Crônica da trabalhadora (Por Maiara Marinho)

Ana nasceu na década do impeachment de Collor de Melo, no tempo da abertura mais radical ao neoliberalismo brasileiro desde o fim da ditadura civil-militar de 64. Cresceu sob diversas contradições. De família pobre, desde cedo vivia a realidade da classe que vive do trabalho. A avó Isabel trabalhava como costureira, o avô Carlos como taxista e a mãe Fabiana como camareira e faxineira. Ela e os irmãos aprenderam a cuidar de si e uns dos outros desde que os olhos haviam sido abertos. Ela viu desde cedo o cansaço cotidiano e não entendia para quê servia aquele trabalho duro que nunca mudava a vida de sua família. Seu avô e sua mãe saíam sempre cedo, quando o sol ainda não havia nascido, para trabalhar. E a avó cuidava dela e dos irmãos. Todos os dias, durante um mês inteiro. Estavam sempre cansados e sem conseguir dar conta das contas a pagar. Aos 9 anos já prometia a quem quisesse ou não acreditar que construiria uma vida cheia de sonhos a serem realizados em busca de um sentido para existir e, da mesma maneira, para trabalhar.

Deu duro para crescer com conhecimento: pedia livros emprestados para a vizinhança, vasculhava a biblioteca da escola e quando a internet chegou as dúvidas e curiosidades faziam dela uma internauta da meia-noite às seis. Aprendeu tudo o que podia naquele espaço limitado de conhecimento e então foi ao mundo. A universidade lhe proporcionou um espaço de lutas que lhe deu muito sentido. Tornou-se arrogante e autossuficiente. Corajosa e batalhadora. Ela nunca soube da existência dos comunistas até os 21 anos, muito menos se imaginaria uma. Nos livros, sabia que as crises do capitalismo eram cíclicas, sabia que o mundo do trabalho se ressignificaria sempre que necessário ao capital. Mas como essa jovem poderia imaginar tão real a dificuldade do que ainda não havia vivido?

Então a crise chegou. As oportunidades de trabalho que estava buscando viver foram se tornando cada vez mais restritas nessa nova era trabalhista, e eram ainda menores por consequência do desemprego. Os seus sonhos tão possíveis foram se perdendo por um caminho cheio de incertezas. A precarização do trabalho e o desemprego lhe retiraram parte do sentido que havia construído para si mesma durante uma pequena, mas importante parte de sua vida. Já tinha experiência como babá, secretária, faxineira, cozinheira e tantas outras profissões “de mulheres”. Sabia que o problema não estava no trabalho em si, mas em como a sociedade compreende e valoriza determinados tipos de trabalho, geralmente com baixos salários e sem os devidos direitos que a classe trabalhadora já não tem mais. Iniciou mais

uma vez outra experiência laboral tendo como centralidade a necessidade de pagar o aluguel e comer. E sentiu na pele o conflito entre o feminismo não classista e o capital: a única maneira de todas as mulheres se emanciparem seria destruindo, além do patriarcado, uma economia baseada em estratificação social.

Ana estava trabalhando como garçonete. Conheceu outras mulheres em situações semelhantes, mas também em situações completamente diferentes. Descobriu pessoas que se reconhecem neste trabalho e entendeu os motivos, geralmente relacionados ao sentimento de fazer bem ao outro. Mas isso jamais foi motivo para que essas mesmas trabalhadoras estivessem de acordo com a condição de trabalho que frequentemente as prejudicava.

No dia 1° de maio, também conhecido como dia do trabalhador, Ana foi até a copa para colocar gelo em um recipiente para gelar um vinho. Então deparou-se com uma de suas colegas chorando e, de pronto, lhe perguntou o que havia acontecido.

– Os clientes estão reclamando do atendimento e da demora da comida. Pra amenizar a situação, eles estão sendo bonificados, não estão pagando os 10%. Nós estamos trabalhando de graça! – soluçava indignada Cláudia, colega de Ana, uma mulher pequenininha cheia de energia.

