Porto Alegre – Projeto de lei é promulgado e avenida Castelo Branco dá lugar à Avenida da Legalidade e Democracia

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Fonte: Sul21

Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Com muita emoção, presença de pessoas que lutaram contra a ditadura militar e até mesmo choro, o projeto de lei que altera o nome da Avenida Castelo Branco para Avenida da Legalidade e Democracia foi promulgado na manhã desta quarta-feira (1º), no Salão Nobre da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. A iniciativa de autoria dos vereadores Pedro Ruas e Fernanda Melchionna, ambos do PSOL, foi sancionada pelo atual presidente da Câmara, Mauro Pinheiro (PT). Entre os presentes, havia um sentimento de que um erro histórico estava sendo reparado.

Definindo aquele como “um momento de grande emoção”, que o levaria às lágrimas pouco depois, inclusive, o vereador Pedro Ruas contou como teria sido a definição do nome da até então avenida Castelo Branco. Em 1973, num churrasco, o general Emílio Médici, presidente do Brasil à época, acompanhado de outros gaúchos vinculados à ditadura militar, estaria revoltado com a recém-inaugurada BR 290 (popularmente conhecida como Freeway) ter um nome estrangeiro em vez de uma homenagem àqueles que governaram sem receber um voto sequer. Para alterar isto, a solução encontrada foi batizar a avenida de acesso à cidade de Castelo Branco, primeiro dos governantes militares entre 1964 e 1985. “Pasmem vocês, foi o primeiro e acho que único caso em que os Correios deram o nome de uma rua, ao mandar o comunicado, não foi algo que passou pela Câmara”, indignou-se Ruas.

Vereador lamenta posição de Fortunati

Para Pedro Ruas, o fato de se tratar especificamente de Castelo Branco torna o caso ainda mais revoltante. “Castelo foi um dos maiores traidores da história do Brasil. Ele era Chefe do Exército antes do Golpe e poucos dias antes havia assegurado ao presidente Jango que as Forças Armadas seriam leais a ele. Isso eu ouvi da boca do próprio Leonel Brizola”, recorda.

O vereador também lamentou a posição do prefeito José Fortunati, do PDT, militante estudantil e popular no período da ditadura, que optou por não sancionar o projeto de lei, fazendo com que ele retornasse para a Câmara. “É uma pena que alguém que se diz brizolista tenha essa opção. Acho que ele cometeu um equívoco”, avaliou, aproveitando para saudar o vereador Mauro Pinheiro pela agilidade e vontade política com que teria conduzido o processo. Para completar, desabafou: “ Em cinco mandatos como vereador, nunca dei nome de rua. Não critico quem faz, acho que é uma das funções dos vereadores, mas preferi gastar meus esforços em outros projetos. Mas com essa mudança especificamente eu sonhava há uns 30 anos. Começa hoje o tempo dos que lutaram pela Legalidade e Democracia”.

“Era um desaforo para o Rio Grande”, define militante que lutou contra a Ditadura

A vereadora Fernanda Melchionna aproveitou a ocasião para sinalizar a necessidade de avanços no enfrentamento à ditadura no país, como o julgamento e condenação de torturadores. Mesmo assim, a conquista simbólica foi valorizada. “Estamos fazendo história. Na Alemanha, por exemplo, não há avenida Adolf Hitler. Na Argentina, não homenageiam o ditador Jorge Videla. Como diria um companheiro argentino: a memória é uma arma carregada de futuro”, resumiu.

Celebrando a lei como uma retomada da história, o vereador Mauro Pinheiro se mostrava orgulhoso. “É uma honra poder homenagear a luta trabalhista de Jango, Brizola e fazer aquilo que outros não tiveram a coragem de fazer”, afirmou, em referência à promulgação da lei que altera o nome da avenida da Zona Norte.

Logo após a assinatura, Raul Ellwanger, músico e membro do Comitê Carlos de Ré, entidade que luta por memória e justiça, cantou alguns versos da canção “Eu só peço a Deus”. Na sequência, militantes entoaram o Hino da Legalidade.

Capitão do Exército que se rebelou contra os militares, José Wilson da Silva, o Tenente Vermelho, foi mais um que ficou feliz com a mudança. “Isso era um desaforo para o Rio Grande. Castelo foi o homem que traiu o trabalhismo”, acredita.

Irmão de Cilon Cunha Brum, morto no Araguaia provavelmente em 1973 e desaparecido até hoje, o jornalista Lino Brum Filho crê que a justiça está sendo feita. “Não tínhamos uma homenagem ao maior movimento cívico do Brasil, que constitucionalmente garantiu a posse do presidente Jango. Mas ainda falta muito: até hoje nossa família espera pelo corpo do meu irmão para conseguirmos fazer um sepultamento digno”, relata.

Por Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

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