Projeto Escola sem Partido está longe do fim

postado em: Sem categoria | 0

O fundador e líder do movimento Escola Sem Partido (ESP), Miguel Nagib, voltou atrás na sua decisão de suspender o projeto, anunciada no meio do mês de julho, e afirmou que, após obter os recursos materiais que necessitava, irá prosseguir e avançar “contra a doutrinação, a propaganda e o assédio ideológico, político e partidário nas escolas e universidades”. A declaração foi feita em rede social no dia 1º de agosto. 

Nagib disse sentir-se frustrado por conta do presidente Jair Bolsonaro (PSL) não ter mais tocado no assunto. De acordo com ele, o ESP tem poucas chances de avançar sem o apoio político do presidente porque o movimento atingiu o seu limite de adesão para emplacar o tema no Congresso. A estratégia para chamar atenção parece ter dado certo, pois poucas semanas depois anunciou a continuidade do projeto e destacou que isso foi possível devido ao apoio de empresários. 

O professor de Sociologia da FURG e um dos diretores do documentário Escola Sem Censura, Ricardo Gonçalves Severo, avalia o anúncio de Nagib como um “jogo de cena”. Segundo ele, figuras públicas da extrema-direita, como Nando Moura e Olavo de Carvalho, já utilizaram-se dessa mesma estratégia para chamar atenção em outros momentos e para mobilizar a sua base. “Eles dizem que vão sair de cena para mobilizar a população que apoia e que é contrária, porque eles só conseguem agir com esse processo de mobilização continuada de agressividade, e foi o que se demonstrou”, afirma. 

Escola Sem Partido já funciona na prática 

O projeto, que prega a censura e a perseguição de professores em sala de aula, apesar de ainda não ter tornado-se lei, é uma realidade presente nas escolas, institutos e universidades. “Mesmo que tivesse sido verdade a desistência, o movimento do Escola Sem Partido já foi bem sucedido na conjuntura atual. Não quer dizer que ele vai se perpetuar ad infinitum, mas ele já passou para uma esfera governamental”, aponta Severo. 

Diversos casos de perseguição política e ideológica, censuras e denúncias de professores têm aumentado nos últimos anos e fortalecido-se com o apoio do governo Bolsonaro. Severo destaca que esta é uma pauta conservadora que voltou com força na sala de aula e que conseguiu, em termos simbólicos, construir a figura dos educadores como inimigos da população. Para ele, este projeto de desconstrução da educação se consolidou em propostas como o homeschooling (educação domiciliar) e educação militar. 

A política do medo também é uma estratégia adotada pelo governo, que tem utilizado o Escola Sem Partido para justificar a retirada recursos das instituições de ensino. Essa política, instaurada pela perseguição e por ameaças de denúncias a reitores, resultando no silêncio de diversos gestores sobre o assunto, demonstra que o projeto já funciona na prática. “Por exemplo, aqui na FURG, onde sou professor, nós não sabemos publicamente o que está acontecendo. A gente sabe que não tem mais recursos, mas na FURG, como em diversas universidades, os reitores e administração não se pronunciam publicamente por medo. Então, o medo é um elemento fundamental para a mobilização da população e o governo só funciona através da aplicação dele”, aponta Severo. 

Personalidade autoritária

Segundo ele, o governo possui uma série de características fascistas como, por exemplo, tradicionalismo, agressividade, superstição, preocupação com o poder, submissão, entre outras, também presentes no Escola Sem Partido, em que “qualquer forma de crítica é vista como negativa ou como traição, porque eles só conseguem se constituir com uma visão dicotômica do mundo: são os inimigos ou são os cidadãos de bem e cidadão de bem é só aquele que me apoia”. 

Severo compara o atual governo à definição da “personalidade autoritária”, em livro do sociólogo e teórico marxista alemão Theodor W. Adorno, escrito na década de 1950, que não só parece descrever a atual gestão como também parte da população conservadora brasileira: “Alguém obcecado pelo aparente declínio dos padrões tradicionais, incapaz de lidar com a mudança, preso na armadilha do ódio a todos que não são considerados parte do grupinho e preparado para ‘defender’ a tradição contra a degenerescência”, conforme trecho.

Fonte: Assessoria ADUFPel

Deixe uma resposta