AUTODECLARAÇÃO DE ENFERMIDADE NACIONAL E SEUS CAMINHOS DE RECUPERAÇÃO DA SANIDADE (por Pedro Moacyr)

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Ultimamente e com bastante frequência, o Brasil, purgando seus cometimentos indevidos e suas omissões indesculpáveis, se comporta como um réu com rancor de si, julgando-se e se condenando em uma espiral sem fim. Mas, calma, esse processo pode não conduzir a algum arrependimento que se destina a uma tomada de consciência a ser saudada! É que há vezes em que as relações entre a figura de um acusado constrangido e a de um juiz inclemente, quando venenosamente instaladas em um mesmo espírito, requerem uma necessária atenção da psicologia. Se nosso país fosse uma pessoa, necessitaria de cuidados especializados para vencer suas contradições internas – e aparentemente insolúveis, se enfrentadas apenas através de atos de vontade do enfermo. Como é composto de uma totalidade humana, não pode ser encaminhado às esperanças que emprestamos às terapias. A forma de tratá-lo é por meio de soluções democráticas, às quais são por vezes lentas demais para os estados agônicos de quem adoeceu, mesmo em se tratando de um Estado nacional.

Talvez devêssemos fazer aquilo que se aconselha aos indivíduos humanos que revelam necessidades de cuidados médicos especializados no funcionamento das suas mentes, ou seja, buscar a comunidade “psi”, assistindo-os mediante a sugestão de que precisam, antes de tudo, reconhecer sua precisão de cuidados. No que diz respeito a um país, sendo isso inalcançável, o melhor aconselhamento parece  ser o de redescobrirmo-nos uma inteireza política, ainda que fragmentada e com antagonismos, e buscarmos um consenso (muito complexo, é bem verdade) para “zerarmos a reza” e nos refundarmos. Isso poderia supor hombridades que não estão à vista, como eleições gerais pautadas por mais verdade e menos ódio. Percebo que, muito pelo contrário, a acusação imediata tenderia a uma asseveração violenta contra o aspecto antidemocrático de uma tal possibilidade, pois acabamos de passar por eleições majoritárias e proporcionais em diversos níveis dos cargos de representação republicana.

Ocorre que o volume de trapalhadas, loucuras e pretensões disparatadas, além de atos incompatíveis com a administração de um país, estão ocorrendo todos os dias, várias vezes a cada vinte e quatro horas. Receio, contudo, que o futuro, garantido pelas mesmas pessoas que fazem agora a defesa (em tudo admissível) da democracia para garantirem aos eleitos a estabilidade eleitoral, possa nos levar, e logo ali, a um ambiente inteiramente não democrático (paradoxalmente), autoritário e de um entreguismo sem igual das nossas riquezas, com um quase irrecuperável prejuízo à nossa economia .

Afora isso tudo, ainda há, veja-se bem, a questão da corrupção e a relação com organizações milicianas que boa parte do núcleo desse governo nos leva a crer que possui, inclusive (e principalmente) o núcleo da família de Jair, nosso cada vez mais espantoso Presidente da República.

Assim, admitir a enfermidade, a necessidade de ajuda e buscar, no âmbito honesto e correto da prática democrática, rever o modelo de gestão brasileira que se anuncia (e que é assustador) é  o que vejo como medida ideal. Mas, sei, por certo, que será um estágio inatingível. Por outro lado, penso que não podemos deixar esse governo “testar” suas intenções em uma indefesa população-cobaia! Como fazer isso, ou melhor, por onde começar, eu não sei, não tenho boa clareza para afirmar algo com uma convicção que eu próprio consiga fazer apostas, mas todos os caminhos para tal deverão começar pelas ruas.

Sempre as ruas, como tenho afirmado. E com mais verdade nas informações, o que está deixando de ser um dado na pós-modernidade, que vem se dedicando a guerras híbridas, a uma determinação cognitiva que se vem designando de pós-verdade e a uma baixa exigência de capacidade governamental nos países periféricos e semi-periféricos, como é  o caso do Brasil. Abraçar o neoliberalismo econômico é, em grande parte, deixar apenas que o mercado faça a sua parte, e com baixíssima regulamentação. Não precisamos, para tanto, de governantes conhecedores de mecanismos de administração pública a partir do Estado. Ele, o Estado, só precisa não ser interferente, o que, em outras palavras, implica dizer que basta que seja destruído, como esta sendo no Brasil. Paulo Guedes, nosso agora “Chicago old man”, é o principal nome dessa perspectiva. Ele parece só pensar em números, sem pensar em gente…

Tudo está definitivamente passando dos limites do aceitável, e algo precisa ser feito. E para ontem!

Avante!

Fonte: Pedro Moacyr Pérez da Silveira, Professor de Direito da UFPEL

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