Guardian noticia ‘geração de exilados políticos’ do Brasil de Bolsonaro

Uma reportagem do jornalista Dom Phillips, correspondente do britânico The Guardian no Rio de Janeiro, noticia nesta quinta-feira 11 o que seria uma “geração de exilados políticos” do Brasil de Bolsonaro. O objetivo: “continuar viva”.

Jean Wyllys, que abriu mão de seu mandato de deputado federal, a filósofa Marcia Tiburi, a ativista antropóloga e ativista feminista Debora Diniz e o escritor e ativista atuante em favelas Anderson França são personagens na matéria, que traz declarações sobre as razões da tomada de decisão de deixar o País. 

Leia abaixo a íntegra da reportagem, traduzida prara o português por Carolina Ferreira, com revisão de O. Ramos. Aqui a matéria no site do The Guardian

Nova geração de exilados políticos deixa o Brasil de Bolsonaro “para continuar viva”
Políticos, intelectuais e escritores fugiram de um clima de ameaças de morte e hostilidade que faz lembrar a ditadura militar

Dom Phillips, no Rio de Janeiro
Quinta-feira, 11 de julho de 2019

Às vezes, a solidão e a separação da família e dos amigos fazem Jean Wyllys mergulhar no desespero. “Eu passei por momentos de profunda tristeza, passei a noite inteira chorando”, disse ele, falando por telefone de sua nova casa em Berlim. “Então evito pensar muito nisso. Eu me mantenho muito ocupado, tenho escrito muito.”

Escritor e professor universitário, Wyllys ganhou a versão brasileira do Big Brother antes de se tornar um dos políticos de esquerda mais conhecidos do país e o único legislador abertamente gay do Congresso.

Mas em janeiro ele renunciou e fugiu do país. “Eu saí do Brasil para continuar vivo”, disse Wyllys.

A ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985 exilou políticos, dissidentes, artistas e acadêmicos de esquerda. Décadas mais tarde, proeminentes esquerdistas e ativistas brasileiros estão novamente deixando o país, mas desta vez fugindo das ameaças de morte de extremistas de direita e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Outros importantes exilados incluem a filósofa Marcia Tiburi, ex-candidata ao governo do estado do Rio de Janeiro, a ativista feminista Debora Diniz e o escritor e ativista atuante em favelas Anderson França.

“Eu não queria vir. Foi uma fuga”, disse França, que se mudou para Portugal. “Pessoas como eu não estão seguras no Brasil hoje.”

Todos os quatro exilados descrevem um conjunto de ameaças de gangues paramilitares, extremistas de direita e um fórum niilista da dark web cujos usuários expressam ódio por esquerdistas, mulheres e negros.

Às vezes, essas ameaças coincidem com abusos ou mentiras difamatórias compartilhadas on-line por seguidores de destaque do presidente de extrema-direita do Brasil.

Débora foi colocada sob proteção policial semanas antes de uma audiência sem precedentes no ano passado para discutir a descriminalização do aborto.

Ameaças de matá-la e massacrar seus alunos e colegas na Universidade de Brasília chegaram via WhatsApp e e-mail. Diniz deixou o Brasil após a audiência e agora trabalha como pesquisadora visitante na Universidade Brown, nos Estados Unidos; seu marido está desempregado e ela está longe de seus pais idosos.

“Deixar o Brasil tem um tremendo impacto”, disse ela. “É uma experiência horrível.”

Os abusos e ameaças contra Jean Wyllys começaram quando ele entrou no congresso em 2011. Notícias falsas alegavam que ele havia defendido a pedofilia; Bolsonaro – então deputado – atacou Wyllys com insultos homofóbicos e até disse a um entrevistador de televisão que Wyllys estava “estimulando a pedofilia”. 

Em 2017, Wyllys recebeu proteção policial dentro do Congresso. No ano passado, foi estendida para protegê-lo fora do Congresso e no Rio, e foi providenciado um carro à prova de balas, mas retirado antes da campanha eleitoral. Em novembro, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos solicitou ao Brasil que o protegesse bem como a sua família.

“Mesmo com uma escolta policial, as pessoas me ameaçavam abertamente”, disse ele. “Eles disseram claramente que eu morreria quando Bolsonaro se tornasse presidente.”

Marcia Tiburi, escritora prolífica e professora universitária, foi informada por contatos da polícia no ano passado de que gangues paramilitares a estavam “vigiando”.