Um dia antes, pelo menos 3 garçonetes haviam sido demitidas por motivo nenhum. O quadro de trabalhadoras não era suficiente para dar conta de todo o trabalho. Então, na hora do intervalo, Ana perguntou à Luísa, amiga de uma das meninas que havia sido demitida, se ela estava bem e se faria alguma coisa já que foi demitida sem justa causa. Ângela, outra garçonete, enquanto polia os talheres, imediatamente retrucou:

– Mas ela vai fazer o quê? É a palavra dela contra a do restaurante. Só se alguém for testemunhar contra o restaurante. Mas e se der errado? Quando conseguiremos outro emprego novamente? Não dá pra ficar suja na justiça trabalhista assim.

E enquanto polia os talheres, reclamava que já havia passado do seu horário, mas que só seria liberada depois que terminasse o polimento. Então pediu ajuda à Ana, que também havia cumprido seu horário e detestava quando tinha que ficar uma hora a mais. Sabia que não receberia por essa hora e que, portanto, o único beneficiário seria o patrão. Mas, então o

que faria? Deixaria sua colega sozinha ou aceleraria o trabalho a ajudando? Era foda fazer essa escolha. Sentou o corpo cansado na cadeira e nesse dia foi mais tarde pra casa.

Dia após dia Ana escutava e via coisas que só prejudicava ela e suas colegas. Todo dia ia embora pensando no que podia fazer para mudar aquela situação. Sempre antes de iniciar o turno de trabalho, uma reunião com todas as garçonetes era feita. Geralmente as mesmas coisas eram ditas:

– Sorriam sempre, procurem não ir ao banheiro ou beber água durante o plantão, deixem a aparência de vocês sempre agradável porque isso pode interferir em um atendimento – entre outras bobagens de revirar os olhos, no mínimo.

Pensou que esse poderia ser o momento exato para responder às críticas que ela e as outras garçonetes sofriam, mas lembrou que toda vez que alguém fazia isso, gerava uma gritaria no restaurante, onde ambas as partes tentavam, à finco, defender seus argumentos. E Ana sabia para quem a corda pendia mais. Achou que não seria construtivo.

– E se colocasse panfletos nos armários? – pensou.

Não. Todos saberiam que teria sido ela.

Então, seguiu com seu trabalho. Alguns dias eram mais tranquilos, outros dias eram só estresse. A grana curta não dava conta do aluguel, da comida, da luz, da internet… nem quando estava cansada podia relaxar com uma cerveja bem gelada. Foi levando, como leva toda a classe trabalhadora: mediando entre o suportável e o inevitável. Um dia, como qualquer outro, saiu de casa sem vontade de ir àquele trabalho. Vestiu uma roupa confortável, colocou o uniforme na mochila, conferiu se não havia deixado nada para trás (que ainda desse tempo de perceber e mudar) e foi pegar o ônibus. No caminho, tudo muito semelhante. Pessoas escutando música, conversando, utilizando o celular, alguém encostado na janela disfarçando o choro. Ultimamente sempre tinha alguém chorando no ônibus.

Ana sempre descia uma quadra antes do trabalho. Gostava de sentir que ainda faltava mais um pouco pra chegar lá. Encontrou no caminho uma trabalhadora da parte da cozinha, sentada à calçada, olhos cabisbaixos, corpo cansado. Se cumprimentaram. Ela seguiu na calçada e Ana seguiu seu caminho. Chegou no restaurante. Enquanto caminhava em direção

ao vestiário para se trocar, via toda gente a olhando, uma por uma, com um olhar de quem quer dizer: – saia enquanto é tempo. Como se estivessem aprisionados. De certa forma, Ana se sentia aprisionada, mas procurava se contentar com o argumento de que essa condição de trabalho “é temporária”. Deu uma única risada indignada e pensou: – como se logo ali o mundo do trabalho fosse mudar completamente. Ela sabia que era mais fácil, em condições precárias, se contentar com alguma justificativa que caiba em sua realidade do que lutar e arcar com o imprevisível. Ela também sabia que não podia exigir de suas colegas, que eram mães e estrangeiras, a mesma predisposição que por vezes Ana tinha. Por outro lado, estava certa de que apenas a contestação mudaria alguma coisa.

