Coronavírus e bolsonarismo: as duas doenças que assolam o Brasil (por Christian Velloso Kuhn)

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Christian Velloso Kuhn (*)

O Brasil é um país doente. Sofre recentemente com o vírus do COVID-19, que vem infectando milhares de brasileiros e matando centenas de pessoas. Mas sofre ainda mais (como se não fosse o bastante), por causa da lentidão e despreparo que o governo demonstrou no combate ao coronavírus. Ao invés de se espelhar nas melhores práticas dos países que enfrentaram a pandemia, preferiu seguir na contramão via a negação das evidências científicas e orientações da OMS, com o presidente liderando a permissão irresponsável de aglomerações em manifestações de apoio ao seu governo e ataque ao Congresso e ao STF, e abertura de locais dispensáveis (igrejas e lotéricas), sem deixar de citar seus discursos alienantes de subestimação da gravidade do coronavírus, cunhando vulgarmente de “gripezinha”. Não se furtou nem de expor e “fritar” o ministro Mandetta, da Saúde, o melhor quadro do seu governo, tampouco poupou governadores, prefeitos e a mídia de críticas improcedentes.

Não bastava esse trágico cenário, Bolsonaro tergiversou durante mais de uma semana, copiando a ideia delirante de Milão de que o país não podia parar, estratégia (ir)responsável pela morte de 15 mil mortes na Itália, demonstrando falsa preocupação com o povo mais carente com a interrupção das atividades econômicas. Obviamente, essa é uma questão fundamental, ainda mais num país com 38 milhões de trabalhadores informais, 12 milhões de desempregados e 13,2 milhões de brasileiros sobrevivendo na miséria extrema. Todavia, se os países desenvolvidos adotaram políticas monetária e fiscal expansionistas, concedendo renda adicional e crédito para os trabalhadores, restava ao Brasil no mínimo repetir tais medidas, estendendo-as aos mais necessitados. Ademais, esse quadro só é tão grave justamente porque o governo pouco fez pela população mais pobre desde que assumiu o país. Por que se preocupar com a economia somente a partir da crise causada pelo coronavírus?

Infelizmente, o governo Bolsonaro tardou sobremaneira a decretação de uma medida de Renda Básica Emergencial (RBE), erroneamente chamado de “coronavoucher”, ao passo que rapidamente Guedes foi visto acalmando o mercado financeiro, palestrando na XP investimentos apresentando um programa que custeará 5% do PIB, cerca de R$ 750 bilhões, sendo que aproximadamente 65% desse montante é destinado a empresas e bancos. Dialeticamente, se na aparência, Bolsonaro afaga a população de baixa renda e trabalhadores informais com sua apreensão quanto às consequências pertinentes de fome, miséria e desemprego por causa do lockdown decretado por governadores e prefeitos, na essência é um governo plutocrata, elitista e caquistocrata voltado para mega necroempresários, pastores evangéllcos charlatões, milicianos, alto escalão dos militares e grandes latifundiários ruralistas, sem deixar de incluir seu círculo de amigos mais próximos e parentes. A população está um tempo demasiado largada a própria sorte.

Pra piorar, o governo foi ainda mais lento nas medidas preventivas e corretivas na área da saúde. Demorou demasiadamente para aquisição de materiais e equipamentos e nada fez para reconversão industrial para adaptação das fábricas para sua produção e oferta interna. A maior parte das ações nesse sentido tem partido de iniciativas empresariais e de associações. Mandetta vem sendo mais um analista da evolução do coronavírus no país na mídia, do que um gestor de uma pasta com um plano de ação de combate à pandemia. Para recrudescer esse quadro nefasto, o “sinistro da Deseducação” Abraham Weintraub, no auge de sua incompetência e petulância, ainda cortou a verba de bolsistas das universidades, inclusive daqueles que vinham pesquisando sobre o vírus. E o ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, deve estar essa hora se protegendo do COVID-19 no espaço, já que não deu as caras em nenhum momento desde que o primeiro brasileiro foi contaminado. Aliás, é uma figura decorativa desde o início do governo.

É sabido que Bolsonaro já vinha ameaçando a democracia com seu flerte à ditadura, fascismo e práticas monárquicas, contudo, num contexto de crise que ameaça inclusive a sobrevivência das pessoas, independentemente da sua classe social, sua leniência, inépcia e inércia no combate ao COVID-19 tornou ainda mais insustentável a sua permanência na presidência. A revista Isto É chegou recentemente a copiar a capa ilustrada com a foto de Michel Temer,quando preparava o terreno para o golpe sobre a presidente Dilma Rousseff, trocando pela foto do atual vice-presidente e adaptando para o título “A Solução Mourão”.

À guisa de conclusão, chegamos ao ponto que enfrentamos não somente uma pandemia causada pelo Coronavírus, mas concomitantemente um câncer chamado Bolsonarismo. Os principais sintomas desse câncer são a cegueira, a submissão (agindo feito gado) e o raciocínio desconexo, causado pelo negacionismo e teorias conspiratórias das células cancerígenas do Olavismo. Atualmente, dezenas de milhões de brasileiros ainda seguem enfermos com essa mal que assola o país. Dado o estado moribundo da nação, não resta melhor alternativa que arrancar o mal pela raiz, retirando o tumor maligno que é Bolsonaro, causador dessa patologia que é o Bolsonarismo, por meio da sua renúncia ou impeachment. O tratamento quimioterápico, Mourão, trará sérias sequelas e o país inspirará cuidados até as próximas eleições.

(*)Professor e Economista; Doutor em Economia do Desenvolvimento na UFRGS; Instituto PROFECOM

Fonte: Sul 21

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