Esses poderosos grupos mafiosos incluem ex-policiais bem como policiais na ativa, e estão ligados à família Bolsonaro. Enquanto era deputado estadual no Rio, o filho do presidente, Flávio, empregou a esposa e a mãe de um líder paramilitar que agora está foragido. Em 2018, dois paramilitares – ambos ex-policiais – foram presos por assassinar Marielle Franco, vereadora carioca de 38 anos, conhecida por defender as comunidades negra, LGBT e da favela da cidade.

O apartamento de Tiburi no Rio foi arrombado, mas nada foi levado; ativistas de direita começaram a interromper seus eventos de divulgação de livros; ameaças on-line diziam que ela seria baleada durante um evento de autógrafos de seus livros.

O Partido dos Trabalhadores providenciou segurança quando ela concorreu ao governo do Rio – mas isso acabou depois que ela perdeu a eleição. Ela deixou o Brasil e agora vive entre os Estados Unidos e a Europa. “Houve uma caça às bruxas no Brasil por um tempo”, disse ela. “Eu continuo escrevendo meus livros e fazendo minha pesquisa.” 

Anderson França, escritor e educador cujas postagens no Facebook e no Instagram denunciando o racismo, a desigualdade e a violência policial são amplamente lidas no Brasil, há muito tem recebido ameaças e abusos racistas por seu trabalho.

Depois do assassinato de Franco e da vitória eleitoral de Bolsonaro, amigos e colegas disseram que não era mais seguro ele viver no Brasil. Ele se mudou para Portugal – e continua escrevendo. 

“Estamos muito preocupados com as pessoas que ficaram”, disse ele. “Algum outro ativista vai morrer?”

França, Wyllys e Diniz disseram que receberam ameaças de morte de usuários de um site extremamente racista e misógino que se autodenominou “o maior fórum de direita alternativa do Brasil”. A conselho da Polícia Federal, The Guardian não publicará seu nome nem de seus membros.

Os usuários anônimos do site discutem pedofilia, estupro e morte de mulheres, “estupro corretivo” de lésbicas, dicas de suicídio e até planos de tiroteios em escolas e universidades para atingir marxistas e esquerdistas. Ao longo dos anos, o fórum trocou seu nome e se mudou para a dark web, onde não pode ser acessado usando um navegador normal; recentemente suspendeu suas atividades.

Um de seus primeiros alvos foi Dolores Aronovich, professora de Inglês na Universidade Federal do Ceará, no nordeste do Brasil. “Eles acham que a verdadeira vítima do mundo é o homem branco hétero (…) que as mulheres controlam o mundo através do poder do sexo”, disse Dolores.

Em 2011, alguns de seus usuários apoiaram um atirador que matou 12 estudantes – 10 deles eram meninas – em sua antiga escola no Rio antes de atirar em si mesmo, disse Flúvio Cardinelle, um policial federal. 

Cardinelle liderou uma investigação em 2012 que resultou em condenações por racismo e compartilhamento de imagens de abuso infantil para dois dos principais membros do fórum, mas eles passaram apenas um ano na prisão.

Em dezembro, um desses homens foi condenado a 41 anos de prisão por crimes incluindo racismo, incitação a crimes, terrorismo e compartilhamento de conteúdo pedófilo. Ele foi filmado usando uma camiseta de Bolsonaro e fazendo saudações neonazistas. O segundo homem permanece no exterior.

Em março, o site de direitos humanos Ponte informou que dois ex-alunos que realizaram um massacre em uma escola perto de São Paulo no mês anterior pediram conselho aos usuários do fórum – alguns dos quais mais tarde celebraram o massacre.

Dois policiais da unidade de cibercrime da Polícia Federal no Brasil disseram que não tinham recursos para combater sistematicamente os crimes de ódio virtuais. Há uma “falta generalizada de eficiência nas investigações porque não há estrutura dedicada a isso”, disse um deles. “O resultado afeta a todos nós.”

Eles acrescentaram que os esquerdistas não são as únicas vítimas de tais ameaças. A deputada Carla Zambelli, do mesmo partido de Bolsonaro, o PSL, é uma dentre os vários políticos sob proteção policial, depois que ela e sua família receberam ameaças do mesmo fórum.

Zambelli disse acreditar que as ameaças foram motivadas pela misoginia e não pela política. “Nossa legislação sobre essas ameaças é muito fraca”, disse Zambelli.

Jean Wyllys está reconstruindo sua vida em Berlim e espera estudar para fazer doutorado. Ele disse que sente a responsabilidade de permanecer politicamente ativo.

“Isso é o que me faz continuar, é o que me impede de cair na tristeza”, disse ele. “É a chance de continuar lutando.”

Fonte: Brasil 247

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