Desinformação em vídeo da Frente Parlamentar de Agropecuária sobre agrotóxico proibido: o paraquat não é pop ( Por Leonardo Melgarejo)

De fato, a pior praga é a desinformação. Especialmente quando ela induz a erros que podem causar prejuízos aos que mais amamos. Mais grave ainda são aquelas situações que envolvem propagandas enganosas, apoiadas em afirmações equivocadas ou intencionalmente mentirosas. Na combinação destes casos esconde-se desrespeito inaceitável, quando parte de uma organização parlamentar que deveria zelar pelo interesse dos agricultores brasileiros, com prioridade ao maior de seus interesses: a saúde da família, dos trabalhadores, de seus descendentes. 

Vídeo da Frente Parlamentar de Agropecuária sobre o agrotóxico paraquat

Em veiculação sobre o paraquate, da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), chamam atenção as imagens de culturas onde o uso daquele veneno não é comum, como tomate, alface, cenoura. Bem como as ameaças de triplicação em custos de produção da agricultura nacional e da alimentação das famílias brasileiras, além da referência inusitada a milhões de desempregados.  De onde eles tiraram aquelas ideias? Qual a fonte? O que tais afirmativas teriam a ver com o paraquate (paraquat), que sequer figura entre os 5 agrotóxicos mais usados no Brasil? 

Trata-se de claro esforço para erigir sustentações falsas, em apoio a uma mensagem básica: descumpram a lei, usem o veneno proibido. Ou, talvez: tratem de mudar a lei porque queremos MESMO despejar aqui este lixo recusado em grande parte do planeta. 

Importações de paraquat no Brasil crescem – em desrespeito à ANVISA

Basta examinar  as importações de paraquat, para entender melhor a intencionalidade oculta. As importações se ampliaram, no período em que deveriam ter sido limitadas, em respeito à decisão a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). E agora, é necessário que cidadãos mal informados assumam os riscos de saúde necessários à manutenção de ganhos empresariais, ameaçados pela proteção à vida.  

Desde que a ANVISA anunciou a proibição de uso do paraquat, em 2017, transcorreram três anos concedidos como prazo para os ajustes de mercado. No período, as importações daquele veneno, que já tem limitações de uso em mais de 50 países, ao invés de serem reduzidas,  cresceram em nosso mercado à razão de 15 mil toneladas por ano. Em 2017 importamos 35,3 mil toneladas de paraquat, em 2018 foram 50,8 mil ton e, em 2019, 65,3 mil toneladas. E sabendo que não existe dose tão baixa que possa ser negligenciável para casos de Parkinson e Alzheimer,  associados ao paraquat, a FPA veicula que “o veneno está na dose”, e ainda mostra um agricultor aplicando veneno com pulverizador costal, sem as proteções necessárias. Onde, como e por que pessoa aquela roupa seria lavada? O paraquat é absorvido pela derme, por inalação, por qualquer tipo de contato. E para ele, não existe antídoto. 

Parecer da ANVISA é melhor fundamentado que liberação dos EUA

Considerando isso, o parecer vitorioso aprovado pela ANVISA se mostra tão superior ao processo decisório levado a termo nos EUA quanto ao paraquat, que devemos esperar ajuste naquele outro e não em nosso país. A agência de proteção ambiental norte americana (EPA) teria examinado  casos de aberrações cromossômicas e mutagênese relacionadas ao paraquat, apenas  quando associadas a câncer, desprezando todas as outras situações. Ademais, a EPA teria levado em conta apenas 21 dentre os 217 estudos considerados pelo Brasil, deixando de lado elementos fundamentais para caracterização dos danos. 

Afirmativas enganosas emitidas por fonte que tem consciência deste fato, estimulando descumprimento à norma legal e ações temerárias em relação à saúde dos brasileiros, não deveriam ter origem em frente parlamentar representativa de interesses nacionais. Resta perguntar: quanto custou, e quem pagou por aquela peça publicitária? Quem será responsabilizado  pelos danos que vierem a surgir? A quem interessa a desinformação, em casos tão alarmantes como este? Também na saúde, vale tudo para estimular o avanço da boiada?

Fonte: Leonardo Melgarejo é colunista da RádioCom, integrante da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, da Associação Brasileira de Agroecologia e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos

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