Porto Alegre – Em mobilização descentralizada do Bloco de Lutas, 3 mil marcham no Centro e repressão deixa feridos na Avenida Ipiranga

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Texto  Gabriela Féres, Jornalismo B

Colaborou Alexandre Haubrich

Foto : Murilo Seco

Duas mobilizações descentralizaram a luta pela redução da tarifa do transporte público na noite desta terça-feira (24), em Porto Alegre. O Bloco de Lutas convocou oficialmente um protesto para a frente da Prefeitura da capital gaúcha, mas algumas organizações optaram por levar a cabo algo que já vinha se desenhando desde o início do ano: a realização de atos fora do Centro da cidade.

Essas organizações, encabeçadas pelo Movimento Unificado, tentaram trancar a Avenida Ipiranga na altura da Vila São Pedro, buscando construir um diálogo mais próximo com aquela comunidade. Porém, a via ficou fechada por poucos minutos: logo a Brigada Militar reprimiu o protesto com Cavalaria e Batalhão de Choque, entrando na comunidade atrás dos cerca de 50 ativistas que procuravam abrigo contra as bombas. De acordo com manifestantes, casas foram invadidas pelos policiais na busca pelos militantes. Rodrigo Brizola, do coletivo Vozes Libertárias, conta como foi: “O Choque nos encurralou nas vielas da Vila São Pedro e jogou muitas bombas de gás e de estilhaço. Também deram tiros de bala de borracha”, explica.

Diane Porto, que faz parte da Frente Quilombola e que também estava no ato da Avenida Ipiranga, comentou depois o que viu: “Eu vi um ódio inexplicável nos olhos daqueles policiais. Tinham sede de bater. Avançaram contra crianças, mulheres com crianças no colo, idosos, empurraram com seus cavalos e escudos para dentro da vila, onde não seria vista a totalidade da brutalidade. Ali, descarregaram toda a pressão que sofrem de seus comandantes. Me doeu a pancada na cabeça, doeu mais ver os companheiros apanhando miseravelmente, doeu ver tanta criança ali. E essas crianças sofrem isso diariamente”.

Três pessoas acabaram detidas: dois ativistas do Movimento Unificado e um do Utopia e Luta, todos sob alegação de “desacato”. Dois foram feridos pela polícia, sendo que um desses ativistas tinha suspeita de fratura na região do ombro. Segundo outros manifestantes, ele teria sido agredido por seis policiais. O outro havia sido atingido no rosto por uma bala de borracha. Muito machucados, foram encaminhados ao Hospital de Pronto Socorro (HPS), mas, mesmo depois de duas horas de espera, não foram atendidos. Acabaram levados à Delegacia de Polícia, e encaminhadas depois ao IML, para fazer exame de corpo de delito, sendo depois liberados.

Ato do Centro marchou em defesa dos companheiros presos

Nesse meio tempo, o protesto que saíra da Prefeitura passara de 500 pessoas na concentração para cerca de 3 mil ao longo da marcha, que dessa vez teve um caminho diferente do costumeiro. A mobilização na Prefeitura teve a participação do Coletivo Juntos, do Vamos à Luta, do Levante Popular da Juventude, da União da Juventude Socialista, da organização A Marighella, da ANEL, do Alicerce e da Federação Anarquista Gaúcha. O ato foi agregando apoiadores ao longo da marcha, enquanto ativistas distribuíam panfletos aos trabalhadores que esperavam nas paradas de ônibus ou observavam das calçadas.

A marcha teve como trajeto os principais terminais de ônibus do Centro. Um boneco com rosto do prefeito José Fortunati (PDT) foi queimado. A bateria do Bloco puxava os cantos. Megafones convocavam mais pessoas a aderirem à caminhada.

Para Matheus Gomes, da ANEL, “a mobilização que ocorreu no centro da capital foi a maior do ano, demonstrou que a luta contra o aumento pode se desenvolver nos próximos dias e conquistar vitórias”. Ele acrescenta que “a repressão da BM ao trancaço contra o aumento na Vila São Pedro é o fato que precisa ser amplamente denunciado. Atacaram covardemente a mobilização e aterrorizaram a vida dos moradores da comunidade, que são trabalhadores negros em sua maioria”.

Após passar pelo viaduto da Avenida Senador Salgado Filho, os presentes foram informados de que o outro protesto havia sido reprimido e de que havia presos. Assim, o trajeto previsto foi mudado, e a caminhada se dirigiu ao Palácio da Polícia, onde também chegavam manifestantes que estavam na mobilização da Av. Ipiranga.

Lá permaneceram todos por cerca de uma hora, até que se tivesse notícias da situação dos presos. Um grupo de apoio jurídico do Bloco acompanhou os ativistas no HPS e depois na Delegacia de Polícia e no IML, até que estes foram soltos já no início da madrugada de quarta-feira.

As mobilizações desta terça-feira foram os primeiros atos desde o aumento da passagem na capital gaúcha, que ocorreu no último domingo (22), quando foi sancionado o reajuste para R$ 3,25. Já na quarta-feira o Bloco de Luta deve fazer nova assembleia, no DCE da UFRGS, às 18h30, para avaliar as ações desta terça e preparar novas mobilizações.

Murilo

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