Me manda pra Venezuela! (Por Regina Abrahão)

O desfile de horrores sobre o enfrentamento à Covid na cidade de Manaus, Amazonas, foi agravado nesta semana por mais uma falha da “logística” de enfrentamento ao Covid: A falta de oxigênio para os doentes. Neste cenário tenebroso uma notícia que deveria servir de alento gerou controvérsia e hostilidade. Um Twitter do ex-vice presidente da Venezuela, Jorge Arreaza reproduzia a fala do presidente Maduro após conversa com o governador do Amazonas, Wilson Lima. Dizia que a Venezuela liberaria o produto necessário para atender à “contingência sanitária”. E concluía com “Solidaridad latino-americana ante todo!”.

O gesto de solidariedade de Maduro foi, primeiro, negado pelos seguidores do governo, denunciado como fake, ofensa, Era fake, disseram, ainda na quinta-feira. Outros disseram que aquele país deveria guardar para “os milhões de doentes” de lá. A imprensa, sempre tão omissa com notícias daquele país apressou-se a explicar que: Maduro apenas liberaria a filial da empresa White Martins para exportar sua produção para Manaus.

Nenhuma gentileza. Só que, considerando o violento embargo a que aquele país e seu povo são submetidos, é inconteste um gesto de grandeza e solidariedade. O povo do Amazonas morrendo asfixiado e os seguidores do genocida ironizando e ignorando os recursos oferecidos. Apoiaram um golpe que está destruindo o Brasil, ignoram a corrupção e o genocídio promovido para que o Brasil não se transforme numa Venezuela. O pior é que convencem as mentes mais obtusas disto.

Estive na Venezuela em 2008, e o que vi lá foi um povo orgulhoso de seu governo. Chávez era amado e respeitado pelas mudanças realizadas, pelo resgate de um nacionalismo sadio e um internacionalismo sério. O incentivo à educação, à saúde (a partir da contratação de médicos cubanos para os pueblos¹ e a redução da mortalidade infantil contemplaram um povo explorado e sofrido.

O governo enfrentou a mídia golpista investindo na TV estatal, e nocauteou a mídia golpista. Outras duas iniciativas que renderam apoio a Chávez, a Operacion Milagro², cirurgias ambulatoriais de catarata, devolvendo a visão a milhares de pessoas, e a criação das Integraciones³, ônibus que ligavam os bairros mais pobres, nas encostas de Caracas, ao metrô. Antes de Chávez não havia eletricidade nestas regiões, nem água encanada, nem transporte coletivo. A alimentação lá é muito simples: ovos, batatas, arroz, feijão, repolho, frango. Suínos em ocasiões especiais, e excepcionalmente carne de gado.

Mas tem as deliciosas arepas, pães redondos feitos com farinha de milho e fermentação natural. Cerveja e cigarros raros e caríssimos, gasolina muito barata e alguns prédios luxuosos, da época em que a Venezuela era quintal estadunidense. Inclusive um Hilton estatizado por Chávez que se transformou no Alba Hotel, cuja principal finalidade hoje é a hospedagem de participantes de encontros e congressos.

Sim, encontrei também opositores, uma delas a trabalhadora de uma lan house. Perguntada sobre o país, cuspiu no chão. Contou que o pai emprestava dinheiro a juros e que tinha uma vida de princesa. Depois da criação do Banco do Povo, com juros muito mais baixos, a atividade foi inviabilizada, e ela, que empregava duas domésticas, agora precisava lavar as próprias roupas e trabalhar. Também encontrei jornalistas revoltados, motoristas dirigindo seus carros antigos e reclamando não poder trocar por modelos mais novos, classe média indignada com as escolas de turno integral para aquela gente dos Pueblos.

Hoje, anos de bloqueio comercial e queda dos governos progressistas latino-americanos agravaram a situação. A fome e o desabastecimento são realidade. A violência urbana é alta, Caracas hoje é considerada a cidade mais violenta do mundo. Milhares de venezuelanos abandonaram seu país, premidos pela necessidade de sobrevivência. O país segue na mira dos abutres do norte, que tem uma oposição empenhada na queda do sistema político e inconformada com a perda de regalias. Mesmo assim, oferecem ao Brasil o produto vital para a sobrevivência do povo assolado pela pandemia, sem embargos.

Sobre a pandemia, os números oficiais dão conta de 112.000 casos no país vizinho. Mortes são pouco mais de mil, num dos menores índices mundiais. Este foi o resultado das medidas precocemente adotadas pelas autoridades sanitárias, que incluíram lockdown, distribuição de cestas de alimentos e bônus para trabalhadores informais, salário para os 67% de trabalhadores formais, congelamento de preços de produtos essenciais para a alimentação, fechamento das fronteiras e a criação de um comitê para enfrentamento da Covid que reúne diariamente.

A vacina Sputnik V foi testada a partir de outubro e em dezembro 10 milhões de doses foram compradas. O planejamento é que sejam usadas em até em três meses e inclusive estrangeiros lá residentes serão vacinados. Outras doses estão sendo adquiridas, o país pretende vacinar toda a população até o final do ano. Um banco de vacinas conjunto com Cuba está sendo criado para atender os parceiros da ALBA-TPC⁴. Há quem diga que os números estão subestimados, que a situação não é tão tranquila, mas os médicos cubanos que desde 2002 são maioria no atendimento de saúde confirmam os números oficiais. Não há notificações de mortes em casa ou síndrome gripal, abundantes aqui no Brasil.

Então quando ouço ou leio alguém falando da “ditadura venezuelana” primeiro penso nas duas semanas em que convivi com aquele povo maravilhoso, na grande festa de 13 de abril com milhares nas ruas e palcos alternados com estilos diversos. Nas palavras de Chávez. E que mesmo sendo estrangeira, se lá estivesse já estaria vacinada. Concluo que quando me mandarem para a Venezuela vou pensar com carinho no caso apesar de ser brasileira e amar meu país, mesmo com todo o obscurantismo que o envolve hoje.

¹ Regiões mais pobres, nas encostas dos morros de Caracas, com pouca infraestrutura.

² Cirurgias ambulatoriais de catarata que devolveram visão a milhares de pessoas.
³Ônibus que ligam os pueblos ao metrô.

⁴ ALBA-TPC: Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos (Cuba, Bolívia, Equador, Venezuela, Nicarágua, Santa Lúcia, São Vicente, Granadinas, Dominica, São Cristóvão, Neves. Granada, Antígua e Barbuda

Fonte: Regina Abrahão. Sindicalista, feminista, funcionária pública do RS.

Imagem: arquivo Internet

Deixe uma resposta