Eduardo Campos, política e desdobramentos

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Fonte: Jornalismo B (Alexandre Haubrich)

Já que o ser humano é um ser político, toda ação é essencialmente política, estejamos conscientes disso ou não. Melhor, portanto, estarmos, já que assim podemos refletir melhor antes e depois de cada uma delas, justamente por compreendermos e aceitarmos um dos aspectos de sua natureza. Ao mesmo tempo, toda ação política – e, em última instância, toda ação, se considerarmos o parágrafo anterior – deve, para ser o mais precisa possível, ser o mais racional possível, sem eximir-se de outras raízes humanas, como o instinto e a emoção. É com isso em vista, e com o acréscimo das razões óbvias, que torna-se impossível refletirmos sobre a morte do candidato à presidência do Brasil, Eduardo Campos (PSB), de forma esvaziada de conteúdo político. Devemos fazê-lo, então, de forma conscientemente política.

Há que separar-se as razões e reações coletivas das individuais. A morte de Eduardo Campos, como todas as mortes, afeta em dois níveis (é claro, com uma longa linha intermediária que os liga): o individual e o coletivo. No nível individual, afeta a família, os amigos e companheiros políticos de Eduardo Campos de forma extremamente emotiva, avassaladora e cruel, como qualquer morte afeta qualquer familiar, amigo ou companheiro do morto – acrescida do drama de Campos ser jovem e de sua morte ter sido surpreendente. No nível coletivo, porém, o caso é diferente, e não há porque não avançarmos imediatamente para uma análise do efeito político/eleitoral do acidente desta quarta-feira. Isso porque, para alguém que não o conheceu pessoalmente, teoricamente a morte de Eduardo Campos é tão triste quanto a morte de qualquer dos outros seis que estavam a bordo, é tão triste quanto qualquer morte acidental de que se tenha notícia.

Quer dizer, é triste, é lamentável, há que se apurar as causas, mas o motivo que leva a um grau de comoção coletiva não é outro senão a exposição de Eduardo Campos na mídia e o sensacionalismo estimulado pelos meios de comunicação, que tornam o ex-governador pernambucano alguém de quem muitas pessoas se imaginam relativamente próximas. Na realidade, não são. Por que, se não pela mídia, uma grande parcela da população se impressiona mais com uma morte como a de Eduardo Campos do que com as mortes dos operários nos estádios construídos para a Copa? A única motivação é a sensação, não a razão. E a sensação é construída pela narrativa sobre o acontecimento. Não nos deixarmos levar por ela é difícil, mas necessário se quisermos interpretar a realidade com o máximo possível de correção.

Por tudo isso, como disse antes, não há motivo para que se deixe de refletir sobre os desdobramentos políticos a partir de agora. É disso, afinal, que se trata para a grande maioria da população. Não há qualquer desrespeito em afirmar que: afora o acidente aéreo e a comoção que casos assim normalmente criam, a morte de Eduardo Campos só é importante para a coletividade em sua relação com seus desdobramentos no campo político. Fora disso, é tão relevante quanto as outras seis, de quem pouco ou nada está se falando. Há que se respeitar a dor da família e dos amigos, há que se refletir sobre as causas do que houve, mas a direção fundamental, por tratar-se de um candidato à presidência, é outra.

A análise e a ação política não podem prescindir da emoção. Mas elas devem ser um gatilho, um fator de mobilização, e devem ser substituídas pela racionalização, sob pena de aderirmos a comoções construídas “de fora” e, anestesiados, esquecermos de refletir sobre os acontecimentos com os quais nos deparamos. É claro que para parentes, amigos e companheiros de Campos o processo é outro, mas, para quem ele só existiu como personalidade política, a impessoalidade só é atropelada se nos deixamos levar pelo senso comum – o que, em alguma medida, sempre acontece, mas deve ser controlado.

Portanto, estimulado pelo gatilho da sensação e mobilizado pela comoção coletiva, paro e raciocino sobre o peso político da morte do candidato à presidência.

Eduardo Campos foi um político social-democrata que saiu do governo de Pernambuco consagrado, reeleito com mais de 80% dos votos, para disputar a presidência. Não tinha realmente possibilidades importantes de se eleger agora, mas, novo, poderia, sim, alçar voos altos nas próximas eleições. Seus resultados em Pernambuco mostravam isso: foi um campeão de votos.

O mais provável parece ser que Marina Silva seja a nova candidata. Porém, como bem  advertiu o jornalista Renato Rovai, há vários fatores que podem se colocar no meio desse caminho que poderia parecer natural. Se Marina for candidata, é garantia de segundo turno. Talvez até com ela nele, já que em uma situação normal ela já seria uma candidata forte, e nessas circunstâncias pode se tornar ainda mais consistente eleitoralmente. Há ainda a possibilidade de lançamento de outros nomes por conta de uma possível desistência de Marina ou de uma possível resistência a Marina. De qualquer forma, a situação dela e do partido é complicada. A ascensão de outro candidato do PSB pode soar como oportunismo, mesmo que não seja, e, soando assim ou não, seria praticamente inviável eleitoralmente.

Fora de PSB-Marina e dos números, uma influência eleitoral possível é a criação de um certo constrangimento para debates mais violentos, o que amenizaria o tom entre os candidatos. Dessa forma, ainda que haja um momento imediato de mais atenção à campanha, essa atenção poderia até mesmo esmorecer e dar lugar a um certo nível de apatia, o que provavelmente não acontecerá se prevalecer a linha adotada por muitos militantes nas redes sociais durante a tarde/noite de quarta-feira, de extrema agressividade e de, infelizmente tão comum no Brasil, pouco apego às vidas humanas.

As notas divulgas pelos partidos e a decisão de suspensão de agendas – tanto nacionalmente quanto em muitos estados – fazem todo o sentido e me parecem acertadas. É preciso que os que estão diretamente envolvidos com os desdobramentos do acidente deem um tempo para respirar, demonstrem fair play e depois retomem a disputa. A eleição não é o momento mais importante da política, a política se faz nas ruas todos os dias, mas a disputa eleitoral um processo que cria algumas das bases sobre as quais toda a política circula na sequência, e por isso as reflexões a esse respeito devem seguir, independente dos atores nela envolvidos e de questões individuais, sem que isso apague o respeito e à solidariedade aos familiares de todos os sete mortos na queda do avião em Santos e sem que desemboque em oportunismo eleitoral.

Por ter sido quem foi, a morte de Eduardo Campos é maior do que ele mesmo, traz desdobramentos para além da tragédia pessoal, e justamente por isso seu tratamento deve ser, desde já, maior: político.

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