Exilada, Camila Mantovani teme avanço do fundamentalismo na América Latina

Perseguições, discursos de ódio nas redes sociais e ameaças de morte aos familiares. Essas ações violentas fizeram a ativista cristã e feminista Camila Mantovani deixar o Brasil na semana passada. Para ela, a violência que sofreu tem relação com o avanço do fundamentalismo na América Latina.

“A gente assiste apavoradas a ofensiva fundamentalista que está acontecendo. Ela é reflexo dos Estados Unidos, que surtiu efeito politicamente. O Brasil é o maior reflexo disso. A igreja está decidindo sobre a vida dos brasileiros em pleno 2019”, lamentou, em entrevista à repórter Ana Rosa Carrara, da Rádio Brasil Atual.

Há dois anos, Camila participou da fundação da Frente Evangélica pela Legalização do Aborto e, desde então, sofre com mensagens de violência. A ativista explica que as ações intensificaram após a participação do coletivo na audiência pública, em agosto de 2018, realizada no Supremo Tribunal Federal (STF), que tratou dos procedimentos do Código Penal sobre a criminalização do aborto.

“Elas se intensificaram muito depois disso, porque o nosso trabalho pela Frente foi muito bonito para a mobilização da audiência. Foi a primeira vez que a gente teve igrejas evangélicas assinando como amicus curiae pedindo a descriminalização do aborto. Depois disso, vieram as ameaças. Não tinha mais como eu continuar, porque a minha família corria o risco”, relatou.

Diversas entidades de luta por direito das mulheres se posicionaram em solidariedade à ativista, entre elas, a Organização Católicas pelo Direito de Decidir. Rosângela Talib, coordenadora da entidade, diz não acreditar que a perseguição faça parte das características de uma pessoa que se apresenta como religiosa.

“Entendemos que direitos humanos são discutidos em políticas públicas, não através de perseguição e ameaças. Fazer isso é muito estranho para quem se diz religioso e cristão”, criticou.

Na opinião de Camila, em paralelo com o fundamentalismo das igrejas, há cada vez mais mulheres religiosas compreendendo a necessidade de igualdade de gênero para que exista justiça de verdade.

“Pensar mais criticamente a relação com a religião, com a fé a bíblia. Há um avanço do feminismo dentro das igrejas, pensando a sua fé a partir da justiça de gênero. Isso tem ameaçado completamente as estruturas hierárquicas de dentro das igrejas e é o que faz terem tanto ódio da gente”, explicou.

A ativista aponta que uma de suas maiores preocupações é a tentativa da bancada evangélica do Congresso Nacional de aprovar o Estatuto do Nascituro, que altera o Artigo 5º da Constituição Federal para acrescentar a “inviolabilidade do direito à vida”. “Isso é um projeto antigo dos fundamentalistas e, agora, tem uma chance maior de passar porque o governo inteiro faz coro com esse projeto. A senadora relatora do projeto coloca esse termo, que faz a gente ter um risco grande de perder o direito ao aborto até nos poucos casos permitidos.”

Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 29/2015 sobre o aborto, apresentada pela senadora Juíza Selma (PSL-MT) deve ser votada nesta quarta-feira (8), pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). 

Apresentada em 2015, pelo ex-senador Magno Malta, a PEC, se aprovada, colocará em risco o aborto no Brasil nas três situações já previstas em lei: estupro e risco para a vida da gestante (Código Penal) e anencefalia (jurisprudência do Supremo Tribunal Federal).

Fonte: RBA

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