Assessora revelou à polícia briga entre Marielle e Carlos Bolsonaro

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Carlos Bolsonaro evitava até pegar o mesmo elevador com Marielle e uma assessora negra da vereadora

Fernanda Chaves, a assessora que acompanhava Marielle Franco (PSOL) na noite do assassinato da vereadora e sobreviveu, contou à polícia que a parlamentar teve uma briga com Carlos Bolsonaro em 2017. Segundo Fernanda, Carlos, passando pelo corredor, ouviu uma conversa de um assessor de Marielle com uma pesquisadora mexicana. Ao apontar para o gabinete de Carlos, o assessor se referiu a ele como “fascista”. Carlos estava no telefone, mas ouviu e, aos berros, chamou o assessor de “merdão”.

O depoimento de Fernanda foi prestado em março do ano passado, logo após o assassinato. Carlos e Merielle eram vizinhos de gabinete no nono andar da Câmara Municipal. Conforme o relato de Fernanda, o vereador do PSC – que é filho do presidente Jair Bolsonaro – ficou descontrolado com a situação. “Repete, seu merda. Repete. Você é um merdão, diz na minha cara”, gritou Carlos com o funcionário. O assessor repetia com calma e explicava o que havia dito, mas Carlos não ouvia.

Marielle viu a cena e entrou entre os dois, peitou Carlos e ameaçou chamar a segurança. Desde então, Carlos parou de entrar no mesmo elevador em que estivesse Marielle ou outra assessora negra da vereadora. Segundo antigos assessores da vereadora, Carlos só entrava no elevador quando estavam assessores brancos de Marielle.

Em depoimento à Polícia Civil, Carlos Bolsonaro admitiu ter discutido com o assessor de Marielle. Ele foi ouvido na condição de testemunha. O vereador não cita a data da discussão. Seu depoimento foi dado em 26 de abril do ano passado, pouco mais de um mês após a execução da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes, ocorrida em 14 de março de 2018

Carlos depôs ao delegado Giniton Lages, então titular da DH da Capital (Delegacia de Homicídios do Rio). Segundo ele, um assessor de Marielle dava entrevista a uma emissora espanhola e o chamou “fascista” quando ele passava pelo corredor. Carlos teria atacado verbalmente o funcionário e pedido satisfação sobre o motivo da declaração.

Na versão de Carlos, Marielle “intercedeu para acalmar os ânimos, encerrando a discussão”. Ele não informou a data em que o bate-boca aconteceu e disse ainda que mantinha um relacionamento “respeitoso e cordial” com Marielle, apesar das divergências políticas. O filho de Bolsonaro afirmou ter ficado sabendo do assassinato da vereadora pela imprensa.

Dias antes do depoimento de Carlos Bolsonaro, duas colaboradoras do gabinete de Marielle Franco relataram à polícia o que sabiam sobre o bate-boca. No dia 17 de abril de 2018, uma pesquisadora afirmou “que houve um desentendimento entre Carlos Bolsonaro e um dos assessores de Marielle”. Segundo a pesquisadora – que era colaboradora do gabinete da vereadora –, “Marielle interviu [sic] amenizando e resolvendo o fato na época”.

No dia seguinte, uma advogada – que integrava o grupo de trabalho criado por Marielle para a causa de gênero – também prestou depoimento: “Se recorda que uma pessoa ligada a Carlos Bolsonaro, o qual se encontrava em seu gabinete, fez uns comentários desrespeitosos para um dos assessores de Marielle, tendo se iniciado uma pequena confusão, em seguida Marielle e o próprio Carlos Bolsonaro acabaram intercedendo, com a finalidade de acalmar os ânimos exaltados”.

Milícias

Em seu depoimento, Carlos também foi questionado sobre a atuação de Marielle contra temas de interesse de milícias – e respondeu que não tinha conhecimento disso. Segundo ele, o assunto fugia à alçada da Câmara. O vereador foi perguntado sobre o trabalho de Marielle junto ao então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), hoje deputado federal, na CPI das Milícias da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), em 2008. Carlos disse só ter ficado sabendo deste trabalho depois que ela foi eleita.

O vereador ainda declarou que Marielle não participou da discussão a respeito de projeto de verticalização da favela de Rio das Pedras, zona oeste do Rio, reduto das milícias cariocas e do Escritório do Crime — quadrilha cujos membros são suspeitos de envolvimento na morte da vereadora. Segundo Carlos, o projeto não foi adiante.

Nesta terça-feira (29), reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, fez menção nominal ao presidente no inquérito do duplo homicídio da vereadora e do motorista. Bolsonaro negou qualquer envolvimento no caso. De acordo com a reportagem da Globo, em depoimento, um porteiro do condomínio onde Bolsonaro mora no Rio disse que, no dia do crime, alguém com a voz dele autorizou a entrada de um dos suspeitos do homicídio.

Bolsonaro, no entanto, estava na Câmara dos Deputados no horário que o fato ocorreu, conforme registro de presença da Casa consultado pela reportagem da Globo. Segundo a Globo, Élcio Vieira Queiroz, suspeito de dirigir o carro usado no crime, disse que iria a casa de número 58, que pertence a Bolsonaro. Ele, porém, acabou se dirigindo à casa 66, de Ronnie Lessa, suspeito de ser o autor dos disparos.

Carlos Bolsonaro mora no mesmo condomínio em outra casa que tem seu pai como proprietário. A simples citação ao nome do mandatário pode levar o caso a ser investigado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), devido ao foro por prerrogativa de função.

Vídeo

Nesta quarta-feira (30), Carlos publicou nas redes sociais um vídeo que, segundo ele, foi gravado pela manhã na administração do condomínio na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, onde seu pai Bolsonaro, tem uma casa. Carlos mora em outro imóvel no condomínio. No vídeo, o vereador acessa um computador no qual está gravada uma série de arquivos de áudio. Ele diz que às 17h13 foi feita uma solicitação de entrada, por uma pessoa de nome Élcio, para a casa 65, de Ronnie Lessa.

Segundo o vereador, não houve, antes ou depois, tentativa de contato com a casa de Jair Bolsonaro. No entanto, no vídeo, é possível visualizar uma ligação para a casa 58, de Bolsonaro, às 15h58. Carlos não reproduz esta chamada. No vídeo, Carlos reproduz a ligação registrada às 17h13. O porteiro anuncia a chegada do “senhor Élcio”. A voz do outro lado, diferente da de Jair Bolsonaro, responde: “Tá, pode liberar aí”.

O arquivo tem como data de modificação o dia 14 de março de 2018, às 17h13. No nome do arquivo, aparece o número 65. Não é possível garantir se Carlos de fato gravou o vídeo na administração e se todas as ligações do dia foram apresentadas na listagem mostrada por ele.

Fonte: Portal Vermelho

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