EXPECTATIVAS RUINS ( Por Pedro Moacyr Pérez da Silveira)

A cada dia que passa, mais me convenço de que a missão de Jair, nele incutida pela força de uma grave enfermidade mental e de uma imperfeição moral de caráter, é realizar todos os atos que sabe provocativos para com isso comprazer-se, como quem sorri íntima e sinistramente com os níveis elevados de sua maldade pessoal. Ele sabe o que é errado e perpetra, precisamente, o que constata que gerará reações profundamente adversas em um público que se mostra opositor de seu governo. Isso lhe dá prazer, um prazer sórdido, adoecido e que se alimenta exclusivamente da perversidade.

Ele aprecia parecer mau e afrontar algumas conquistas que são, inclusive, civilizatórias. Não quer ser polêmico e nem ambíguo; pelo contrário, deseja que todos saibam muito bem o que ele é capaz de fazer. Excita-se com atos voltados a assustar pessoas, ameaçando-as, e denota um contentamento mórbido em falar com rudeza sobre tortura e torturadores. Uma mente assim é vingativa, revanchista, impiedosa e persecutória. Não pensem que as coisas não têm mais como piorar, pois elas têm. Ele pode até não conseguir, mas em seu íntimo ele parece cogitar, sim, banhar em sangue a sociedade brasileira, notadamente nos meios em que não é bem aceito, que a cada dia se alargam e se revelam na queda vertiginosa de sua aceitação.

Ele não tem responsabilidade alguma sobre nada, e não terá. Não tem empatia ou compaixão, e nem terá. Não tem arrependimentos, e nem terá. É, enfim, alguém que, mesmo eu não sendo um profissional da área, me animaria a qualificar como um sociopata típico, daqueles cujo nome consta dos índices dos livros, a indicar exemplos e casos paradigmáticos de pessoas com essas características mentais.
Impressiona-me que tenha tido grande votação, e me impressionam bem mais as pessoas que preservam, por cisma, teima, constrangimento ou convicção sua concordância com Jair. Mas o que me perturba acima de tudo é o entendimento que vou, pouco a pouco, estabelecendo de que ele será capaz de fazer rolar o sangue de qualquer pessoa, inclusive de seus amigos de ocasião e de apoiadores que dele desistam. Basta que se tornem opositores a ele ou que apenas divirjam pontualmente em uma ou outra questão.

Resta ver quem, dentre os militares que formam sua tropa de choque, permitiria que ele chegasse a tal ponto, ou o impediria. As milícias, de quem anda sempre perto, certamente desejam muito esse estado de coisas, pois esses comportamentos estão incorporados ao seu agir habitual. Se dependesse apenas dele, estou certo de que tudo isso tentaria fazer. Jair está aumentando a escalada de violência todos os dias com o seu beneplácito e estímulo pessoal. Ele está fazendo seu discurso endurecer de forma inacreditavelmente estúpida e grosseira, mas seu objetivo não é a simples rudeza – é o crime e a violência. Ele vive disso, ele gosta disso, ele é isso, um homem com atitudes criminosas e violentas.

Se ele ficar apenas ameaçando discursivamente, sofrerá a frustração de não levar à prática esse desiderato. Bastará que uns brucutus ao seu lado o incentivem (e há vários para tanto), que ele não demorará a promover a execução de muita gente. Já está fazendo isso de certa forma, ainda que Witzel, o governador assassino, seja até agora o que se mostrou mais covarde e equivocado de todos, superando, inclusive, o próprio Jair. Witzel saiu do campo da ameaça e já pratica o esporte de matar no Rio de Janeiro. Vê-se que seu hobby diabólico tem por destinatários essencialmente as pessoas pobres da periferia. Esse homem já sobrevoou, ele mesmo, dentro de um helicóptero da polícia, os morros cariocas, de onde efetuava disparos e mostrava-se portando fuzis e metralhadoras.

Temos governantes perigosíssimos. Nosso maior risco é o de haver, com pouca ou inexistente deserção nas tropas, uma concordância das Forças Armadas com o projeto autoritário e louco de Jair. Eu me sinto profundamente triste em dizer isso, mas verificando o reaparecimento da censura, o elogio à tortura, a militarização de cargos públicos nos ministérios, o gravíssimo contingenciamento das verbas da educação, o total desrespeito aos indígenas e suas causas, o ódio à comunidade LGBTq, o ódio a todas as minorias, o ódio às ONGs, a ausência de educação mínima para tratar outros chefes de estado, o enorme e proposital descaso com as questões ambientais, a inimizade com a cultura e a fala fascista em geral, não posso deixar, de minha parte, de analisar a verdade que me parece mais possível. Nesse momento, o que vejo como mais possível é uma radical implosão econômica do país e a implantação escancarada da violência fascista, que até então ainda não se autodefiniu publicamente como tal.

Não esqueçam do que Jair falou, ainda em campanha, no Estado do Acre, quando afirmou que “iria metralhar toda a petezada”. Não serão apenas os petistas que ele quererá matar, mas todo o esquerdista, genericamente conceituado por ele com o termo desgastado “comunista”. Travará uma luta real contra inimigos imaginários, e dá mostras de que pode sangrar suas vítimas. A maneira como parece funcionar a sua mente sempre compreenderá que um argumento contrário faz nascer um inimigo. Jair é um sádico.

Precisaria de um tratamento com um bom terapeuta por muitos anos, talvez pelo resto da vida, com baixa chance de remissão. Mas, para quem admite a si próprio como um “emissário de Deus”, é muito provável que ache que tudo que faz ou Deus autoriza, ou perdoa. Esse já é, aliás, um sintoma que evidencia insânia, claro.
Precisamos, urgentemente, nos preparar para um futuro que deverá ser cada vez mais difícil…

Fonte: Pedro Moacyr Pérez da Silveira é colunista do Site da RádioCom

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