​Casarão 6, restaurado e fechado: por que não uma Casa de Cultura? ( Por Dan Barbier )

Duas leis, um projeto aprovado, um casarão restaurado e a demanda histórica por uma Casa de Cultura, esses são os elementos que confluem ao tipo de gestão pública de cultura feita em Pelotas. Explico: em 1977, entremeando os debates sobre a preservação da memória na cidade, surgiu a ideia da criação de um museu sobre a cidade de Pelotas. O projeto ganhou força. Personalidades e instituições aderiram à causa. O prefeito Irajá Rodrigues se entusiasmou com a ideia e conseguiu aprovar na Câmara de Vereadores a lei municipal 2365/77, que criava a Fundação Municipal Museu de Pelotas. Aprovada a lei, o museu como tal não chegou a existir e, em 1980, acabou dando lugar à Fundação Cultural de Pelotas.

Criada pela lei municipal 2602/80, a Fundapel abarcou os Casarões 02 e 06, o Theatro Sete de Abril, o Parque Museu da Baronesa e a Orquestra Sinfônica de Pelotas. Além disso, ela era responsável pela organização e pelo planejamento das atividades de órgãos e entidades culturais do poder público local, promovia, organizava e administrava eventos culturais na cidade, articulava-se e colaborava com entidades que visassem ou promovessem a difusão da cultura no município, entre outras coisas. Por sua iniciativa, por exemplo, foram realizados o Festival Latino Música, em 1988 e em 1990, e o Festival de Teatro de Pelotas, de 1985 a 1997.  O Theatro Sete de Abril acabou se tornando casa de artistas do porte de Giamarê e Berê Fuhro Souto e de grupos como o Teatro Escola Pelotense, o TEP. Por sua atuação junto às entidades carnavalescas, o carnaval de Pelotas se tornou referência nacional.

Se por um lado não tivemos a oportunidade de ver surgir, nos fins dos anos 70, o Museu da Cidade, por outro lado, no seu lugar, fez nascer uma instituição que, naquele período, foi essencial para a cena cultural.
Passou-se o tempo. A primeira década dos anos 2000 viu surgir o Monumenta, programa do governo federal de fomento à preservação do patrimônio arquitetônico nacional. Pelotas, casa da Carta Patrimonial de 1978, assistiu ao restauro de seus velhos casarões e, a reboque, contribuiu com o largo debate sobre a função social desses imóveis. Assim, foram pipocando aqui e ali diversos memoriais, pontos de cultura e museus. Com o Casarão 6 não foi diferente. Situado no entorno da Praça Cel. Pedro Osório, o suntuoso prédio construído em 1879 foi elegido para conceber o Museu da Cidade, não o mesmo de 1977, mas um mais moderno e conectado com as exigências do século XXI. Assim, em 2012, atendendo a diversos interesses que tangenciavam a preservação da memória pelotense, surgia, através da lei municipal 5952/12, o Museu da Cidade de Pelotas. Surgia na forma da lei, porque o museu de fato nunca saiu do papel.

Inscrita junto a outras 25 ações no PAC Cidades Históricas, a Implantação do Museu da Cidade de Pelotas teve seu orçamento de R$ 3,7 milhões aprovado pelo Ministério da Cultura. Inclusive, R$ 514 mil já foram pagos, em 2015, para que a empresa paulista Texto e Imagem produzisse o projeto (a lembrar, repetidamente, o questionamento levantado pelos profissionais locais sobre o interesse da prefeitura em buscar em São Paulo um campo do conhecimento no qual Pelotas é reconhecida nacionalmente, como o é na área da museologia). Nesse mesmo ano, 2015, a responsável pelo projeto, a cineasta Isa Ferraz, apresentou o trabalho elaborado ao prefeito Eduardo Leite e, desde então, o projeto ficou apenas no papel.

Não só a proposta de um museu futurista, tecnológico, interativo e tantas outras coisas não foi para frente, como o Casarão 6 permaneceu sem uso efetivo. E lá se vão 8 anos de restauro concluído. Não tem como esquecer, no meio desse imbróglio, a conversa promovida pelo grupo do Almanaque do Bicentenário de Pelotas, em 2012, na qual diversas pessoas envolvidas com a cena cultural de Pelotas estavam a sugerir, desde aquele momento, a transformação do Casarão 6 em uma Casa de Cultura. Afinal, o Casarão havia sido entregue à comunidade em 2011 e a solicitação era mais que justa, era necessária e urgente. Diversas instituições precisavam de abrigo, como o Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas, o Centro Literário Pelotense, a Academia Sul-Brasileira de Letras, o Instituto Lobo da Costa, como também diversos grupos de dança e de teatro, de artes, de artesanato, de cinema, de leitura, de poéticas, de matrizes, de saberes e de fazeres, etc, estavam a precisar de um espaço público para o desenvolvimento de seus trabalhos. Uma Casa de Cultura multiuso da comunidade e para a comunidade. E os custos para implementá-la giravam na ordem da boa vontade e do pronto e imediato interesse do poder público. O que, por aqui, parece custar mais que alguns milhões.

O Casarão 6 vislumbra num horizonte próximo uma década de desuso. A exemplo do que fez seu antecessor, o de 1977, quando deu lugar ao surgimento da Fundapel, pode o Museu da Cidade dar lugar ao surgimento de um bem maior que é a Casa de Cultura de Pelotas. A ideia permanece latente, basta querer.

Fonte: Dan Barbier
Me. Patrimônio Cultural

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