O dia em que Pelotas parou – Por Cadré Dominguez

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Milhares de trabalhadores da educação e alunos fizeram uma manifestação gigante em defesa da educação e contra os cortes do governo federal

Foto: Eduardo Silveira de Menezes

“- Liga o celular na lanterna e sacode, liga o celular na lanterna e sacode!” – berra a moça no microfone do carro de som – “Vai ficar bonito!”, completa. Ficou mesmo.

Eram 18h45min quando o maior protesto dos últimos 30 anos paralisou as principais ruas do centro da cidade. Milhares de pessoas, entre jovens estudantes, funcionários da UFPEL e IFSUL, professores de todas as idades e lugares, simpatizantes e muitos curiosos produziram a primeira fissura na armadura da gestão Jair Messias Bolsonaro (PSL).

O Governo Federal enfrentou questionamentos em todo o país. De Pelotas ao Rio de Janeiro, passando pelas regiões Norte e Nordeste em um coro único: Não aos cortes, não. Situação em que o presidente da república se enfiou ao seu bel prazer. Ao eleger a educação como inimiga o presidente da república semeou inimigos, justamente no campo da sociedade responsável pelos maiores avanços tecnológicos e científicos do país. Pode custar o sal da janta.

Em todo o país o grito de fora Bolsonaro encontrou um eco inusitado para um governo em começo de mandato. A série de atitudes estapafúrdias e caricatas tornou a administração uma piada pronta. Como em todo país, em Pelotas não foi diferente.

O Protesto Nacional pela Educação e contra os cortes de verbas no setor ocorreram, ontem, em todo o país. Em Pelotas a concentração foi no largo do Mercado Público. Desde as 13 horas a população começou a chegar… um mesclado contingente de pessoas de idades variáveis, de 13 a 73 anos. Estudantes secundaristas e de primeiro grau dividiam o espaço lotado logo depois do meio-dia.

Os discursos foram das 14 horas até as, pontualmente, 16h40min quando a multidão que se aglomerava no Mercado Público ganhou as ruas do centro da cidade, mobilizando corações e mentes dos universitários e pessoas em geral que apoiavam o pleito. A manifestação de repúdio ao atual governo cresceu e engrossou. Milhares de pessoas enchiam as ruas do entorno da Praça Coronel Pedro Osório. Quando a frente do protesto chegou diante do Theatro Sete de Abril, os últimos cidadãos ainda saiam do Largo do Mercado Público. E o dia exultava um azul profundo, com poucas nuvens e temperatura agradável.

E a multidão entrou Rua Floriano adentro tomando de assalto o coração do comércio pelotense, arrancando aplausos de vendedores e clientes, cena que se repetiu por diversas vezes no trajeto até o campus do IFSUL, tradicional escola técnica de Pelotas. Lá, já no cair da noite, iluminada por uma lua já ovalada, preocupada e ativa, que vibrava com a imensa aglomeração que fechou as principais ruas do centro, dificultando o tráfego dos veículos. Ontem, o dia e a noite eram das pessoas. E elas, jovens e idosos, homens e mulheres, pediam apenas a chance de trabalhar pela educação. E lá foi a procissão, se arrastando como cobra pelo chão. Com direito a uma infinidade de cartazes, bandeiras, tambores, gritos, palavras de ordem, coro e faixas com dizeres em defesa da educação, uma mescla de camisetas dos projetos da UFPEL e IFSUL, a manifestação tomou as ruas. Um espetáculo de cidadania.

A população aplaudiu. Do Mercado Central até o IFSUL, voltando para o Mercado, contornando o camelódromo em frente à Receita Federal até chegar a Rua Tiradentes e voltar aos fundos do Mercado. Um misto de animação, protesto, cidadania, bom humor, música, pesquisa e muita educação. A Greve Nacional da Educação chamou a atenção da cidade para o imenso prejuízo social e econômico que a região tem com a falência operacional da UFPEL. Passamos por isso, sempre, no reerguimento institucional e a finalização da expansão universitária. Muito ainda deve ser feito, mas o ato do dia 15 será inesquecível. É o dia que o mito quebrou e as pessoas perderam o medo do futuro.

Por Cadré Dominguez para o Em Pauta

Foto: Eduardo Silveira de Menezes

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