Esqueça tudo o que você ouviu falar até agora sobre o restauro do Theatro Sete de Abril..(Por Dan Barbier)

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Esqueça tudo o que você ouviu falar até agora sobre o restauro do Theatro Sete de Abril. Esqueça os nove anos de sua interdição. Esqueça os dez anos da última peça. Esqueça inclusive que, a cada final de ano, o governo municipal tem organizado a festa para sua reabertura, mesmo que não tenha realizado nenhuma. Esqueça as promessas. Não dê caso para a morosidade, para o descaso, para a falta de transparência, para o desrespeito. Deixe de lado o prejuízo causado pela ausência do nosso Theatro municipal na vida da nossa cidade, uma geração inteira apartada da plateia e dos palcos. Foque na afirmação da prefeita Paula Mascarenhas: “até o fim do meu mandato eu quero inaugurar o Theatro Sete de Abril”. Então, tire suas próprias conclusões.

Elencado como prioridade número um do atual governo, o Theatro Sete de Abril completou, neste último 15 de março, nove anos do fechamento de suas portas para o público. Em dezembro, serão dez anos do último espetáculo: o Imagem e Sonho, do Grupo Tholl. Aniversários amargos. Difíceis de serem esquecidos. Juntos aos aniversários, o desdobramento do processo de restauro: a assinatura, em dezembro passado, do Termo de Compromisso firmado entre o IPHAN e o Município de Pelotas, prevendo a liberação de R$ 7,8 milhões para a execução da primeira etapa do projeto, cujo orçamento final é de aproximadamente R$ 15 milhões, e a homologação, neste 21 de março, da licitação para as obras que irão contemplar a parte civil do prédio. 

O fato, comemorado com bastante entusiasmo pelo Poder Público, não responde as perguntas talvez mais importantes a serem feitas: como o valor total da obra saltou de seis para quinze milhões e de onde virão os recursos finais do projeto? O que se sabe até agora é que, enquanto a Secretaria de Cultura de Pelotas espera pelo IPHAN, a prefeita aventa como solução a busca por “outras alternativas criativas” para além do PAC Cidades Históricas. Preste atenção na armadilha chamada solução criativa. Ela está, e muito, ligada a ideia de parceria público privada, a forma gourmet de privatização.

Acendido o sinal de alerta, podemos comemorar, mesmo que brevemente, parte do desfecho de anos de luta pelo restauro do Theatro Sete de Abril, simbolizado no Termo de Compromisso e na homologação da licitação. Brevemente, pois sabemos que as coisas não são tão simples quando o assunto é o Sete. Afinal, não existe, a curto prazo, uma luz no fim do túnel para o Theatro. Pelo menos não nas mãos dos atuais gestores, ou pelo menos não como um teatro público. 

Talvez tenhamos que abrir nossos ouvidos para aqueles que têm dito que o valor liberado pelo IPHAN é suficiente para o restauro integral do Theatro. Inclusive, defendendo que o primeiro projeto, o que foi aprovado pelo PAC, dá conta da obra completa (parte civil, caixa cênica, mobiliário, acessibilidade, etc.), e não apenas da parcial. Vamos frisar que são quase oito milhões de reais! Esses também têm dito que os cofres públicos não conseguirão manter no futuro o padrão monumental desenhado para o Sete. Assim, é justo nos perguntarmos se o salto astronômico no valor final do projeto e o estilo pretendido não são, no fim das contas, estratégias para entregar o Sete de Abril à iniciativa privada. Ou seja, um perfil de teatro para poucos e não para todos. 

Se por um lado o poder público, com seu estilo escamoteado de fazer política pública para cultura, tem agido para esse fim, por outro a Associação Amigos do Theatro Sete de Abril, a Amasete, tem, desde sua fundação, em 2012, estado atenta não apenas para o restauro do Sete, mas especialmente para a manutenção de seu perfil público e seu papel como teatro municipal de Pelotas. Dentre suas ações, entre cortejos culturais, atividades artísticas, manifestações públicas, visitas técnicas, pedidos de informação, coletivas de imprensa, audiências públicas, atos e mobilizações, entre outras, conseguiu, por intermédio do vereador Marcus Cunha, agendar uma audiência com o Secretário Nacional de Cultura Henrique Pires. Oportunidade para que, no horizonte do Theatro, seja colocada a criação de meios para a participação popular e o engajamento coletivo, amplo e aberto da população, dos artistas, dos ativistas cultuais e de todos agentes preocupados com a cultura. Afinal, hoje, mais do que restaurado, o Sete de Abril precisa é ser reavivado. 

Fonte: Dan Barbier
Me. Patrimônio Cultura

Uma resposta

  1. VALTER SOBREIRO JUNIOR

    Meu caro Dan: Primeiramente, dou-te os parabéns pela tua dedicação à causa da cultura, especialmente do patrimônio valioso que é o Sete de Abril, que também me é caro. Não vou me alongar aqui em coisas que venho repetindo: que o nosso Theatro, criado por iniciativa da comunidade, não existe mais há um bom tempo. A única possibilidade de permanecer vivo e atuante, de não perder sua alma e sua identidade, seria ter suas atividades transferidas para um local alternativo, temporário, até a conclusão do restauro, tal como é feito no resto do mundo. Mas não houve ninguém que abraçasse essa causa, por ignorância, teimosia ou má vontade, e o mal está feito: a morte do Sete está consumada. Lição que se tira disso: o poder público é inepto para gerir uma casa de espetáculos. Desde a sua restauração, na década de 1980, o destino do Theatro tem sido errático, a mercê das boas e péssimas decisões do governo municipal de plantão. É fácil verificar que a melhor época do Sete foi durante a existência da Fundação, que administrava a casa com invulgar competência. Mas ela foi extinta e o Theatro atirado às traças, dilapidado (o Prefeito da época, aliás, foi ao Sete uma única vez, para assistir a um show de dançarinas de uma conhecida casa noturna da cidade). Não vou me reportar aqui a outros episódios deprimentes (tantos!). Mas as políticas públicas não são, via de regra, voltadas para o incentivo da arte enquanto aprendizado, incentivo e consolidação do trabalho dos artistas. Via de regra, tal política é voltada para eventos, que, a meu ver, deviam ser culminância de um processo permanente de consolidação dos diversos grupos artísticos e formação de seus públicos. Como a cada governo têm surgidos novos riscos de instabilidade do fazer artístico, não digo por má-fé, mas por despreparo mesmo, eu sou totalmente a favor da PRIVATIZAÇÃO do teatro. Uma casa de espetáculos como o Sete de Abril não pode. nem deve ser exposta ao risco das ações de gestores ineptos. Nosso Theatro não é para amadores. Abraço!

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