Agrotóxico na nuvem de gafanhotos é ameaça ambiental

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O Coletivo Catarse vai iniciar uma série de coberturas sobre as questões dos agrotóxicos no Rio Grande do Sul e Brasil. Neste primeiro material, conversamos rapidamente com Antônio Philomena, que é oceanógrafo, especializado em Ecologia Humana pela Unisinos, perito ambiental e Ph.D em Ecologia pela University of Georgia (EUA). Philomena aponta que dificilmente os venenos que se pretenderiam dispersar sobre as nuvens teriam muito efeito no sentido de acabar com um possível problema, como as nuvens de gafanhotos, mas que, na verdade, poderia ser muito mais custoso ao ambiente no médio e longo prazo.

Aqui você pode ouvir nossa conversa, que enseja uma preparação para um próximo Podcast do Coletivo Catarse, quando aprofundaremos essas e outras questões com Antônio Philomena e Leonardo Pillon, advogado, integrante de uma frente que se articula contra a política de agrotóxicos vigente no Brasil.

A seguir a transcrição da conversa:

Coletivo Catarse – A recente ameaça da chegada de uma nuvem de gafanhotos aqui no Rio Grande do Sul pôs em polvorosa uma parte do nosso agronegócio que, em alerta, já colocou seus aviões carregados de agrotóxicos em prontidão. Vimos isso sendo promovido na grande mídia corporativa, sem nenhum questionamento. Na Argentina, a nuvem foi atacada com veneno. Esses agrotóxicos, quando jogados, vão agir somente contra os gafanhotos? Não é a troca de um problema pelo outro, talvez, ainda maior? Como fica a dispersão desse veneno? E não sendo com agrotóxico, como poderia ser feito esse enfrentamento?

Antônio Philomena – Respondendo a suas perguntas, eu poderia dizer, inicialmente, que existe nessa situação dos gafanhotos um desconhecimento. Apesar dessas nuvens de gafanhotos existirem desde 2005 no Paraguai, na Bolívia, existe um desconhecimento de como atacar eficientemente essas nuvens. Diga-se de passagem que, na Argentina, já foi alertado que existe um outro tipo de gafanhoto, bem maior, que vem vindo numa nova nuvem. Então, existem condições ambientais na Bolívia, no Paraguai e até na Argentina que esse inseto se procrie com esse número. E, exatamente agora, com esse maior, eles tem um esqueleto por fora, um exoesqueleto, que aguenta muito, aguenta frio, aguenta calor e aguenta também agrotóxico. Então, respondendo à primeira pergunta, não existe agrotóxico específico para gafanhotos desses tamanho. Em geral, quando ocorrem em plantações, são filhotes, recém saíram, se transformaram, têm o exoesqueleto mais sensível e sofrem mais quando a aplicação é feita de uma maneira mais geral, pois não têm algo específico para esse inseto. Claro que nos preocupa essa questão de aplicação e a dispersão, que se debate muito no Rio Grande do Sul essa dispersão, porque vai afetar todo o ecossistema – isso sem sombra de dúvidas. Inclusive, de uma certa maneira, todos esses eventos são na área do Aquífero Guarani, apesar de que a maior parte não é… Eu estava olhando o mapa do Aquífero, a maior parte não é no afloramento, seria mais à oeste ainda. Então, é em cima da área de confinamento do Aquífero Guarani. Mas é claro que abelhas, beija-flores, morcegos, que fazem a polinização também, todos vão sofrer com essa questão. E existe uma série… O governo listou agrotóxicos que nem se usa aqui, agrotóxico pro cupuaçu… Eles decretaram guerra, né? E na guerra vale tudo! Eu até faria um desafio aos agricultores, se eles não pensaram no fogo?! Botar fogo… Agricultor sabe botar fogo em tudo, né? É só ver como está o Brasil. Então, eles colocariam fogo no campo, nas plantações, perderia só um ano… O governo poderia repassar a verba, e, no ano seguinte, não haveria a contaminação pelo agrotóxico, que vão ser anos e anos nos sedimentos, nas lagoas, nos peixes, nas rãs… E com o fogo não. Daí, põem fogo em tudo quando eles forem chegar. E, aí, acabou!

Fonte: Coletivo Catarse – Gustavo Türck e Marcelo Cougo

Assista resultado da aplicação ilegal e indiscriminada de agrotóxicos no Rio Grande do Sul durante a primavera de 2018, quando meio bilhão de abelhas morreram:

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