‘Chicago oldies’: discurso sobre confiança é balela e não recupera a economia, diz professor

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Falar em recuperação da confiança para retomada da atividade econômica é uma “balela”, diz o professor e consultor Antonio Corrêa de Lacerda, que participou ontem (30) à noite da abertura da 17ª Semana de Economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “O ponto crucial é que há um equívoco na escolha de prioridades da economia brasileira. A tônica é: vamos fazer o ajuste fiscal para retomar a confiança, e a confiança trará o crescimento. Estamos na ladainha há cinco anos. Agora, exacerbada”, afirma Lacerda, para quem Paulo Guedes e sua equipe, que chamou de “Chicago oldies”, referência irônica ao termo “Chicago boys”, de escola econômica liberal, que não teriam se atualizado conceitualmente.

Ele e a professora Simone Deos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), falaram os desafios para o financiamento do desenvolvimento do país. Ambos concordaram que o ajuste fiscal não pode ser prioridade e que o Estado desempenha papel importante no processo. Lacerda observou que o investimento responde a uma expectativa de demanda. Como pode haver confiança sem demanda?, questionou. O professor criticou ainda o que chamou de equívocos que se tornam senso comum em grande parte dos “palpiteiros de plantão”. Um desses equívocos, apontou o professor, é comparar o orçamento público ao orçamento doméstico.

“A economia está numa crise de demanda. Metade da PEA (população economicamente ativa) está desempregada, desalentada ou em ocupações precárias. O PIB per capita é 9% inferior a 2014. Estamos no meio da maior crise da história brasileira”, afirma Lacerda. “Alguns setores sobrevivem porque são direta ou indiretamente ligados à produção de commodities“, acrescenta o professor, destacando os contínuos ganhos do setor financeiro.

Para ele, é preciso “enfrentar a estrutura da dívida pública”. Só as despesas com juros, lembra, somaram R$ 389 bilhões no ano passado. “Chegamos a pagar 8% do PIB com custo de financiamento da dívida.” Uma das medidas é recuperar o papel dos bancos públicos, defende Lacerda, para quem o debate está “interditado”. “O problema é o samba de uma nota só. O maior desafio do financiamento brasileiro não é econômico. É político e, principalmente, cultural.”

Da plateia, alguém pergunta, ironicamente se os governos do PT “quebraram” o país, conforme se repete nas redes sociais e mesmo em debates econômicos. “Uma afirmação bastante simplista e totalmente equivocada. Virou um jargão que colou”, respondeu Simone. “É claro que houve erros de decisão de política econômica”, completa Lacerda, citando a “virada ortodoxa” no segundo mandato de Dilma Rousseff, a elevação de juros e o corte de gastos públicos, além do que considera excessiva desoneração de empresas, que levou a uma queda brusca de arrecadação. Mas ele cita também elementos que escapam ao controle, como a queda dos preços de commodities.

Ele também apontou efeitos negativos para a economia com a Operação Lava Jato, criticando os “heróis de pés de barro” criados no Brasil. Segundo ele, o combate à corrupção, que é necessário, inviabilizou empresas e acabou com o segmento de construção pesada. “Seria possível você combater a corrupção sem destruir as empresas”, diz Lacerda, citando o exemplo da Volkswagen na Alemanha, condenada por fraudes e multada.

Ataque ao setor público

Importantes para o financiamento, os bancos públicos “estão claramente sob ataque”, observou a professora, destacando a importância dessas instituições para a infraestrutura e no combate à crise de 2008. “Não é a poupança que financia o investimento. É o crédito”, diz Simone. Ela cita o exemplo chinês, com cinco grandes bancos e um “sistema notável de financiamento”.

A partir de 2014, lembra, os bancos públicos passaram a concentrar maior parcela do mercado de crédito em relação aos privados. “O financiamento é uma questão macroeconômica central, que diz respeito à essência de uma institucionalidade”, afirma Simone. Mesmo economias avançadas têm bancos de desenvolvimento importantes”, acrescenta, citando o KFW alemão. “Bancos públicos podem atuar diretamente no enfrentamento de desigualdades espaciais, regionais, setoriais. Podem agir anticiclicamente.”

Segundo ela, o debate é sobre qual país e que modelo de desenvolvimento se pretende ter. Para isso, é preciso financiar o crescimento e dar condições para a criação de empregos de qualidade e a redução das desigualdades. “Com que  instituições a gente vai contar para isso? Não basta gerar ocupações uberizadas”, diz.

A Semana de Economia da PUC vai até sexta-feira (4), com várias atividades. Amanhã à tarde, por exemplo, será exibido o documentário Dedo na Ferida, de Silvio Tendler, seguido de debate com os professores Guilherme Mello e Ladislau Dowbor.

Fonte: Rede Brasil Atual

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