Plástico nos oceanos: as corporações culpam você

Breve, haverá mais lixo que peixes nos mares, diz a ONU. Coca, Nestlé e Danone, que inundam o planeta de embalagens descartáveis, querem evitar, a todo custo, leis que as proíbam de poluir

Uma baleia morreu com 40 quilos de plástico no estômago nas Filipinas, informou o New York Times neste 18 de março. A notícia repercutiu amplamente, chegando aos quatro cantos do planeta pela BBC, National Geographic, CNN, Fox, Washington Post etc.

“É apenas uma das centenas que morrem todo ano, em todo o mundo”, afirma Darrell Blatchley, fundador da ONG Museu colecionador de Ossos, naquele país. “A causa final da morte desta jovem baleia-bicuda-de-cuvier que resgatamos no dia 16 de março de 2019 são 40 quilos de sacos plásticos, incluindo 16 sacos de arroz, quatro sacos usados em plantação de banana e várias sacolas de compras”, publicou a página do Facebook do museu. 

O alarme pelo impacto ambiental do plástico sobre os oceanos cresceu enormemente nos últimos anos. Segundo as Nações Unidas, em 2050 poderá haver mais plástico do que peixes nos oceanos. No Pacífico, cerca de 1,8 bilhões de objetos plásticos ocupam uma área de aproximadamente dois milhões de metros quadrados.

O Brasil produz 11,3 milhões de toneladas de plástico por ano, o que significa que cada brasileiro gera cerca de um quilo de lixo plástico por semana. Somente 1,2% desse volume é reciclado. É o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, precedido apenas por Estados Unidos (70,8 milhões de toneladas), China (54,7 milhões) e Índia (19,3 milhões). Os dados são do relatório Global Plastics Report, do WWF, divulgado no início de março.

Números

Pressionadas pela opinião pública, multinacionais aceitaram pela primeira vez revelar a quantidade de plástico que produzem anualmente. Assinaram o Compromisso Global para uma nova economia do plástico, elaborado em março de 2019 pela Fundação Ellen MacArthur em colaboração com as Nações Unidas.

Os números vão às alturas e as campeãs são nossas conhecidas: Coca-Cola, Nestlé e Danone. O grupo Coca-Cola declara produzir por ano (incluindo a célebre bebida gasosa, mas também suas outras marcas) não menos de três milhões de toneladas de plástico. A Nestlé ocupa o segundo lugar mundial, com 1,7 milhões de toneladas. E a Danone o terceiro, com 750 mil toneladas anuais, ligadas principalmente à água engarrafada.

A conta, feita pelo caminho inverso, chegou aos mesmos números. A coalizão internacional de grupos ambientalistas Break Free from Plastic (Libertar-se do plástico) pediu a milhares de voluntários ao redor do mundo que, ao coletar lixo plástico, identificassem as marcas ligadas aos resíduos.

O resultado foi o mesmo: o lixo de marca registrada Coca-Cola é o mais onipresente, seguido pelo da PepsiCo, Nestlé e Danone. Entre as multinacionais que se recusaram a aderir ao compromisso de transparência estão a PepsiCo e a L’Oréal, além de grupos do grande varejo.

Consciência

Até agora os fabricantes e consumidores de plástico, da indústria química à agroalimentar, desviavam a atenção de sua responsabilidade acusando os consumidores individuais de não colocar seus resíduos no lugar “certo”. Essa é a mensagem, por exemplo, da campanha francesa “Gestos Limpos”, atrás da qual estão as mesmas Coca-Cola, Danone e Nestlé. É também o que mostra apesquisa do Observatório das Multinacionais em nível europeu.

Hoje, com a elevação da consciência sobre o impacto ambiental do plástico, os fabricantes apostam em iniciativas de “responsabilidade social” voltadas a projetos que coletam lixo plástico de rios e oceanos ou apoiam alternativas como o “bioplástico” ou a “reciclagem de plástico” – mas não atacam a raiz do problema, ou seja, reduzir a produção e o consumo do plástico. 

Referindo-se a projetos como o da Fundação Ellen McArthur ou à Aliança para Acabar com a Poluição Plástica, lançada em janeiro passado na França com as mesmas responsáveis por entupir os mares de plástico, ONGs como a Break Free From Plastic, uma coalizão de 1700 organizações da sociedade civil em todo o mundo, observam que um pacto voluntário não é suficiente para conter a crise, face à amplitude do problema. 

São iniciativas muito tímidas, denunciam também as ONGs Zero Waste France e Surfrider, apontando “a falta de meta quantificada para a redução das quantidades de embalagens de plástico descartáveis” e o fato de ser um pacto voluntário, que não se aplica a todos os atores econômicos. Como a Break Free From Plastic, alertam os políticos responsáveis: os tempos não estão mais para a adoção de adesões voluntárias, mas para medidas regulatórias, nacional e internacionalmente, capazes de cortar pela raiz a crise da poluição pelo plástico.

Fonte : Site Outra Palavras ( Inês Castilho )

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