FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, O PEQUENO ( Por Pedro Moacyr Pérez)

Sempre tive o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso como um adversário politico; sempre, não, pois na verdade estivemos próximos entre 1983 e 1988, aproximadamente, ou seja, entre o começo dos movimentos sociais favoráveis à campanha que se desenrolou com o nome de “Diretas Já” e a promulgação da Carta Constitucional de 05 de outubro de 1988, mais precisamente o mês de julho, quando do PMDB surge o PSDB. Pouco a pouco, desentendendo-se com o Partido dos Trabalhadores, a ele não se une, e em razão de uma dissidência interna do PMDB, juntamente com alguns correligionários que o acompanharam ajuda a fundar o PSDB, estimulado por Mário Covas e Franco Montoro.

Devidamente registrado, o PSDB vinculou-se ao modelo econômico capitaneado pelos líderes Ronald Reagan e Margareth Thatcher, e que ganhou corpo precisamente em 1989, com o Consenso de Washington. Na base de suas concepções estavam as perspectivas ideológicas da social-democracia e do liberalismo econômico, sem falar em alguns democratas cristãos que lhe deram apoio. O PT, a seu turno, vinculou-se a uma perspectiva política populista de corte esquerdista (talvez seja esse o único lugar possível para instalarem-se os socialismos tópicos em um planeta que adota, cada vez mais hegemonicamente, o modelo econômico hiper-liberal).

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso torna-se, assim, um contraponto ideológico ao ex-Presidente Lula, e isso se evidencia quanto mais o tempo passa nas próximas duas décadas e meia. PSDB e PT têm nesses dois seres humanos os seus grandes articuladores, e ambos prestam um grande favor ao necessário atrito dialético da democracia brasileira desde o período que Tancredo Neves e Ulysses Guimarães designaram por “Nova República”, inaugurado com o fim do nefasto regime militar que permaneceu instalado entre nós por longos vinte e um anos (1964/1985).

Mais recentemente, recordo que Fernando Henrique depôs, na qualidade de testemunha abonatória de Lula, em um dos processos a que este responde, o que me fez admirar a grandeza que eu sempre supus ter o tucano. Contudo, sempre entendi, embora não pensasse muito sobre isso, que FHC, diante das evidências de manipulação dos bandidos da Lava Jato, deveria fazer valer seu prestígio e denunciar, mesmo que o réu fosse seu adversário histórico, os desmandos criminosos da força-tarefa. Seria uma atitude digna, elevada, reta. Mas Fernando Henrique não procedeu assim.

Achei indesculpável sua omissão, ainda que a tenha compreendido no âmbito da mera má vontade, ou dos humores de um homem que não queria “comprar certas brigas” na estação tardia da vida em que já se encontrava.
Com o que se vem sabendo nos últimos dias, vê-se que FHC era “alguém que seria melhor não melindrar”, segundo o ex-juiz Sérgio Moro. E o que é pior: a Lava Jato fingiu investigar o ex-Presidente, mas, na verdade, não o fez; pelo contrário, há indícios fortíssimos de que, pela agenda calculada de Moro e Dallagnol, alguns processos tiveram sua tramitação travada propositalmente, para que prescrevessem, ou sequer denúncias foram apresentadas, conduzindo sabe-se o quê igualmente à condição prescritiva.

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso não poderia, enfim, “ser melindrado”, pois era, a exemplo dos ministros Fux e Barroso, “um dos nossos” (no sentido de serem magistrados com proximidades indevidas com procuradores porque favoráveis ao curso coletivamente elaborado de condenações – seriam igualmente indevidas se fossem favoráveis ao curso coletivamente elaborado de absolvições). Fux, claramente; Barroso, presumidamente.

Tudo isso se prestou para entristecer-me em relação a Fernando Henrique, por quem sempre nutri respeito intelectual, mas que agora desmorona moralmente de uma forma que eu não supunha. Acreditei que ele era maior. Não, não é! É um indivíduo autocentrado, desonesto, partícipe de conluios inconfessáveis com os condutores da Lava Jato, e agora está a defender que Aécio Neves, na iminência de ser o mesmo expulso de sua agremiação política, merece ser melhor investigado, a despeito de tudo o que já se viu e ouviu a seu respeito. Defender um amigo é algo nobre, mas às vezes defender um adversário é algo mais nobre ainda. FHC não defendeu Lula. Não defendeu a democracia. Não defendeu o Estado Democrático de Direito. Não foi digno. Eu acreditava que ele não era um facínora como Aécio, Serra, Aloysio Nunes, Palocci ou Delcídio Amaral, mas era mesmo pior: era imoral como Jucá e Temer! Eu lamento profundamente ter que dizer isso, ter que pensar isso, ter que sentir isso, mas, caro Fernando Henrique Cardoso, tu és um canalha, um mentiroso por omissão, um homem que não estava à altura do cargo.

Só não és pior do que Jair, pois esse é um mentecapto fascista, e tu não chegas a tanto. Teu problema não é seres um homem vinculado à direita liberal, pois essa condição sequer é, em si mesma, um problema. Teu problema é tua ética. Não rasgarei os livros teus que chegaram a mim, como aconselhaste, mas matarei simbolicamente o autor. Tuas obras são boas, muito boas mesmo. Agradeço-te a primorosa tradução de Montesquieu, especialmente, mas perdi a admiração por ti. Se fosses tu o preso barbaramente político, Presidente, esteja certo de que muitos dos nossos, inclusive Lula, teu adversário, denunciariam as injustiças que estarias então sofrendo, como está Lula.

Não foste capaz de entender a dimensão do que se passa no Brasil; ou melhor, foste, mas estás “te lixando” para quem não te for de serventia imediata. Conheço teu tipo. Esqueço-te agora. Adeus.

Fonte: Pedro Moacyr Pérez ( Colunista do Site da RádioCom )

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