Passou a passos lentos pela sala da administração. A sua vontade era humilhar aqueles patrões de merda. Seguiu caminho, como de costume. Vestiu o uniforme e foi trabalhar. Da janela podia ver a Ferrari do patrão, que tinha hora para chegar e sair, vermelha e reluzente. Ana só conseguia lembrar que ao final do turno não receberia nem R$ 100,00 pelo seu trabalho. E que do outro lado do país tinha prometido voltar com sonhos realizados. Como se fosse possível sonhar na democracia determinada pelas necessidades do capital. Foi então que Ana se deu conta de que podia não ter as melhores condições de trabalho, mas tinha consciência de classe. Paradoxalmente, as outras garçonetes percebiam as condições precárias de trabalho, no entanto, não percebiam que a riqueza do patrão só poderia existir mediante um trabalho precário de dezenas de outras trabalhadoras. Ou como se o trabalho exigisse um patrão para que pudesse existir.

Ao final do turno pegou seus R$ 70,00 e antes de ir embora viu de longe uma das trabalhadoras indignada. Foi então ver o que havia acontecido.

– Pedi um vale de R$10,00 pra vir trabalhar na quarta, pois amanhã estou de folga, e me negaram. Disseram que não tem no caixa. Como vou vir trabalhar?

Ana precisava guardar aquele dinheiro para o aluguel. Mais uma vez não sabia o que fazer. Enquanto pensava, Patrícia, da cozinha, falava sobre ter que cuidar de um filho com o pouco que recebia e sem a ajuda de ninguém, sobre fazer o trabalho de três pessoas e não receber nada a mais por isso, em síntese, sobre o cotidiano das mães solos. Patrícia então pediu demissão. Se libertou. Mas Ana continuava aprisionada junto com o restante dascolaboradoras.​

No dia seguinte, pegou o ônibus, desceu do ônibus, caminhou uma quadra, foi até o vestiário, colocou o uniforme e iniciou seu turno. Tudo seguia igual: as atendentes e as cozinheiras continuavam cansadas, as coordenadoras das equipes continuavam estressadas e preocupadas e os patrões seguiam ricos. Enquanto servia o vinho na taça polida, observava a Ferrari lá fora.

– Parece ser tão confortável – pensou.

Fez questão de fazer seu intervalo. Pediu para que pelo menos um dia fosse cumprido. Estava cansada de trabalhar quase 10 horas seguidas sem parar, sem sequer tomar um copo d’água. Então saiu por uma hora e logo retornou. Trocou rápido de roupa e foi mandada para o polimento. Enquanto repetia movimentos polindo um prato após o outro, escutou um barulho completamente assustador, que se encontrou com o dos pratos ao chão. Por um instante ficou imóvel.

– O que pode ter sido isso? – perguntavam-se todos.
– Foi uma explosão! – comentou Cláudia.
– Eu vi, foi um carro que explodiu – começaram os rumores. – Meu Deus! Será que alguém se machucou?

Durante pelo menos 30 minutos, a curiosidade e a preocupação deixaram a todos silenciados. Mas tirando fotos e compartilhando especulações, é claro. Até que foi confirmado: havia uma pessoa no carro.

– Só pode ser o patrão – retrucou alguém.

Após a confirmação, todos ficaram muito sensibilizados, sem saber o que fazer, como proceder e, principalmente, sobre como seria dali para frente.

– E agora como vamos trabalhar? – perguntou Ângela.

Ninguém sabia responder. Para Ana, era estranho como ninguém concebia o trabalho sem um patrão para ordenar. Todas aquelas mulheres sabiam exatamente o que precisava ser feito dia após dia no trabalho. Mesmo assim, acreditavam que era preciso alguém para lhe dizer o que só elas sabiam fazer melhor.

– Se não tem patrão, não tem trabalho? – era a dúvida que pairava.

Durante muito tempo Ana pensou que estratégias mais radicais e a curto prazo não fossem tão pedagógicas quanto às estratégias a longo prazo, onde seria possível organizar a categoria e elaborar as condições necessárias para a tomada de consciência de classe. Contudo, percebeu que aquela pergunta aparentemente sem resposta também tinha implicitamente uma condição pedagógica.

Aliás, o que poderia ser mais revolucionário do que a indagação inquietante de como ser trabalhadora sem patrão?

Fonte: Maiara Marinho ( Colunista RádioCom )

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