CRIME E CASTIGO PÓS-MODERNOS( Por Pedro Moacyr Peréz )

Essas revelações sobre a Lava Jato não me desiludem porque nunca me iludi em relação ao Poder Judiciário e ao Ministério Público. O que sinto, sinceramente, é muita pena dos bons e honestos magistrados e promotores que entregaram suas vidas ao ofício de tentarem realizar justiça nos parâmetros inegociáveis do Estado Democrático de Direito. O malefício de bandidos como Moro, Dallagnol e alguns colegas seus é incalculável a essas profissões. Eles têm que ser punidos (na forma da lei, evidentemente) pelos crimes que cometeram.

Uma operação que está finalmente se acercando de muita gente até então intocável sofre um abalo monumental de credibilidade, pois já se põe sob suspeita todos os seus atos, na medida em que não se consegue mais identificar quais foram corretamente conduzidos e quais se valeram de violência institucional. Eu penso em todos os agentes públicos, de policiais a juízes, passando por membros do MPF, que trabalharam com dignidade e correção moral, e que veem agora esses canalhas porem tudo por água abaixo.

O chefe oficioso da força-tarefa era Moro, e Dallagnol seu subordinado. As combinações que realizavam, montando organogramas e calendários diabólicos e inaceitáveis à luz do direito e da ética, para punir quem queriam e beneficiar protegidos seus, fatalmente diminuirá a todos. O caminho para a anulação de processos, de revisão de delações e de incontáveis atos realizados no âmbito da Lava Jato está aberto. Quando você não confia nos líderes, passa a desconfiar dos subordinados, e, no caso, com o agravante de não sabermos claramente quem é quem e o que é o quê! Enquanto isso, em face da maneira como essa engrenagem funcionou, gente foi presa, gente está presa, pessoas certamente foram pressionadas para mentir, documentos foram apressadamente juntados a autos a pedido do próprio julgador, ou não o foram pela mesma razão, perseguições escondidas na lei foram perpetradas e muitas, mas muitas mesmo, injustiças e ilegalidades foram levadas a efeito.

Moro tem que ser exonerado ou pedir demissão, e Dallagnol precisa ser afastado de suas funções imediatamente. Mas Jair e Raquel não dão mostras mínimas de que tomarão as iniciativas que lhes cabem, e o Ministro da Justiça continuará a se fazer de sonso. Como disse, não me desiludo porque nunca me iludi com essa turma, mas tenho pena da gente boa que até então atuou com denodo e retidão. Particularmente, como professor de um curso jurídico, vejo nos últimos tempos o Direito ser desmerecido como nunca.

Um pouco disso tudo corresponde a circunstâncias morais pós-modernas, e outro pouco advém da compreensão equívoca de que a modernidade ainda dita as regras. Seja como for, todas as épocas possuem seus bandidos, e eles agem em acordo com os meios e com as finalidades de cada tempo. Esses, os da força-tarefa, canalhas dos grandes, se puseram atrás da fama através da punição dos ricos contemporâneos e dos políticos graúdos. Mas, como a finalidade era evidenciar a si próprios e verem saudados seus feitos, esqueceram também eles a lei.

Foram descobertos no Telegram, um aplicativo de comunicação instantânea, por gente que detém as habilidades do manuseio da virtualidade com maestria, e estão agora nas mãos de um site. A pós-modernidade facilita tudo, até o tipo de crime e de castigo, mas os criminosos são atemporais. É só dar uma chance que já apontam os focinhos. Às vezes, esses focinhos pertencem a moços de bons ternos e sapatos reluzentes e a moças perfumadas e maquiadas. A gente de bem, enfim…

Fonte: Pedro Moacyr Pérez ( Colunista do site da RádioCom)

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