada.

Os métodos científicos usuais, ainda que apontem o caos com eficiência, seriam inaptos para desenhar tais soluções porque obrigatoriamente, ao simplificar a realidade, não apenas omitem variáveis relevantes como também geram importantes lacunas de conhecimento, construindo paradigmas tão equivocados como as “leis de mercado” e sua “mão invisível”.

Neste sentido, a superação da crise planetária estaria exigindo atenção às vivências dos povos tradicionais, com seus conhecimentos, ritmos e sistemas de intervenção ecológica. Por isso, formas interpretativas secularmente desprezadas, agora ressurgem, como pontos de apoio necessários à compreensão e monitoramento dos ritmos de mudanças, bem como para o estabelecimento de estratégias para manejo e preservação do ecossistema global.

O mais relevante disso está na emergência de um novo tipo de globalização da consciência. A vida humana precisa de um pacto de respeito à natureza e seus protetores, em escala global, articulando os diversos povos tradicionais. Precisamos agora de fluxos que garantam interconexão positiva de todos os biomas planetários, com aproveitamento e dinamização dos estoques de conhecimento historicamente relacionados a seus diferentes ecossistemas.

A dimensão desta perspectiva, e as implicações de sua negação, exigirão a mobilização de todas as pessoas e todos os governos, com contenção daqueles que, em se opondo à Natureza, ameaçam a vida como um todo. Isto coloca relevância nossos compromissos individuais em apoio a todas as organizações comprometidas com esta visão, atribuindo especial relevância a articulações internacionais, como a CLOQ e a Via Campesina, entre outros.

No plano local, claramente não basta reiterar a indignação com as falas da famiglia, ou com o tratamento paliativo mortal imposto àqueles pacientes caros que se recusam a deixar leitos de UTI, em serviços de saúde elogiados pelo governo, ou mesmo com os R$ 9,5 milhões depositado por nosso ministro da Economia em paraísos fiscais…. Precisamos entender e corrigir o fato de que nossa ignorância e passividade estão não apenas construindo um processo de desumanização que nos envolve, como também aceleram a destruição de bases de conhecimentos indispensáveis à superação do caos.

Agora é simples, ou bem os problemas dos povos da Amazônia são compreendidos como sendo do interesse de todos nós, ou vamos nos contentar em ficar aqui, parados, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko

Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1990) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). Foi representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio (2008-2014) e presidente da AGAPAN (2015-2017). Faz parte da coordenação do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (2018/2020 e 2020-2022) e é colaborador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, do Movimento Ciência Cidadã e da UCSNAL.

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