O próximo poderá ser a Baronesa, aí será tarde demais! Por Dan Barbier

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O domingo pelotense foi marcado pelo incêndio que tomou conta do casarão onde por anos funcionou a Secretária de Educação de Pelotas. A prefeita Paula Mascarenhas veio a público dizer que estava triste, mas alentada que não havia mais móveis e documentos por lá. Contudo, onde uns veem pau, pedra e cal, outros veem história, memória e identidade. Afinal, casarões como esse servem como símbolos paisagísticos e imagéticos na conformação da urbe e povoam o imaginário de seu povo. Além disso, bem dirigidos, têm enorme potencial para geração de emprego e renda. Contudo, essa não é a situação de Pelotas e o incêndio é símbolo disso.

O casarão incendiado pertenceu à João Simões Lopes, o Visconde da Graça. Em março de 1876, ele ofereceu o andar térreo de seu sobrado para a instalação da Bibliotheca Pública Pelotense, fundada em novembro do ano anterior. Na época, além de entusiasta da Bibliotheca, Simões Lopes foi responsável pelo resgate financeiro que salvou a Hidráulica Pelotense, pela compra do acervo da Companhia Inglesa, que fornecia energia elétrica para Pelotas, promoveu os estudos para desobstrução do arroio Santa Bárbara, tomou parte na canalização do canal São Gonçalo, na companhia de bondes, na estrada de ferro Rio Grande a Bagé, no Asilo de Mendigos, entre outros. Foi vice-presidente da Província do Rio Grande do Sul, em 1876 e, novamente, em 1885. Não é demais afirmar que ali, naquele prédio, parte da nossa cidade foi pensada e desenhada. Em 2019, completamente abandonado pelo poder público, ardeu em chamas!

O inusitado é que, em 2018, a prefeita Paula comemorava a decisão favorável do IPHAN pelo tombamento da tradição doceira e do conjunto histórico de Pelotas, o qual compreende a Charqueada São João, o Museu Parque da Baronesa, o Parque Dom Antônio Zattera e as praças José Bonifácio, Coronel Pedro Osório, Piratinino de Almeida e Cipriano Barcelos. Menos de um ano depois, a prefeita vem a público lamentar o incêndio que consumiu parte do Casarão que compõem nosso patrimônio cultural edificado. Parte desse lamento talvez esteja associado ao completo descaso das administrações Eduardo Leite e Paula Mascarenhas com o patrimônio cultural pelotense – e não estou falando dos casos mais evidentes, como com o Carnaval e com o Theatro Sete de Abril, que completará, em março, 09 anos de portas fechadas e 10 anos do último espetáculo.

Enquanto a grama da Praça Coronel Pedro Osório é trocada (procurem se informar a que preço), tombou a Timbaúva centenária e roubaram as peças de seu Chafariz sem que ninguém tenha visto (e olha que tem posto da guarda municipal por ali). As salas de Exposições Antônio Caringi, Frederico Trebbi e Ináh D’Avila Costa estão praticamente abandonadas. O Casarão número 6 (o casarão amarelo da praça) está sem utilidade desde seu restauro em 2010. Ali era para funcionar, hoje, o Museu da Cidade, que só existe no papel (e mesmo assim morde uma fatia gorda do orçamento do PAC Cidades Históricas). O Museu Parque da Baronesa encontra-se numa situação crítica. Volta e meia é fechado para reparo emergencial, o que não evita um prejuízo maior num futuro próximo. O próprio Eduardo Leite foi responsável pelo desmonte de sua reserva técnica para transformar o espaço em repartição pública, desmontado anos de trabalho de preservação com o acervo do museu. Sem falar dos prédios onde funcionaram a Secretaria da Fazenda (esquina do Mercado Central) e da Administração (na Sta Tecla), como também da falta de informação sobre a instalação da loja Havan no Jockey Club de Pelotas.

Mas são os casos da Reserva Técnica da Baronesa, retirada da Casa Azul para ceder espaço pra instalação da SQA, e a falta de uso do Casarão 6, que podia estar sediando uma casa de cultura para os grupos artísticos e produtores culturais de Pelotas, exemplos da falta de interesse e da má gestão da prefeitura com nosso patrimônio cultural. Afinal, não dependem de altos investimentos, mas de boa vontade. 

Tem muita gente boa e instituições dispostas a preservarem nosso patrimônio, mas o governo tem que fazer a parte dele. É isso ou não adianta ficar triste depois!

Por: Dan Barbier
Me. Patrimônio Cultural

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