“Tanta vida pra viver, tanta vida a se acabar” (Por Leonardo Melgarejo)

Estamos chegando a um número oficial de meio milhão de óbitos, por conta da “gripezinha”. Quantos serão, na verdade, os mortos em decorrência da desumanidade, da impunidade e da ignorância de alguns líderes de nosso triste pais? Talvez jamais venhamos a saber. Mas está claro que a tragédia se agrava a cada dia, por orientações enganosas, que induzem a riscos de morte, encorpando as aglomerações em festas, bares, hospitais e cemitérios.

Já não se trata “apenas” do presidente da república, seus ministros, alguns médicos aparentemente afoitos e os tantos cidadãos iludidos ou irresponsáveis, que insistem na recomendação de soluções e medicamentos que, para a covid, se comprovaram inúteis. A questão é mais séria porque a sensação falsa de que a cloroquina ergueria uma espécie de escudo protetivo contra o vírus não só está rompendo os cuidados de higiene pessoal e isolamento, como também acelera o surgimento de novas variantes.

Por que lavar as mãos, comprar álcool, fazer longos trajetos a pé, se posso tomar o “remédio” e pegar o ônibus? E por que acompanhar os protestos contra a destruição do Estado, se tenho muito a fazer, tocando minha vida, caçando a comida da família, dia após dia?

Pessoas com problemas circulatórios, pulmonares, hepáticos, coronários, tomando drágeas recomendadas por alguns senadores, deputados, vizinhos, patrões, conhecidos, parentes e até mesmo formadores de opinião ignorantes, seguem agravando comorbidades que podem levar a tantos óbitos que o povo já não crê, na contabilidade oficial do número de vítimas.

Ao mesmo tempo, com a sociedade atemorizada, enganada, avançam projetos de lei que destroem o Estado, comprometem a soberania, ameaçam os direitos humanos e apontam para ampliação na demanda por covas nos cemitérios do Brasil.

Basta pensar na privatização da Eletrobras, e os futuros apagões. Ou na possível liberação no Brasil, sem embasamento científico adequado, do trigo transgênico argentino. Tolerante ao herbicida glufosinato de amônio, que se associa a danos neurotóxicosgenotóxicos e problemas reprodutivos, e tem seu uso proibido na Europa. Este trigo garantirá presença daquele veneno em todas nossas massas, pães e até nas hóstias sagradas da comunhão cristã.

Não bastasse isso, o governador Leite volta atrás em mais uma promessa e coloca em regime de urgência o PL 260, que destrói nossa lei gaúcha dos agrotóxicos. Com isso ele regularizará ilegalidades que permitem encontrarmos nas águas de consumo humano, de nosso estado, venenos como o paraquat, a atrazina e muitos outros tóxicos de uso não autorizado em seus países de origem.

A ilusão e a alienação imposta à sociedade brasileira por mecanismos deste tipo explicam um outro fato dramático: para cada caso registrado de intoxicação com agrotóxicos, além de ampliar-se o risco evidente de morte por covid, existirão outros 50 casos ocultos, não informados. Estes roem lentamente a saúde da população e provocarão tragédias no futuro próximo.

Os desvios éticos e morais envolvidos neste tipo de assunto só podem ser entendidos pela “naturalização forçada” de destinos distintos. De um lado as tragédias, de outro os benefícios hereditários, assegurados aos líderes dos grupos que estão majoritariamente representados nos poderes Executivo e Legislativo. Alienação de um lado e impunidade do outro explicariam o fato daqueles representantes da sociedade não se constrangerem quando traem compromissos assumidos e mentem, em nosso nome, nos palácios de governo, nas assembleias legislativas, na Câmara Federal, no Senado da República e até na ONU.

Estas pessoas, que não se fartam de enganar, desmoralizando as instituições, ampliando o número de tragédias familiares e aprofundando a desconfiança do povo na democracia, me lembraram, ao escrever esta coluna, de uma cena do filme “E o Vento Levou”. Uma cena menor que não tem sido referida como importante, mas que é – a meu ver – uma das melhores da história do cinema. Vou reproduzir de memória. Visualizem. Um velho caseiro, um homem negro, idoso, de cabeça branca e curvado pelo tempo, com uma machadinha na mão e um guarda-chuva na outra, anda como pode, no barro, do pátio, chamando um galo com voz macia diz: “já comemos sua esposa, seus pintinhos, agora é a sua vez. E afinal, já não resta mais ninguém para chorar por você”. A cena corta para o que sobrou do galo assado, numa mesa posta com cristais e porcelanas.

E o filme segue, rumo àquele pôr do sol romântico que fez tantas pessoas mergulharem distraídas no correr dos dias, repletas de emoção e confiança no futuro. Somos como aquele galo, um detalhe na vida dos personagens e espectadores?

A música de hoje é Réquiem para Matraga, de Geraldo Vandré.

A seguir, um áudio sobre este mesmo tema: http://coletivocatarse.com.br/2021/06/04/tanta-vida-pra-viver-tanta-vida-a-se-acabar/.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte: Edição: Marcelo Ferreira

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