Progresso sim, mas não a qualquer custo! ( Por Dan Barbier )

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Por unanimidade, foi aprovado na CCJ da Câmara de Vereadores de Pelotas o PL que altera a lei municipal 4673 de 2001, que declarou zona de preservação de recursos naturais as raias interna e externa do Jockey Club de Pelotas e estabeleceu limitações administrativas de uso. Atrás da redação bastante simples, se esconde a complexidade própria daqueles temas ligados à preservação do patrimônio cultural. De um lado, a expectativa de mais emprego e renda numa cidade desacelerada somada a perspectiva de melhorias no Jockey, de outro lado o progresso a qualquer custo solapando nossas referências culturais, memoriais e identitárias. Se não entendermos o que está em jogo agora, o prejuízo poderá ser tremendo.

                O contexto é esse: O Hipódromo da Tablada foi reconhecido como bem integrante do patrimônio cultural pelotense, em 2001, pela lei municipal 4740/2001. Como efeito, suas características histórico-culturais e paisagísticas, por exemplo, passaram a estar integralmente protegidas pelo poder público. Como também passou a ser dever integrante da função social do Jockey Club de Pelotas preservar a totalidade de sua propriedade, bem como suas características arquitetônicas e naturais, signos e símbolos ali presentes, espaços de sociabilidade, etc. Inclusive aqueles aspectos intangíveis que fazem do Hipódromo da Tablada ser aquela porção de materialidade conhecida e reconhecida pela população, que a reivindica afetiva e apaixonadamente. Contudo, não diferente de outros espaços como este, a problemática da sustentabilidade econômica do bem o coloca a mercê de alternativas que, no afã de proteger a materialidade da coisa, acaba com aquilo que sustenta sua essência.

Esse é o dilema do Jockey, que para se modernizar, vende sua alma por 30 moedas de prata. Em outras palavras, cede seu território localizado entre as esquinas da Zeferino Costa e Salgado Filho, para construção de mais de 40 mil metros quadrados de pavilhões para que ali se instalem a Havan e o Comercial Záffari, afora um estacionamento com mais de mil vagas e uma estátua que faz referência à da Liberdade, ícone global da cultura e da política estadunidense. Esqueçam, portanto, aquela paisagem símbolo da Zona Norte, ela vai ser apagada para sempre. Na justificativa, investimento milionário na instalação das gigantes comerciais para gerar um punhado de emprego e reverter algum valor ao Jockey para sua manutenção. Na prática, lucros astronômicos gerados para a matriz catarinense, enfraquecimento dos pequenos comércios locais da zona norte, brutal exploração da mão de obra trabalhadora pelotense e um precedente sem igual no processo de preservação do patrimônio cultural local, o desrespeito completo com a tutela protetiva dos bens integrantes do patrimônio cultural de Pelotas. 

                Tirem essa ideia da cabeça! O interesse da Havan não é proteger nosso patrimônio cultural representado no Hipódromo da Tablada, nem auxiliar na modernização do Jockey. Muito menos garantir empregos com dignidade aos trabalhadores daqui. O interesse é outro, é lucro! Querem mais, por menos. O alvo hoje é o Hipódromo, amanhã só Deus sabe. Nosso patrimônio cultural, por tudo o que ele representa, precisa ser protegido. Sua preservação e sua sustentabilidade devem caminhar lado a lado, de mãos dadas. 

Não há de se duvidar que o povo pelotense quer seu hipódromo vivo e para isso seus gestores devem buscar iniciativas criativas e protetivas, pois a eles lhe cabem a preservação do bem para as gerações presentes e futuras. Os exemplos de sucesso estão espalhados pelo mundo inteiro e o Jockey Clube de Pelotas, se quiser, pode ser um deles.

Fonte: Dan Barbier – Me. Patrimônio Cultural

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