A morte silenciosa nos frigoríficos (por Gabriela Chaves Marra)

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Foto: Food connection

O processo de trabalho dos frigoríficos é caracterizado pela divisão do trabalho, sua forma de organização é composta por linhas de produção. As condições de trabalho e os riscos ambientais e as atividades de rotina repetitivas levam ao adoecimento desses trabalhadores, consequência do padrão determinado pelo sistema capitalista de produção. A competitividade impõe o ritmo de trabalho acelerado e com acúmulo de tarefas. Por estarem em um ambiente vigiado e hierarquizado, os trabalhadores sofrem pressão por parte dos encarregados, supervisores, técnicos de segurança e pela empresa.

Os trabalhadores sentem-se submetidos não somente às condições precárias de trabalho, mas a estar confinados em um ambiente de trabalho que leva ao limite entre a saúde e doença, causando danos físicos e emocionais e propiciando a disseminação de doenças, entre elas a Covid-19.

Estudos desenvolvidos pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que os surtos em frigoríficos favoreceram à disseminação da Covid-19 em municípios onde estão instalados e nos vizinhos, áreas do interior com maior incidência da doença e onde vivem a maior parte dos trabalhadores. O MPT do Rio Grande do Sul informou que, até o dia 12 de julho, subiu para 6.202 trabalhadores testados positivo para o novo coronavírus, em 39 plantas frigoríficas instaladas no Rio Grande do Sul. Dessas 39, 14 apresentaram mais de 100 casos. De acordo com o registro feito pelo MPT, nos três estados do Sul do país, já são 11.500 casos confirmados em 104 fábricas.

O Boletim Epidemiológico Covid-19 do Centro de Operações de Emergências do Rio Grande do Sul, da Semana Epidemiológica (SE) 28 de 2020, informa que, desde a primeira confirmação, em 29 de fevereiro de 2020, até o término da SE 28 (11/07/2020), foram confirmados, 39.609 casos no estado. Deste total, 991 evoluíram a óbito.

O ambiente de trabalho é considerado insalubre, pois os profissionais estão expostos aos riscos físicos, ergonômicos, biológicos, acidentes, entre outros. A associação desses fatores de risco pode aumentar o nível de estresse dos trabalhadores e trabalhadoras e acarretar o decréscimo de desempenho e desgaste no trabalho. Esse processo de intensificação é resultado da exploração capitalista, norteada pelo agronegócio e as grandes empresas que controlam o mercado internacional.

A partir da necessidade de determinar limites para as indústrias de processamento de carnes, para a segurança e saúde dos trabalhadores e trabalhadoras, neste período de pandemia, foi publicada a Portaria Conjunta n° 19 de 18 de junho de 2020, entre a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Esta portaria, além da obrigatoriedade de uso dos EPIs, estabelece as medidas a serem observadas visando a prevenção, controle e diminuição dos riscos de transmissão da Covid-19, nas atividades desenvolvidas dentro da indústria de abate e processamento de carnes e derivados, destinados ao consumo humano e laticínios. Também determina o afastamento imediato de trabalhadores das atividades laborais presenciais, por quatorze dias, de casos confirmados da Covid-19, casos suspeitos da Covid-19 ou contactantes de casos confirmados da Covid-19.

Os fatores de risco, tanto de natureza ambiental, organizacional ou relacionados ao trabalho, encontram-se correlacionadas. A estrutura da planta industrial aliada à concentração de trabalhadores e trabalhadoras, o ambiente úmido com mudança de temperaturas e pouca circulação de ar, entre outros fatores, favorecem a disseminação da Covid-19.

No interior das indústrias frigoríficas os trabalhadores e trabalhadoras, além do uso dos EPIs, devem manter um afastamento de 1 metro, se não for possível deverão usar máscaras cirúrgicas. Além disso, as empresas devem fornecer viseiras plásticas ou óculos de proteção (ou instalar divisórias impermeáveis entre os postos de trabalho) e adotar regime de escalas de trabalho.

O contato físico entre os trabalhadores no ambiente de trabalho em frigoríficos é fato, devido à natureza das atividades que são desenvolvidas e à proximidade dos postos de trabalho. Fica claro o quadro negativo sobre a saúde, tornando-os vulneráveis ao adoecimento. O ambiente hierárquico no controle constante do trabalho indica um lugar de silenciamento e de banalização da saúde, e não de participação dos trabalhadores nas decisões, durante todo o processo de trabalho. Os trabalhadores têm a percepção do risco, e é através de suas vozes e com sua participação que será possível mudar este quadro.

*Gabriela Chaves Marra – militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro de Pelotas

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