Eleições 2014: O que representa politicamente e quais as perspectivas a partir da vitória de Sartori no RS

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Fonte : Jornalismo B (Alexandre Haubrich)

Foto : Agência Brasil

Os eleitores do Rio Grande do Sul elegeram neste domingo o candidato do PMDB, José Ivo Sartori, como o novo governador do estado. Ele venceu o atual governador, Tarso Genro (PT), com 61,22% dos votos contra 38,78% do petista. O resultado é a parte final de uma campanha eleitoral peemedebista que demonstrou que um marketing bem feito pode vencer a política, que um produto para consumo pode vencer um governador, e que é preciso transformar a política pela base, ou não haverá transformação sustentável.

A campanha de Sartori foi baseada na despolitização. Há todo um processo de esvaziamento da política pela própria política institucional e pelos meios de comunicação. Com a prática política em sua essência enfraquecida, emergem como centros de poder outras instituições sociais, como a mídia e a publicidade. Assim se elegeu senador Lasier Martins (PDT), e assim se elege governador José Ivo Sartori, como um produto de marketing que conseguiu ser vendido aos montes a consumidores em tal medida carentes que aceitam qualquer produto, desde que possam colocá-lo na prateleira com a etiqueta “mudança”. O produto vendido aos gaúchos foi um senhor simpático, simples, humilde, próximo da família, tranquilo, conciliador.

Tarso era o candidato da política, Sartori o amigo da família. O Rio Grande do Sul escolheu o que lhe parecia mais próximo. Tarso e o PT, preparados para enfrentar Ana Amélia Lemos (PP) e surpreendido pela escalada de Sartori, teve dificuldades para enfrenta-lo. A análise que o governador fez ao fim do primeiro turno, de que o candidato do PMDB não foi questionado no primeiro turno, fazia todo o sentido, mas a forma de questionamento demorou para ser encontrada. Nos primeiros movimentos, Tarso soou agressivo. Em seguida, passou a desculpar-se a cada fala, esclarecendo que não estava agredindo, mas questionando. Soou inseguro, hesitante. Por fim, o PT encontrou o caminho, apresentando evidências da inconsistência do discurso de Sartori sem nomeá-la com tanta clareza, deixando ao eleitor a interpretação. Ao mesmo tempo, voltou a apresentar o que foi feito em seu governo – como havia feito no primeiro turno – confrontando com os governos do PMDB. O discurso de Sartori foi demonstrando fraqueza, mas não o suficiente para permitir uma virada eleitoral.

A queda importante, em relação ao primeiro turno, nos votos brancos e nulos, mostra que não foi a esquerda quem fez com que Tarso perdesse. Foi, sim, o eleitor médio, convencido pelo antipetismo – os mais reacionários – e pela simpatia de Sartori. Para romper com esse modelo em que se vota com o coração desconectado da razão, é preciso fortalecer a Política. Se isso não aconteceu, a responsabilidade não é de quem votou em Sartori iludido pela publicidade e pelo setor dominante da mídia. A responsabilidade é de quem esteve no governo e não conseguiu mudar essa lógica, e é dos partidos de esquerda e movimentos populares que não vêm conseguindo reverter esse afastamento entre o povo e a política.

Contra Tarso, pesaram as duas pontas do espectro político, com costuma acontecer com governos de centro. À direita, o antipetismo emocional, o conservadorismo. À esquerda, o desgaste na questão do piso do magistério e a truculência da Brigada Militar nos protestos de Junho de 2013 e em sua sequência. Ao centro, ainda houve uma debandada, com PDT e PSB abandonando o governo e dividindo-se na oposição, com o PSB participando da coligação encabeçada por Sartori e com o PDT liberando os filiados no segundo turno (depois de lançar candidatura própria no primeiro), mas com uma clara aproximação da direção com o PMDB. Depois de 5 de outubro ainda se juntaram a Sartori os partidos que estavam com Ana Amélia Lemos, a começar pelo PP e seguindo com PSDB, SD e PRB. O DEM também manifestou apoio ao peemedebista.

Além do problema de esvaziamento da política, há um outro que trará dificuldades para os gaúchos nos próximos quatro anos e pode criar uma herança ruim, tal qual aconteceu em outros momentos: o produto comprado por mais de 60% do eleitorado é parte de uma venda casada cujos outros produtos ficam mais ou menos escondidos durante a campanha, mas aparecem logo depois. Com Sartori, volta ao governo o PMDB que governou com Antonio Britto e depois com Germano Rigotto, em dois momentos de profundo enfraquecimento do Estado e, portanto, do patrimônio do povo gaúcho. Com Sartori, chegam ao poder figuras como Alceu Moreira e Valter Nagelstein, além de outros semelhantes dos demais partidos que irão compor o governo. O vice-governador será o empresário José Paulo Cairoli (PSD), próximo ao agronegócio e contrário à existência do salário mínimo regional, que já disse em entrevista que “lá dentro da minha fazenda não tem lei trabalhista”. Os avanços do governo Tarso ficam ameaçados, como a expansão da Cultura no governo, a revitalização da Fundação Piratini (TVE e FM Cultura), e Empresa Gaúcha de Rodovias, a valorização do funcionalismo, a ampliação do governo para a internet (Gabinete Digital, por exemplo), e um início de reorientação das verbas publicitárias e de discussão sobre um Conselho de Comunicação (que acabou esquecida ao longo do governo). Avança a iniciativa privada com o foco que o novo governo deve dar às Parcerias Público-Privadas, inclusive em áreas estratégicas.

Ao PT, cabe reavaliar e definir que caminho quer seguir como oposição e depois, em uma possível volta ao Piratini, como governo. Irá novamente procurar acomodar interesses populares e das elites, ou irá lutar pelo aprofundamento de mudanças, por transformações estruturais no estado. Na disputa pelo Senado, perdeu com Olívio Dutra, seu grande patrimônio ideológico e ético. Na disputa pela reeleição no Piratini, perdeu com Tarso. Que outros nomes surgem como lideranças potenciais? Que peso teve o desastre da eleição de dois anos atrás, na campanha prefeitura de Porto Alegre? Como removimentar a base? Como dialogar com os novos movimentos?

A vitória de Sartori também muda a dinâmica política da próxima eleição para a Prefeitura de Porto Alegre. Seu coordenador de campanha, Sebastião Mello (PMDB), é cotado há tempos como possível candidato. Manuela D’Ávila (PCdoB) aparece como favorita para ser apoiada pelo PT, e Luciana Genro (PSOL) volta a poder concorrer, e tende a ser a candidata do partido, criando uma alternativa de esquerda que ganhou destaque na eleição presidencial deste ano.

O papel da oposição de esquerda também se redimensiona, tendo agora também o PT como partícipe desse papel. Nos próximos quatro anos, haverá uma reorganização da política no estado, e o protagonismo popular precisará, ainda mais do que nos quatro últimos anos, estar nas ruas, já que no Palácio Piratini dificilmente conseguirá pisar.

Sartori

 

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