Novo regime climático e abordagem ambiental

A crise sanitária imposta pela pandemia viral em 2020 aponta para a manifestação do novo regime climático resultante do conjunto de alterações ambientais ameaçadoras, que demarca o  início de nova época geológica, o Antropoceno, caracterizado pelos efeitos do impacto da atividade humana nos ecossistemas do planeta – massificação urbana, desmatamento e construção de represas.

De um lado, a concentração do gás carbônico e metano na atmosfera é registrada desde 1850 como o impacto capitalista do avanço no modo de produção e vida urbano e industrial, que se acentuou aceleradamente somente cem anos depois. De outro, há o depósito de cinza inorgânica, e as partículas carbonáceas esféricas de alumínio, concreto e plástico que são disseminadas pela queima de combustíveis fósseis produtores de novos tipos de rochas e minerais em todo o mundo, inclusive nas calotas polares.

Tudo isso aponta para o novo regime climático compatível com o aquecimento global  e a extinção em massa das espécies, mesmo a humana. Essa constatação está a exigir nova abordagem ambiental, capaz de modificar a centralidade na excepcionalidade humana e no tratamento dos outros seres como simples recursos naturais.

A emergência climática reveladora do colapso ambiental, cuja pandemia viral atual se apresenta como uma das diversidades de problemas planetários, requer superar o enunciado contido desde a publicação do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson (1962), reveladora da saturação ambiental que decorreria do modo de produção e consumo industrial. De lá para cá, as políticas governamentais convergiram fundamentalmente com a perspectiva da reconfiguração de uma espécie de capitalismo verde, cuja variedade de medidas buscou compatibilizar, em geral, a manutenção do modo de produção e consumo com a preservação ambiental.

Em 1989, com a criação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o monitoramento científico das mudanças climáticas se tornou real, comprovando continuamente os diferentes desafios impostos à população mundial a partir do segundo milênio. O negacionismo climático manifestado por mentirosos e manipuladores tem se somado ao predomínio dos interesses capitalistas de curtíssimo prazo de empresários, governantes e parcela da população que parecem secundarizar a ciência, quando não desconsiderar o próprio conhecimento difundido.

Entre a segunda metade do século 19 e a primeira metade do século passado, a abordagem ambiental introduzida pelo sistema de impérios vigentes no capitalismo em expansão da época se mostrou compatível com as políticas de administração humana do que era denominado por recursos naturais. No sentido da nação em construção, a conjunção do território com a paisagem e a natureza era definidora do espaço vital de relacionamento das espécies com o ambiente, materializado pela noção dos parques de preservação, como nos Estados Unidos, que abriu em 1872 o primeiro parque nacional do mundo (Yellowstone) e o Brasil, em 1939, o Parque Nacional do Iguaçu.

Além disso, as medidas legais introduzidas com o objetivo de proteção ambiental tiveram pouco êxito. Destaca-se, no Brasil, por exemplo, a Lei das Terras promulgada por Dom Pedro II em 1850 que, embora proibisse a exploração florestal em terras descobertas, permaneceu praticamente ignorada até a definição do primeiro código florestal, em 1934, no governo Getúlio Vargas.

Pode-se ressaltar também o conjunto de iniciativas governamentais corretivas da exploração capitalista frente a graves e crescentes desastres ambientais. Chama a atenção na Europa, por exemplo, a poluição ambiental ocasionadora da morte de 60 pessoas na Bélgica (Vale do Meuse), em 1930, e de cerca de 12 mil residentes de Londres pela denominada névoa matadora, em 1952.

Com o final da segunda Guerra Mundial, a difusão da ideologia do american way of life consolidou o padrão de produção e consumo que passou a ser gradualmente questionado por seus efeitos ambientais destrutivos, gerando o aparecimento das abordagens ambientais preservacionistas e conservadoristas, ainda que capturadas pela expectativa do desenvolvimento de um capitalismo verde.

Importantes contribuições inseridas nas estratégias de políticas ambientais foram implementadas por inéditas ações governamentais em busca do controle da poluição ambiental, do planejamento territorial e da avaliação de impactos ambientais e do licenciamento de atividades e potencial poluidor. Também uma geração de conferências e acordos internacionais ganharam proeminência, estabelecendo metas e parâmetros ambientais a serem implementados e seguidos por todos os governos das nações.

Tudo isso, contudo, mostrou ser insuficiente. A devastação ambiental e suas consequências perversas para a humanidade, ainda que amenizadas, mantiveram-se ativas.

A abordagem da transição ecológica, cada vez mais em alta, emerge inexorável enquanto incompatibilidade do capitalismo conviver harmonicamente com o ambiente planetário. A tragédia herdada da pandemia da Covid-19, se acompanhada por mobilização social e política pode, talvez, gerar novo aprendizado ambiental consciente de que a humanidade ainda pode fazer diferente, não mais transgredindo com o modo de produção e consumo atual.

Fonte: Artigo publicado originalmente no blog Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br)
*Marcio Pochmann: Economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados sobre economia social, trabalho e emprego.

Deixe uma resposta