Douglas Belchior: Brasil do século XXI nunca esteve tão perto do Brasil de 1888

Por Douglas Belchior – Há alguns anos, sempre em 13 de maio, atualizo esta introdução à lembrança do discurso de Abdias do Nascimento, importante líder da luta negra brasileira, quando Senador da República, no aniversário de 110 anos da abolição da escravidão.

Em tempos de governos fascistas e ofensiva do pensamento colonial não só no Brasil, mas em diversos países do mundo, quando temos ataques à direitos historicamente conquistados e homens brancos ricos assaltam o poder nenhum constrangimento, nada mais atual que explorar os sentidos da maior de todas as permanências da história do Brasil: a característica escravocrata da sociedade, das relações sociais e das formas em que o poder se estabelece.

O Brasil do século XI nunca esteve tão perto do Brasil de 1888. Enumerar os horrores do agora, deixaria este texto cansativo e desanimador, o contrário do que desejo. Mas, por responsabilidade, talvez possa apontar uma situação que, do ponto de vista simbólico, pode ser visto como síntese deste momento histórico: Uma sessão solene no Congresso Nacional, em homenagem aos 131 anos da assinatura da Lei Áurea.

Esta atividade, convocada por Luiz Philippe de Orléans e Bragança, Trineto da Princesa Isabel, tetraneto de D. Pedro II e pentaneto de D. Pedro I e Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Bolsonaro, ambos eleitos deputados federais pelo Estado de São Paulo, é sem dúvida um marco na tentativa de reconstrução histórica de narrativas e compreensões sobre o que é de fato este país. Uma aliança exótica própria do ornitorrinco Brasil, que flerta com pós-modernidade econômica, conservadorismo de valores, propensão militar-autoritária e desejo de retorno ao um passado monárquico ou, na palavra ideal, escravocrata.

A lógica escravagista que moldou a sociedade pós abolição e manteve descendentes de pessoas escravizadas na base da piramide social, com os piores trabalhos, na informalidade, com menores salários, parcos direitos e alvo da violência do estado, das policias e dos civis, não admite ser maquiada por termos politicamente corretos. É hora do acerto de contas, dizem eles. É preciso chamar as coisas pelo nome! É preciso expor o que somos na realidade. E somos uma colônia, somos uma sociedade de brancos nobres, machos, héteros, ricos e orgulhosos de nossos feitos. E devemos comemorá-los, pesam eles. Dia 13 de maio é dia de festa!

Isso é o que dizem eles. É o que pensam eles. Que se fodam!

Fonte: Brasil 247

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