Malásia: 1 em cada 3 operários está em situação análoga à escravidão em fábricas de eletrônicos

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Fonte: Opera Mundi

Foto: Flickr/CC/ Nguyễn Thành Lam

Um em cada três empregados da indústria de equipamentos eletrônicos na Malásia trabalha em condições análogas à escravidão, com restrição de liberdade e trabalhos forçados. A constatação está presente no relatório realizado pela ONG Verité, com sede nos Estados Unidos, a pedido do governo norte-americano e divulgado nesta quarta-feira (17/09).

O grupo de monitoramento, que verifica as condições de trabalho de operários ao redor do mundo, conduziu a investigação de dois anos a pedido do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, que dispõe de uma legislação para proibir a importação de produtos fabricados com mão de obra forçada.

O levantamento aponta que 32% dos trabalhadores da indústria eletrônica, aproximadamente 200 mil imigrantes, realizam trabalho forçado, uma vez que têm o passaporte apreendido, são forçados a pagar altas taxas ilegais de recrutamento, gerando altas dívidas, sofrem ameaças físicas e são coagidos a fazer horas-extras.

“Os resultados sugerem que o trabalho forçado está presente na indústria eletrônica da Malásia e, de fato, pode ser caracterizado como generalizado”, afirma a Verite, que entrevistou 501 trabalhadores em 200 fábricas no país.

A indústria eletrônica é uma peça chave da economia malaia e fornece semicondutores, periféricos de informática, equipamentos de comunicação e outros produtos a marcas famosas como Apple, Samsung e Sony.

O sucesso do setor, no entanto, é baseado, em parte, na exploração dos trabalhadores estrangeiros, pobres e vulneráveis procedentes da Indonésia, Nepal, Índia, Vietnã, Bangladesh e Mianmar, afirma o estudo da ONG.

Irregularidades

A ONG aponta que 92% dos entrevistados tiveram que pagar taxas de recrutamento, cobradas tanto nos países de origem dos trabalhadores, como na Malásia. O valor “geralmente excede os parâmetros legais e industriais equivalentes a um mês de salário”, afirma o estudo.

Metade dos imigrantes disse ter levado mais de um ano para quitar o valor e 92% fizeram horas extras para tentar pagar a dívida. Os trabalhadores também relataram ser impossível deixar o trabalho sem encerrar a dívida.

O relatório aponta também que 94% dos imigrantes não estavam com o passaporte no momento em que a equipe esteve com eles. Outros 71% afirmaram ser difícil obter o documento no momento em que precisam.

“Ficar com nossos passaportes é, nem mais nem menos, a escravidão moderna”, afirmou um trabalhador birmanês, segundo o documento, citado pela Associated France Press.

“O mais moderno dos setores industriais é caracterizado por uma forma de exploração que há muito tempo deveria ter sido relegada ao passado”, disse Daniel Viederman, diretor executivo da Verité.

Um trabalhador vindo do Nepal, relatou que seu passaporte foi retirado ainda no aeroporto. Ele pagou US$ 1.500 para conseguir o trabalho. Após 14 meses na empresa, do contrato de três anos, não consegue juntar dinheiro porque ainda está pagando a taxa paga pelo recrutamento. O homem em questão trabalha 12 horas por dia, sete dias na semana e disse que levaria dois anos para terminar de pagar o empréstimo, relatou Viederman.

No total, 30% dos trabalhadores estrangeiros entrevistados denunciaram que são obrigados a dormir em quartos pequenos, onde são colocadas até oito pessoas. Também foi relatado que a liberdade de movimento é restrita, já que os passaportes são apreendidos. Outros 22% disseram que foram enganados a respeito das condições de trabalho e a pressões para horas extras no recrutamento.

Outro lado

Consultada pelo jornal norte-americano The New York Times, a embaixada da Malásia nos Estados Unidos não comentou o relatório devido a um feriado nacional. Funcionários da Samsung e da Sony não responderam as perguntas do diário.

A Apple respondeu que “esse é um tema que temos prestado muita atenção e trabalhado muito nisso. Nós somos a primeira companhia de eletrônicos a reembolsar os trabalhadores que tiveram que pagar taxas excessivas de recrutamento”.

O porta-voz da empresa, Chris Gaither, disse que a Apple gastou US$ 19,8 milhões para pagar o recrutamento forçado de trabalhadores que ultrapassavam o valor de um mês de salário e ressaltou que das 30 fábricas na Malásia utilizadas pela companhia, foram auditadas 18 no ano passado para investigar trabalho forçado e outros problemas.

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