O que queremos? (Por Regina Abrahão)


Agora, 1º de dezembro, o secretário de vigilância em saúde, Arnaldo Medeiros fez uma declaração que poderia ser animadora para a população: “A partir de hoje o Brasil começa a pensar de maneira concreta sobre a vacina para a Covid 19”. Isto no Brasil, país com mais de 170 mil mortes e seis milhões de casos da doença. E ainda não atingimos o pico.

Reino Unido aprovou nesta mesma data sua primeira vacina, inicia o processo ainda esta semana. Rússia já está vacinando. Alemanha começa na próxima semana. Outros países europeus, na segunda quinzena de dezembro. Estados Unidos, ainda sob o governo negacionista de Trump, começa a imunizar a população também em dezembro.
Aqui no Brasil, recém o ministério da saúde começa a esboçar um plano de imunização. O plano se resume em definir grupos e prioridades. A promessa é iniciar no primeiro trimestre.

Quantas doses foram compradas? E quanto aos recursos necessários? Refrigeração, transporte, seringas, profissionais, nada sobre estes detalhes. Seis vacinas em teste no país e o governo preocupado com a ideologia do país de origem, não com a eficiência…

A lógica da presidência é acreditar que negando o problema ele irá embora. E enquanto nega, a pandemia atinge, óbvio, a parcela mais vulnerável da população A primeira vítima da Covid no país foi uma trabalhadora doméstica. Sua patroa trouxe a doença da Itália, sabia que estava contaminada e fez seu isolamento em casa, mas sem dispensar a empregada. E não foi culpabilizada.

A doença chegou ao Brasil através dos ricos, mas quem mais morre são os pobres. A prevenção não é possível para 32 milhões de brasileiros que não tem água encanada, e mãos são veículo de transmissão. Sabe-se agora que o vírus pode sobreviver nas fezes por até 7 dias, resíduos do vírus são encontrados nos esgotos, e 54% deles não tem tratamento. Isolamento em domicílios de apenas um cômodo onde vivem 4 ou mais pessoas é impossível. Transporte público precário e invariavelmente lotado para quem ainda consegue trabalhar. Como controlar?

O uso de máscaras, outro fator fundamental para evitar a contaminação, é desaconselhada pelo presidente, é coisa de maricas. O discurso moralista que endeusa o trabalho encontra-se com 14% da PEA desempregada, informalidade e salários insuficiente. E os ricos? Ficaram ainda mais ricos, os pobres tornaram-se miseráveis. Brasil de volta ao mapa da fome. Cristofascismo, milícia, devastação, e a boiada passando.
Quanto foi gasto na superprodução de cloroquina? Não se sabe ao certo. Certo é: o mesmo presidente que não usa máscara (e não deve lavar as mãos) está promovendo um genocídio.

Extermínio daquela parcela da população que não tem acesso à prevenção, nem ao tratamento, que sequer tem alimentação capaz de reforçar a imunidade. Aquela parcela que está fora dos padrões de consumo ou já não tem mais força de trabalho para vender barato. Aqui é preciso esconder uma carga de vacinas para evitar o vandalismo! Natural, no país onde o deputado-filho garante que o vírus foi criado em laboratório, na China, e a vacina mudará o DNA.

Com o acirramento da pandemia e o fim do auxílio emergencial avizinha-se a convulsão social. Sem trabalho, sem comida, sem vacina o que restará ao povo? O país que exporta comida, enquanto seu povo passa fome, está ciente que a miséria gera revolta e revolta gera violência?
E o judiciário? E o congresso? Não será o momento de pressionar, de chamar, de pedir, de exigir? Não será o momento de organizar movimento exigindo a continuidade do auxílio emergencial e a vacina? Que seja entupindo as caixas de e-mails, mensagens, boicote a tudo o que não for essencial! Urge sair da bolha e entender a calamidade em que estamos mergulhados! Momento de buscar a unidade da esquerda, dialogar com a parcela não-fisiológica do centro e centro-direita e tentar uma saída?

Contra Bolsonaro e pela vacina eu tenho uma convicção: Preciso, quero e estou junto. Mesmo que precise de antiácido e Plasil, aquele remédio contra enjoos e mal-estar. E conversar, compor, elaborar, trabalhar muito, superar a estreiteza e avançar!
O que queremos? Queremos viver. Chega de morte, basta de horror! Unidade e vacina já!

Fonte: Regina Abrahão é Sindicalista, Feminista, Funcionária Púbica Estadual do RS.

Imagem: internet

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