Um caso passou batido durante a semana e não é um caso menor ( Por Dan Barbier )

Nessa última sexta-feira, 15 de março, a ONU foi palco de um verdadeiro vexame protagonizado pelo governo brasileiro. Após ter falado em um painel sobre autoritarismo e direitos humanos, o ex-deputado Jean Wyllys foi atacado por membros da Delegação Brasileira em Genebra. “Sua presença aqui envergonha o Brasil”, disparou a embaixadora brasileira Maria Nazareth Farani Azevedo.

Antes disso, a diplomata havia feito a leitura de um texto previamente escrito para a ocasião. Nele, afirmava que “parlamentares que abandonaram seus eleitores para viajar pelo mundo para disseminar fake news, com discurso de intolerância e ódio, não têm credenciais para falar pela democracia. Muito menos pelo povo brasileiro”. Sim, a diplomata realmente se referiu ao exílio de Jean Wyllys, o primeiro depois do fim da ditadura brasileira, como abandono de seu mandado para viajar pelo mundo como que por prazer. Sua fala exprime um tipo de agressão bastante comum direcionada às LGBT no Brasil: “seu lugar não é aqui”; e expõe a política de ódio do atual governo a essa população. 

Mais tarde, a Delegação Brasileira, do Itamaraty, referendou a atitude da representante do governo brasileiro e publicou o seguinte em sua conta oficial no Twitter: “No Conselho de Direitos Humanos hoje, ao lado da Senadora Mara Gabrilli, defendemos a democracia brasileira e suas instituições. Na mesa, ex-deputado, vestido de vermelho, mostra sua incapacidade de aceitar o resultado das urnas”. Jean, que em sua fala abordou as fake News e o discurso de ódio contra minorias, viveu mais um capítulo da hostilidade que o levou, no final de janeiro, a partir para o exílio. O episódio provou que nem dentro nem fora de seu país está salvo das perseguições.

Seria esse o ônus a se pagar por ter sido o único congressista abertamente homossexual a defender os direitos das minorias LGBT no Brasil? Não bastasse todo histórico de perseguição que Jean sofreu ao longo de seus mandatos no Congresso Nacional, agora, longe, os ataques têm mesmo que continuar? E ainda referendados por uma instituição diplomática, que é o Itamaraty?

Poderia ter sido um caso excepcional. Mas não, esse não foi um episódio isolado. Nunca o é. Recentemente, em fevereiro, Jean Wyllys foi alvo da fúria do líder do partido português PNR, José Pinto-Coelho, que o chamou de “cafajeste de extrema esquerda”. Isso porque Wyllys havia sido convidado para participar de uma conferência na Universidade de Coimbra. Mas não foi só. Durante a fala de Jean, dois membros do Partido Nacional Renovador tentaram acertá-lo com ovos. Pasmem: sua falava tratava sobre crimes de homofobia. Não foi mera coincidência.

O sentido de segurança toma outro aspecto quando visto na perspectiva de uma vida LGBT. A vida de Jean tem mostrado isso e ele sabe dos riscos que corre, sempre soube. Nem por isso deixou de lutar enfaticamente pelo direito à vida com dignidade. Quando sua existência esteve em risco, num dos momentos mais trágicos da história dos movimentos LGBT no Brasil, abriu mão de seu mandato como deputado federal, pelo PSOL do Rio de Janeiro, e foi continuar sua luta em outro terreno, mundo afora. E é o que tem feito. Sua saída foi mais poderosa que sua permanência, como declarou na estreia do filme Marighella, em Berlim. E foi acertada, afinal as investigações sobre o extermínio de Marielle Franco, também do PSOL, vêm revelando as conexões de milícias com a família Bolsonaro, inclusive com o próprio Presidente.

A vida de Jean Wyllys importa! Aquela que por muito tempo foi a voz LGBT dentro do Congresso Nacional continua forte e isso tem incomodado os filhotes da ditadura e do conservadorismo. O que em parte explica a perseguição que tem sofrido no exterior, não explica a atuação tímida do PSOL em sua defesa. Enquanto a ação da embaixadora Farani Azevedo era orquestrada nos subterrâneos do Planalto, inclusive com elogios da Ministra Damares Alves, o partido do ex-deputado se manteve em silêncio, como têm se mantido tímido em relação à defesa do ex-parlamentar. Essa postura não pode passar batida, nem deve! A luta e o legado de Jean Wyllys é a luta e o legado de milhares de LGBT que têm no PSOL uma referência. Que não seja em vão.

Fonte: Dan Barbier
Me. Patrimônio Cultural

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