UFPEL, 50 ANOS ( Por Pedro Moacyr Pérez da Silveira)

Acabo de chegar do Campus Capão do Leão da Universidade Federal de Pelotas; mais precisamente, do Auditório Wilson de Oliveira, localizado no prédio da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel (FAEM). Hoje, 08 de agosto de 2019, a UFPel celebra seu cinquentenário de vida, e o local, por iniciativa da gestão atual, conduzida pelo Reitor Pedro Rodrigues Curi Hallal, foi utilizado para celebrar a data através da sensível outorga de títulos honoríficos a professores e servidores técnico-administrativos.

A razão de minha ida deveu-se à circunstância geral de poder participar da entrega desses galardões a diversas amigas e amigos, pois já pertencendo eu há trinta e três anos à universidade devo confessar que uma expressiva quantidade de pessoas hoje reverenciadas são de minhas relações pessoais, alguns até mesmo bastante próximos.

De uma maneira mais específica, a razão que me levou até a FAEM foi o fato de que, dentre os homenageados, estavam os professores José Gilberto da Cunha Gastal e o servidor Luiz Guilherme Niewland de Oliveira. Por ambos, e cada um à conta de razão própria, tenho grande apreço.
José Gilberto foi meu professor de Direito Civil ao começo dos anos oitenta, e paraninfo de minha turma de graduação. Pessoa afável, de grande espírito, imensa inteligência e coração sem mal, foi um docente inspirador.

Dotado de expressiva cultura geral e formidável raciocínio jurídico, José Gilberto é daquelas pessoas que quando vemos ter a biografia distinguida se torna impossível não nos alegrarmos e nos comovermos. Senti isso ao vê-lo subindo ao palco para receber a cártula de seu reconhecimento acadêmico. Sua esposa, Gislei Gastal, foi minha colega de curso; seu filho, Alexandre Gastall, e sua neta, Joana Gastal, meus alunos. Tenho pelo José Gilberto um sentimento de amizade acompanhada pela graça do respeito; pelo Alexandre, de fraternidade agregada a uma ideia de companheirismo; pela Joana, a de uma misteriosa afetividade paternal, mesmo porque dela lembro ainda de sua primeira infância, quando à porta de minha casa comparecia para “vender” correntinhas, brincos, colares, aneizinhos e sei lá mais o quê cabe na inventividade das artesanias das crianças. Circunspecto, eu pagava à Joana valores nunca compatíveis com a excelência de sua arte com fios de cobre, mas ela partia feliz, acompanhada de outras guriazinhas da quadra em que mercavam seus produtos.

Bem antes, não soube ela, seu avô me emprestara as melhores lições jurídicas que, no correr das aulas, encordoava atrás de raciocínios que revelassem o melhor do Direito, e essas aulas eram lindas. Não soube que eu, por ela, entregava algo bom do meu coração a seu avô, sem que ele também soubesse. Quando ministrei, muito ao começo da minha vida professoral, aulas ao Alexandre, o filho e o pai dos que refiro com amor, ele igualmente não desconfiou que procurei, com duvidoso êxito, dizer-lhe o que melhor sabia para agradecer seu pai. E assim, nessa escala vertiginosa das descendências em que convivi com o que veio antes e com os que vieram após, a vida andou, e sempre guardando os seus silêncios essenciais porque essas elegâncias são necessárias à civilização e ao convívio entre as pessoas.

Mas – fique claro -, a elegância não foi minha. Coube-me apenas dar curso ao andar da roda da História. A elegância original foi do José Gilberto, que não me tendo por conhecido quando me ensinou, deu de si o seu melhor e garantiu para sempre em mim a certeza de que, doravante, eu saberia o que seria um professor. O Schlee também foi assim, juntamente com o Alberto Souza e o Angenor Gomes, meus professores e amigos queridos e memoráveis, todos colegas e amigos do José Gilberto, os quais, embora já idos, mantêm a lembrança da cepa de docência que vale a pena.

O Luiz Guilherme, ou apenas o “Guilherme”, não foi professor. Ele foi um servidor técnico-administrativo, o mais extraordinário de todos os que conheci. Na primeira vez em que fui Vice-Diretor da Faculdade de Direito estava na Direção o professor José Luís Marasco Leite. Nossa gestão foi de 1994 a 1998, e o Guilherme era o Secretário da Faculdade. Não, não era o Secretário! Ele era o pintor, o pedreiro, o restaurador de quadros maltratados pelas décadas (juntamente com o professor Oscar José Magalhães, hoje Diretor, que parecia àquele tempo ter obtido formação artística na Florença renascentista, de tal forma que, juntamente com o Guilherme, conseguiu fazer com que as fotografias de ex-diretores da Faculdade de Direito parecessem não haver erodido pelo mofo, e nem sido afetadas pela descoloração que a umidade produz).

Guilherme atendia ao telefone ao mesmo tempo em que preenchia formulários burocráticos; anotava lembretes enquanto conferia o depósito de provas muito antigas de alunos do passado; opinava sobre vagas e sobre o destino da humanidade. E fazia tudo muito bem, à exceção das suas opiniões sobre o apocalipse, mas nós éramos piores do que ele. Meu amigo Guilherme padeceu de um AVC ao começo desse milênio, tornou-se uma pessoa limitada fisicamente, mas hoje, quando o revi, encontrei nos seus olhos o velho brilho daquela época. Ele está vivo dentro de seu corpo vitimado. Aristóteles tinha razão no seu “De Anima”, quando afirmou que “os olhos não são o olhar, e que mesmo que não haja espírito e corpo como entidades separadas, quem a isso negar corre o risco de errar tanto quanto aquele que afirma o inverso”.

