Entre a fantasia de GOT e a realidade latino-americana (ou vice-versa) Por: Aleksander Aguilar Antunes*

Agora, como era de se esperar, porque é aborrecidamente comum em nossas subjetividades o aferramento ao maniqueísmo, há muito burburinho decepcionado e até magoado e irritado, com o final de Game of Thrones (GOT). Há, claro, também quem se orgulhe de nunca ter visto a série, de fazer da não audiência uma espécie de bandeira: “se está na moda, soy contra”… Ou fazer malabarismos retóricos para acusar a produção com críticas que vão do racismo à banalidade, passando pela restrição do acesso da maioria a canais por assinatura ou internet.

Válido e justo até certo ponto, contudo, a postura replica o que muitas vezes inadvertidamente se faz com o futebol, ou pelo menos com o seu evento ápice, a Copa do Mundo. Game of Thrones – que é um dos grandes produtos, talvez a Copa das séries de TV enquanto o tipo de entretenimento midiático que reina nas preferências do século XXI – é alvo fácil e evidente tanto de quem acha que está sendo ‘diferentão’ e ideologicamente em “resistência” ao não tê-la assistido (demonstrando assim suas limitações sobre cultura e politica) quanto dos que a seguiram e sofrem por seu final não ter sido épico para algum dos ‘lados’ em conflito na trama.

Aos desse segundo grupo é irremediável lembrar: como a própria serie diz, em diálogo entre seus personagens em algum momento ao longo de suas oito temporadas, “se você esperava um final feliz, você não tem estado prestando atenção”. (https://www.facebook.com/watch/?v=1767760719988164)

Ora, GOT nunca foi sobre histórias de herói/heroína, com previsível final feliz ou infeliz. O grande e admirável mérito dos roteiristas da série foi ter sido capaz de finalizar a saga com a mesma perspicaz lógica do que foi toda sua trajetória.

Quem acompanhou a novela (dito aqui em ambiguidade mesmo), e acha que o final deixou um dissabor, é porque lhe faltou a agudez de perceber do que a série realmente tratava: antimaniquísmo, uma perspectiva, séria e densa, sobre teorias políticas, isto é, a inevitabilidade da existência da “roda”, a qual Daeneyris, lá pela quinta temporada, falou que queria quebrar, em referência a tradicional estrutura de poder de Westeros e que, tampouco por coincidência, é a mesma, com diferenças apenas em formatos e instituições, das nossas realidades políticas ocidentais em geral e latino-americana em especifico. Essa roda foi acertadamente mencionada várias vezes no capítulo final, porque se tornou a metáfora que encerra todo o espírito temático do roteiro geral, o que faz da série um ótimo instrumento para o debate sociopolítico, especialmente em tempos atuais em que está em voga o obscurantismo da pós-verdade.

A mãe dos dragões, que se fez a rainha das cinzas, chega a achar-se – como também costuma passar deste lado da tela com o líder (quase sempre homem, efetivamente) que passa a dispor de mecanismos que lhe permitem obrigar e subjugar populações ao cumprimento de sua visão do mundo (a supremacia militar, que é o dragão, na série) –  a encarnação da predestinação desse rompimento (o que também é um ótimo gancho para debates sobre populismos, em especifico).

Do que a série trata de maneira tão estrondosamente cativante a partir da mescla de contos medievais clássicos britânicos, com dragões, exército de mortos-vivos, gigantes, e histórias reais da formação de Estados-nação europeus com erotismo, sangue, conflitos familiares e tantos outros elementos é, em termos de teoria do poder, a inevitabilidade de uma ordem sociopolítica, qual seja. A ‘roda’ é a ordem. Sempre haverá uma. E sempre será, porque humana, precária e contingente. Seja depois do fogo ou depois do gelo, ou da revolução, a vida organizada em comunidade e sociedade vai seguir e vai exigir um tipo de ordem.

Analogamente, eu entendo GOT, principalmente seu belo e inteligente final, como uma oportunidade de reflexão para nossos discursos nas esquerdas. Pra quem é da área de Ciências Sociais, a provocação não é nova, mas é sempre bom desenhar. Uma revolução não é um acontecimento épico, é processual, não tem fim. O que acontece depois que a roda é ‘quebrada’? A tirania acaba? Passamos a viver em comunidade de anjos? Sem autoridades? Sem instituições? O novo mundo, que Daenerys se achava talhada a realizar, é feito e baseado em quais valores, quais éticas, quais cosmovisões? Como seguiremos conduzindo a vida, já que ela não acaba mesmo quando a antiga estrutura supostamente acabou?

Ela achava, como muitos lideres aqui nessa dimensão fora de Westeros também acham, que encarnava e representava o ‘povo’ , e que o certo para a condução desse novo mundo é o que ela achava que era o certo. Como bem disse Luciana Coelho na Folha de São Paulo, a personagem não traiu sua natureza. “Do inicio ao fim ela se acreditava imbuída de uma missão divina/sobrenatural de fazer o bem, mesmo que alguns milhares morressem por isso”. (https://www1.folha.uol.com.br/…/game-of-thrones-triunfa-no-… )

Daeneyris era messiânica. Qualquer semelhança nessa lógica com a história recente da nossa politica ocidental não é mera coincidência, e na América Latina ainda é vigente hoje. Vide, para falar dos territórios fora do Brasil que melhor acompanho, o caso da Nicarágua atualmente, na América Central, entre sandinismos e orteguismos, que já dando um ‘spoiler’, será tema do próximo texto desta coluna.

Ideias efetivamente de disruptura geram estranhamento. Quando Sam de Tarly sugeriu que o direito de escolha do novo líder fosse estendido a todos e todas – algo tão obvio hoje que muitos lhe dão o nome de ‘democracia – o Conselho de autoridades, que buscava solucionar o impasse do “vácuo de poder” gargalhou, e nós do outro lado da tela também. É semelhante ao que ocorre na nossa politica contemporânea com as ideias que questionam o paradigma da representação, e a validade e a dignidade da ordem oferecida pelo Estado-nação enquanto suposto auge de estrutura de poder socioterritorial humano. A verdadeira disputa politica hoje é civilizacional, e isso implica numa variedade de compromissos militantes que podem por em xeque a crença na forma de escolha do líder e do próprio papel do líder.

GOT merece aplausos não apenas porque brilhantemente fez do universo fantástico uma porta de entrada para reflexões sociopolíticas urgentemente reais, como muitos já fizeram; não apenas porque desafiou finais óbvios, previsíveis e maniqueístas, como muitos já fizeram, senão porque sutil e conscientemente vai ao âmago da politica, a noção de ‘povo’, para articular e disputar seus sentidos. A série demonstra que ‘povo’ não é uma categoria pronta e acabada, esperando para ser aplicada e utilizada. ‘Povo’ é constantemente construído socialmente, e eternamente disputado politicamente. Por isso, sempre atentos com quem se diz “libertador”, fiel e justo “representante”.

A ‘roda’ pode até quebrar, mas não vai parar.

* De nacionalidades brasileira e salvadorenha, Aleksander Aguilar Antunes é jornalista, pesquisador, escritor e organizador político-cultural com pós-doutorado no programa Pueblos em Movimiento, da Associação Latino-americana de Sociologia (ALAS). É coordenador-geral da rede-plataforma centroamericanista de análises, pesquisas e mobilizações sociopolíticas e culturais sobre a América Central ‘O Istmo’ (www.oistmo.com) Facebook: https://www.facebook.com/geac.ufpe/

Fonte: Aleksander Aguilar Antunes – Colunista da RádioCom

Deixe uma resposta