TRÊS PERGUNTAS PARA OTTO

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Otto, todo dia um sonho novo, sem covardia!

Por Jairo Sanguiné

Otto Maximiliano Pereira de Cordeiro, ou simplesmente Otto, 50 anos, é um artista pernambucano independente que começou a carreira no chamado movimento manguebeat, cria da icônica banda Chico Science e Nação Zumbi e da Mundo Livre S/A. Logo partiu para uma carreira extremamente inventiva e experimental, misturando suas origens do mangue com música eletrônica, samba, maracatu… Participou de trilhas de filmes, como Amarelo Manga (2003) e Árido Move (2006).

Além de cantor, compositor e instrumentista, Otto é um ser naturalmente político, ou na concepção aristotélica, um animal político. Que o digam seus escritos na redes sociais, onde a verve é extremamente acida contra todo tipo de conservadorismo. Nunca deixa de manifestar sua opinião em momentos políticos agudos. Em seu perfil no Facebook, por exemplo, sentenciou recentemente: “O Brasil realmente explodiu e agora estamos atravessando o eco da civilidade . Estamos encolhendo o nosso caráter , nossa moral ..somos sem vergonhas …, nossa elite corrupta , nossa justiça passiva , parcial , venal , nossas instituições falidas , sociedade ambiciosa despreparada , política nojenta e o povo desmoronando e escolhendo pessoas podres , alimentando o ódio”.

Além do forte posicionamento político, a religiosidade de matriz africana é bem marcante em sua vida e obra. Para saudar a chegada do ano de 2019, escreveu: “Como verso vem de longe Por dentro poeta me traz, vem a foice e o martelo, vem zumbido de metais… é a forja da espada dos tempos meus ancestrais . Vem de coração aberto , vem trazer justiça e paz . Vem dos cantos e dos poetas vem e faz . São Jorge meu padroeiro é de OGUM QUE É MEU PAI ! VEM JUSTIÇA DE XANGÔ. DE OXALÁ VEM A PAZ . Começou o ano!”

Musicalmente, Otto é um animal romântico e absolutamente sensível. Nas letras percebe-se esse forte viés sentimental que traduz suas relações. Em 2017 lançou o álbum de estúdio Ottomatopeia, o sexto da carreira, elogiado pela crítica e apresentado em shows pelo país e pelo mundo. Está gravando, sozinho segundo ele mesmo diz, seu sétimo álbum, já batizado de “Canicule”, ainda sem data para lançamento nas plataformas digitais.

Nesta entrevista exclusiva para a REVISTA 3SINAIS, Otto responde a três perguntas, falando sobre música, conservadorismo, religião e um pouco mais…

3 PERGUNTAS PARA OTTO

REVISTA 3SINAIS – Como você se define hoje como artista, ou seja, por onde você anda transitando no universo cultural depois de tantas experimentações nesses mais de vinte anos de carreira?

OTTO – Eu acho que estou de novo experimentando tudo, modificando, mergulhando. Não sou um cara que vai ficar estático , confortável, gosto de experimentar e agora vem o CANICULE meu próximo álbum , feito por mim sozinho, muito orgânico… toco tudo (risos) no Garage (Garage Band, software que permite criar música ou podcasting), uma experiência! Sinto necessidade de pular um abismo da música. Sempre me sinto contemporâneo, gosto de não saber o que vai ser, apostar – criar e buscar o novo.

R3S – Diante de tanto conservadorismo que aflorou no Brasil recentemente, como você, que sempre foi um artista alternativo, independente e questionador do tal sistema, se inspira hoje para produzir artisticamente? Ou isso serve para aflorar seus instintos mais primitivos e criar mais e melhor, questionando tudo isso que está aí?

 OTTO – Sou, antes de mais nada, um cidadão, um pai, nordestino, gosto do povo, de gente, gosto de brigar quando vejo injustiças. Adoro o meu país (às vezes não ), mas enfim … estou na resistência e na luta quando as coisas ficam pesadas, e minha criação são as coisas que sinto , enxergo, ouço e sei que quanto mais o sistema aperta, mais terei razão de criar, pensar e conceituar esse tempo – baseado no meu ponto de vista , a música é viva pois está perto do povo e é divina quando canta a alma deste povo. Sou um apaixonado por democracia, por liberdade e pela paz – tenho uma missão de cantar a alma e o coração do meu país; e vou me alimentando com esta força maior que é a compaixão e a justiça – que me inspiram muito.

R3S – A gente percebe pelas letras de suas canções e pelas suas manifestações nas redes sociais que sua obra vai muito além música, ou seja, você sempre assumiu seu lado de um ser político no sentido etimológico da expressão, bastante preocupado com as questões sociais que estão na ordem do dia, e junto a isso, a religiosidade (matriz africana) também tem forte influência na sua vida e obra… Como o mercado reage a isso, ou você está nem aí, já que sua produção é independente?

OTTO – Eu tive a chance de poder escrever, compor e cantar. Tive a chance de ter este dom de subir ao palco e fazer pessoas felizes. Vivo dos sentimentos espalhados em cada um de nós. Tenho 50 anos e sempre fui um ser politizado no melhor sentido, sou independente , acho que o mercado está numa profunda mudança, e a independência é a melhor forma de criar e fazer seu ofício. Não sei o que posso falar das intenções do mercado em relação a meu trabalho , pois estou muito fora dele e ao mesmo tempo mantenho uma dignidade na vida , tenho tudo que preciso pra viver , amor ao que faço e um público que sente e me dar amor. Tenho também as condições pra que eu circule o Brasil e o mundo, e assim trocar essa fidelidade com meu público. Quanto às religiões, eu amo e respeito toda forma de humanismo e de compaixão, amo o candomblé e toda sua grandeza  cultural e ancestralidade, amo suas histórias e seus ensinamentos, amo também o budismo, enfim, amo toda manifestação pura e admiro a FÉ  que cada um possa ter , é isso .. salve salve a beleza de ser gente!

Fonte: Texto original publicado na REVISTA 3SINAIS   

Foto: Extraída Facebook do Artista

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