Enfim, não me alongo, ainda que me alongar seja algo comum a mim. Queria dizer apenas que, nessa noite, a propósito de ter tido o enorme prazer de abraçar dois amigos em especial, eu tive a impressão de “pertencimento” à UFPel (para usar um termo corrente e perigoso). Nos velhos conhecidos e na nova gente que por lá andou, vi a força própria de uma instituição, algo que costuma se revelar pela potência da tradição e que a pós-modernidade está eliminando (muitos chamam nosso tempo de “era das sociedades pós-tradicionais”). Claro, sei que isso não se trata de uma “tradição” à maneira dos conceitos mais sólidos da sociologia, mas ver a UFPel como uma casa que me acolhe há praticamente quarenta anos (aqui, preciso adicionar meus anos de estudante) me trouxe a sensação de que preciso manter em mim a certeza de que, mesmo diante de tantos colegas que pensaram e pensam diferentemente da forma como concebo o mundo, é preciso, talvez mais do que nunca, recusar o que o governo atual está pretendendo fazer com a universidade pública em nosso país, e que de forma muito clara o Reitor Pedro Hallal deixou entrever durante sua adequadíssima peroração.

Aliás, o Reitor conduziu-se à altura de seu alto cargo, saudando com educação e reconhecimento o ex-Reitor Antônio Cesar Gonçalves Borges, que estava presente, em face da forma efusiva como o mesmo foi cumprimentado por servidores e professores que por ele mantêm evidente apreço desde os tempos de sua administração.
Por último, fiquei com saudade de meu amigo e também ex-Reitor Amilcar Gigante, a quem, na minha solidão de forasteiro em terras pelotenses, vi como um segundo pai, e sei que ele a mim emprestou todo o seu afeto e sensibilidade, a despeito de seu temperamento.

Queria aqui homenageá-lo à maneira medieval, ou seja, em efígie. Tenho o seu retrato. Ele já se foi há vinte anos, mas na Idade Média as condenações e as honras, quando não estava mais presente o indivíduo a matar ou a louvar, eram feitas “em efígie”, ou seja, diante de uma imagem sua. Vi por lá, mas depois não encontrei mais, meu irmãozinho Luiz Henrique Schuch, Vice-Reitor do professor Amilcar, que não anunciou sua presença por razões que suponho pessoais.

Não nominarei outras pessoas. Foram muitas. Abracei e beijei diversos e diversas amigos e amigas. Nem sempre andamos lado a lado, mas três décadas e pico de UFPel nos fizeram capazes de apertar a mão, abraçar e beijar uns aos outros, porque durante todo esse período – sabemos – nunca estivemos tão absurda e estupidamente ameaçados como agora vamos percebendo que estamos. Sempre, como é sabido da maioria dos que me possam ler, estive “à esquerda”. Às vezes, à esquerda de tudo. Mas hoje, vendo alguns adversários antigos “de direita”, notei e ouvi dos mesmos: – Pedro Moacyr Pérez da Silveira, precisamos estar juntos! De fato, a extrema-direita é uma experiência nova, talvez não vivenciada nos moldes que hoje temos por nenhum dos presentes, nem mesmo aqueles que viveram intensamente as agruras e as consequências do golpe de 64.
Amigos e amigas, precisamos defender a universidade pública, não apenas a UFPel, e vi que vocês entenderam perfeitamente isso. Avante, dia 13 vamos todos às ruas!

Não quero findar esse texto com desesperança e clamor sofrido. Quero simplesmente esclarecer que não nominei praticamente ninguém aqui porque vocês são muitos, e têm igual valor para mim. Construíram a história de nossa UFPel ao longo dos anos. Parabéns e longa vida a todos.
Um último lembrete dirijo à nossa comunidade jurídica específica, ou seja, a nossos alunos, fundamentalmente: não tenham receio, e nem pensem que é inválido e retrógrado chamar a Faculdade de Direito de “Casa de Bruno Lima”! Eu conheci o professor Bruno Lima, muito embora não tenha sido meu professor, claro. Mas isso não é o que me anima a solicitar-lhes o abandono de certa cautela. Há mais, há a História. O Doutor Bruno Lima, homem de outro tempo, esteve muito à frente de sua época e defendeu o que precisamos defender agora: a democracia, o Estado Democrático de Direito e a busca da justiça! Eu, pessoalmente, tenho orgulho em afirmar que leciono há mais de três décadas em uma academia que é apelidada, por legítimo reconhecimento, de “Casa de Bruno Lima”. Aliás, a própria UFPel, que hoje comemora seus cinquenta anos, deve ser grata por ter, ainda que antes de sua fundação, mas no âmbito de sua inspiração, um ser humano como o doutor Bruno.

Ele foi um humanista, e isso é tudo e não é pouco!
Obrigado por manterem em mim a vontade de resistência contra esses canalhas.
Obrigado por me lembrarem que existem, e existiram sempre, professores verdadeiros.
Obrigado por saber que estamos juntos, ainda que não saibamos claramente o que queremos, mas que não queremos uma tigrada como essa do atual Ministério da Educação.
Obrigado por essa sensação de “pertencimento” a esse nosso lugar, a Universidade Federal de Pelotas/UFPel.

Fonte: Pedro Moacyr Pérez da Silveira, Colunista do Site da RádioCom

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