Os livros queimados de 1933: qual a ideia acima de tudo? ( Por Dan Barbier)

Os livros queimados de 1933: qual a ideia acima de tudo?

Talvez você nunca tenha ouvido sobre ela, mas não tenhas dúvidas que a noite de 10 de maio de 1933 marcou para sempre a história recente da humanidade. Como um dos vieses do projeto de poder em curso desde que assumiram o comando da Alemanha, em 30 de janeiro daquele ano, Adolf Hitler e o Partido Nazista passaram a implementar uma política estadista de limpeza na área da cultura. Essa política de purificação rapidamente ganhou força, adeptos e espaço.

A propaganda nazista fazia com que as pessoas cressem que a Alemanha estava infestada por uma praga cultural internacionalista, a qual havia corrompido o espírito germânico mais puro e nobre. Culpavam os intelectuais por desvirtuarem a nação, cindindo-a do glorioso passado de outrora. Eram eles os responsáveis por envenenarem o povo com suas ideias degeneradas. Uma ameaça ao projeto de uma “Alemanha acima de tudo” (no alemão, “Deutschland über alles”).

Por isso, não foi difícil promover, com a ajuda da população da época, uma grande queima de livros de escritores estrangeiros, judeus e intelectuais contrários ao regime. A ação, promovida pelo Ministério da Propaganda, liderada por Joseph Goebbels, utilizava informações, notícias e agitação de rua para convencer a população da necessidade de expurgar movimentos culturais antinazistas. A opinião pública mostrou pouca resistência. A perseguição cultural iniciada em 33 persistiu durante todo período. Começou queimando livros, terminou queimando pessoas. 

Passados 86 anos, a ideia ainda sobrevive no horizonte da humanidade.

Terminada a segunda grande guerra, já no contexto da Guerra Fria, após a explosão de uma bomba no Aeroporto de Recife, em julho de 1966, um núcleo de oficiais da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército brasileiro passou a promover reuniões semanais para discutir o contexto político nacional. Ficaram conhecidos como Centelha Nativista e foram responsáveis pela redação de uma oração e uma carta de princípios nacionalistas.

O eixo da ideologia do grupo era ressuscitar os valores “de nacionalismo não xenófobo, de amor ao Brasil e de criar meios que reforçassem a identidade nacional e evitasse a fragmentação do povo pela ideologia e exploração de dissensos da sociedade dividindo o povo nos termos da velha luta de classes do marxismo”. Em sua oração, a súplica para que as famílias fossem edificadas pela fé cristã e que ficassem livres “dos que, pela comunicação social ou pelos livros, se empenham em poluir a vocação cívica e patriótica de nosso povo”. Livros, que na atualidade poderiam perfeitamente serem traduzidos por mídias. Na sua carta de princípios, o dever de:

1) Considerar o bem-estar comum como princípio básico de todo desenvolvimento 

2) Fazer da ordem, da disciplina e do trabalho honesto a alavanca do progresso da Nação

3) Dar oportunidade a todos e promover os mais capazes

4) Fazer da educação ética e cívica instrumento para a formação do povo e da boa consciência nacional 

5) Promover o desenvolvimento, garantindo a soberania nacional 

6) Incentivar o culto às tradições e o respeito à família, como base da nossa sociedade 

7) Manter a harmonia de classes através da distribuição de renda 

8) Impor obrigações recíprocas entre governantes e governados, através das leis, para que as responsabilidades sejam equitativamente distribuídas 

9) Estimular a iniciativa privada, promovendo os valores permanentes da nacionalidade, expressos nos objetivos nacionais vitais 

10) Ser rigoroso e inflexível na punição dos crimes contra o povo, o Estado e a Nação.

O entusiasmo gerado entorno dessas ideias, ambas encerradas com o lema “Brasil, acima de tudo”, se espalhou entre aqueles oficiais e levou o grupo ao ativismo. Preocupados com a saída de Costa e Silva do poder, aquele que tinha sido responsável pelo AI-5, e contrários à negociação das autoridades do regime militar com os militantes da ALN e MR-8, que haviam sequestrado o embaixador estadunidense Charles Elbrik, em setembro de 1969, o grupo promoveu uma tomada à força da Base Área do Galeão, da qual partiria o avião que transportaria os 15 presos políticos à salvo para fora do país negociados em troca da soltura do embaixador. Após terem fracassado na sua tentativa, o avião conseguiu chegar ao México, a Centelha Nativista invadiu a Rádio Nacional, na Avenida Brasil, e lançou no ar o seguinte comunicado:

“Atenção para um comunicado à nação brasileira: a tropa de paraquedistas e outras tropas, insurgidas contra a decisão da Junta Governamental, de fazer a entrega de presos condenados pela Justiça, numa demonstração de fraqueza e à revelia das Forças Armadas – lança – nesse momento, uma proclamação ao povo brasileiro de repúdio a tal medida impatriótica. Conclamamos à união e tomada de consciência de que existe, em nosso país, declarada guerra interna revolucionária de comunistas, contra a qual iniciamos, neste momento, ações militares de repressão. Para o cumprimento desta determinação patriótica, estamos dispostos ao mais alto sacrifício. 

Em nome de Deus.

Brasil acima de tudo.” 

O fato foi absolvido pela Justiça Militar, que inocentou os oficiais por os considerar “jovens idealistas”. Como medida administrativa, foram transferidos para longe. Assim, a ideia se espalhou junto com eles. O lema virou brado e, em janeiro de 1985, ao assumir a Brigada de Infantaria Paraquedista, o Gen. Acrísio Figueira oficializou o lema entre a tropa. Brasil acima de todos passou a ser, até os dias de hoje, o brado oficial das tropas aeroterrestres do Exército brasileiro. Mas não só o brado.

Com passagem durante suas carreiras militares pela Brigada de Infantaria Paraquedista, a chapa Bolsonaro e Mourão não só incorporou o lema “Brasil acima de todos” em sua campanha nas eleições de 2018, como ele é a síntese do projeto de poder do grupo que chegou à presidência da República. O conjunto de pautas promovido pelo atual governo, justificadas como solução para a crise econômica que nos acometeu recentemente, como forma de evitar a recessão e gerar emprego (já são mais de 13 milhões de desempregados em 2019), já não pode ser lido nesse sentido. A solução da crise não é o mote desse governo. A prioridade é colocar em curso um projeto de poder que não tem prazo de validade. Não se extingue daqui a quatro anos. Que tem como base outro brado “Brasil coração do mundo, pátria do evangelho”.

A extinção do Ministério da Cultura, a censura à campanha do Banco Brasil, que incluía uma mulher trans e várias pessoas negras, e o atual ataque a Agência Nacional do Cinema, a Ancine, que movimenta anualmente um valor em torno de R$ 25 bilhões, representam vieses do ativismo encapado pelo presidente Jair Bolsonaro dentro de sua propaganda de guerra cultural. Guerra que acena à limpeza na área cultural, à purificação e à expurgo. Esses atos não podem ser lidos isoladamente. Fazem parte de um contexto maior, que apenas sabemos como começou. 

Fonte: Dan Barbeir ( Colunista do Site da RádioCom )

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