Pra fora mesmo é mais embaixo! (Por: Aleksander Aguilar-Antunes*)

Pedalando como se faz todo o fim de semana na capital de Pernambuco, sob um sol como sempre escaldante nessas terras tropicais, no domingo 21 de fevereiro nós gritamos e ondeamos “Fora Bolsonaro!” pelas ruas e pontes do Recife, participando dos dias de lutas da Campanha Nacional Fora Bolsonaro promovida pela CUT e pelo MST.  

Há sorrisos e peito aberto pra expressar o “Ele não!”, mínimo necessário de se dizer diante da sua patética e perversa figura. Mas o que estamos – todos nós que achamos estar “do lado certo da história” – pensando, elaborando e construindo pra que sua derrota não seja apenas seu fracasso eleitoral, nem o bolsonarismo (que é bem maior e complexo que si) seja apenas o suposto contrário de um “basculho”? 

Porque forças politicas sem capacidade de criação nem visão pra sair de suas famigeradas bolhas, que focam mais em ‘lacração’ do que em transformação, resignadamente sempre se achando muito ‘realistas’, e tentando retornar ao protagonismo institucional apenas para fazer business as usual não é o que precisamos, não é o que devemos querer. 

Quem quer derrotar o bolsonarismo ( e não só Bolsonaro), enquanto visão de mundo que ganhou o voto e também tem ganhado, ainda, corações e mentes da maioria dos mais desfavorecidos no Brasil, não pode oferecer só mais do mesmo. 

Não precisamos só de um novo governo, de novo, por mais que se vista de muito vermelho, recauchutado e melancólico, e sim de novos projetos de mundo, de subalternidades articuladas pra que cosmovisões emancipatórias sejam políticas públicas onde ”progresso’, por exemplo, deixe de ser vendido como horizonte, senão enfrentado como o que é: coisa destrutiva que a gente vê olhando pro rio, mega-supermercado em cima de mangue, o capital passando por cima de gente. ‘Progressimo’ não é nem nunca foi o contrário de bolsonarismo. Nós precisamos viver bem, não desenvolver-nos.

O desenvolvimento é um conceito cada vez mais central e em disputa nas análises e propostas sociopolíticas na América Latina hoje. Na opinião do economista e politico equatoriano Alberto Acosta, um dos grandes debatedores da noção de ‘bem viver’ (que se opõe frontalmente a toda e qualquer adaptação ao conceito de desenvolvimento como parâmetro de bem estar social) ‘desenvolvimento’ esteve presente no vocabulário de governos de diferentes cores e tendências durante todo o século XX: ou seja, tanto em países centrais do capitalismo quanto em experiências socialistas como um objetivo inquestionável. 

Com os chamados governos progressistas latino-americanos no começo deste século XXI o problema se repetiu e muitas vezes se agravou; em lugar de buscar outras formas de organização social e práticas políticas, aprofundaram o modelo extrativista de dependência econômica de recursos naturais, na maior parte das vezes sob o custo de identidades e culturas de povos tradicionais. A ideia de crescimento econômico do Estado, associado ao discurso do desenvolvimento e progresso, se sedimentou nesse limitado imaginário político de forças políticas de esquerda que se apresentam como única via realmente possível de mitigação das injustiças sociais, mesmo que o custo para isso seja, paradoxalmente, o de reforço das mesmas estruturas que mantém a mecânica das desigualdades e destruição da vida em funcionamento. 

O poder político do aparato estatal é nada mais que o de uma classe privilegiada que quer regular a vida social a partir de um marco mercadológico, (crescimento econômico) negando a pluralidade de povos nos diferentes territórios de cada Estado-nação outras formas de conduzir-se politicamente. A condição comunitária para a reprodução da existência social é constante e muitas vezes deliberadamente socavada mesmo por aqueles projetos políticos que se dizem emancipadores, mas que acabam agudizando a deterioração das condições de existências globais, pois deixam de reconhecer os limites geofísicos do planeta e insistem em um organização socioeconômica baseada em extrativismos. 

Sob essa acepção é fundamental para o debate tomar em conta as pluralidades étnicas que, com suas respectivas particularidades históricas e cosmogênicas, incidem ou podem incidir – por sua capacidade de gerar reflexão para o desenvolvimento de novas categorias analíticas sobre formas de organização sociopolítica – em múltiplas visões sobre o significado de Estado e de outras categorias políticas para o ordenamento territorial humano que enfrentam estratégias, muitas vezes veladas, de supremacia branca, ou seja, do legado colonial de estruturação do poder que em variadas e renovadas formas tem se reproduzido ao longo do tempo e que certamente não pode ser derrubado apenas com a promessa de mais progresso sem que essa noção seja problematizada e reconfigurada. 

O tema da apropriação/reapropriação social da natureza, nas palavras dos geógrafos Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro Quental-Araújo, é a linha-de-força que atravessa essa discussão que, inserida no grande debate sobre desenvolvimento, cada vez encontra menos condições de ignorar a questão territorial. Povos originários, camponeses, quilombolas, e povos de terreiro são exemplos de desterritorializados que, em suas lutas por reterritorialização, invocam a essa linha como o eixo vertebrador de uma reivindicação por reconhecimento de direitos e diversidade de formas de organização sociopolítica, e assim expandem o debate para além do marco binário entre desenvolvimento/subdesenvolvimento.

Nós queremos o Bolsonaro fora, mas não só do cargo eletivo que ele ocupa, senão da possibilidade de suas ideias sequer serem levadas a sério. Pra isso nossa ideologia deve ser realmente melhor, devemos disputar valores e não eleitores, queremos gentes com “digna rabia” e não só bons cidadãos. Precisamos de um mundo onde caibam muitos mundos, mas não o Bolsonaro, que nem coisa de mundo é.

*ALEKSANDER AGUILAR ANTUNES é jornalista, acadêmico, escritor e articulador político-cultural. É um dos autores do livro “América Latina y sus pueblos em movimento” (Letra Maya, 2018), resultado do programa pós-doutoral pesquisa de mesmo nome da Associação Latino-americana de Sociologia (ALAS) e atualmente trabalha em seu conceito de ‘articulações subalternas’ como pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Política Social e Direitos Humanos da UCPel. 

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