Crianças são principais vítimas de explosivos deixados pelos EUA no Afeganistão

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Após longos 13 anos de guerra no Afeganistão, o Exército dos EUA e aliados estão voltando para casa. A retirada total das tropas norte-americanas, como reiterou Barack Obama há algumas semanas, continua entre os planos de Washington. No entanto, os marines deixam para trás um legado perigoso: 1.300 km² repletos de explosivos não detonados. Além de minas terrestres, foguetes e morteiros também podem ser encontrados em toda a região. As principais vítimas desses explosivos são as crianças afegãs.

Ao desocuparem as dezenas de bases e estandes de tiros, os militares deixam para trás os explosivos não detonados. Dezenas de crianças já foram mortas ou feridas ao entrar em contato com esses explosivos, já que, na maioria das vezes, as regiões perigosas são mal demarcadas. Desde 2012, uma agência da ONU registrou 70 mortes desse tipo no território desocupado — entre os mortos, 88% eram crianças.

Como atesta o próprio oficial encarregado do assunto, o “legado explosivo” da Guerra do Afeganistão não foi uma das prioridades dos militares. “Infelizmente, o pensamento foi: estamos em guerra e não temos tempo para isso”, diz Michael Fuller, chefe do Centro de Ação de Minas do Exército dos EUA. Até o momento, o Exército norte-americano retirou as munições de apenas 3% do território ocupado.

De acordo com o Washington Post, limpar o restante da região poderia levar de dois a cinco anos — as autoridades norte-americanas falam em alguns meses, apenas. Entretanto, o financiamento para a limpeza, que custaria cerca de US$ 250 milhões, ainda não foi aprovado.

Metade do território ocupado pelos EUA, cerca de 650 km², será transferido para as Forças Armadas afegãs; os outros 16%, aproximadamente 208 km², pertencem às forças de coalizão internacionais, que auxiliarão na limpeza. Enquanto isso, o número de vítimas desses explosivos vem aumentando.

Em entrevista para o Post, Sayed Sadeq, afegão pai de uma das vítimas das minas relatou o que aconteceu com seu filho e um amigo do menino no mês passado. As crianças andavam sobre uma das áreas abandonadas por tropas norte-americanas e polonesas na província de Ghazni, coletando sucata para vender, quando um dos meninos pisou em uma granada de 40mm, feita para matar qualquer pessoa dentro de cinco metros. “O lado esquerdo de seu corpo foi rasgado. Eu podia ver seu coração. Suas pernas estavam faltando”, relatou o pai. Os dois meninos morreram.

Mesmo que o Congresso norte-americano aprove os custos da limpeza, a remoção das munições será extremamente complicada. Mais de 880 bases dos EUA foram fechadas no Afeganistão. Grande parte das tropas foram retiradas antes de ser criado um plano para remoção das minas. Muitas áreas que estão repletas de explosivos foram fechadas desde então, e atualmente há poucas pessoas especializadas para fazer a limpeza. Caso as operações de remoção fossem iniciadas, não haveria pessoal suficiente para conduzi-las. Nos últimos meses, uma equipe dos EUA foi direcionada para determinar quais áreas estavam causando maior número de vítimas.

Muitas regiões do Afeganistão foram utilizadas não só para a prática de tiro, com granadas e morteiros, mas também para outros exercícios, como o uso de helicópteros que disparam foguetes. Além disso, os locais também foram utilizados para detonar materiais explosivos capturados.

No ano passado, agentes responsáveis por retirar os explosivos removeram 32 mil peças de artilharia, em uma área de 60 km². Algumas das munições, como as granadas de 40 mm, que mataram Mohammad e Sayed, são do tamanho de ovos. Elas são disparadas por lançadores portáteis e não detonam com o impacto na terra ou na areia, assim, podem permanecer sem serem detonadas por anos.

A ONU afirma que é necessário que sejam feitos mais esforços para limpar essas regiões. As minas estão localizadas em áreas onde as pessoas vivem, trabalham e se sustentam. Em uma das instalações militares dos EUA perto de Cabul, muitas crianças podem ser vistas todos os dias andando sobre um campo minado, na base de uma montanha. Algumas famílias nômades chegam a montar tendas nessas áreas. “Não há nenhum outro lugar para nós trazermos nossas ovelhas”, disse Mohammad Raz Khan de 54 anos ao Post, observando a única área de pastagem ao redor.

Para amenizar o problema, os militares norte-americanos colocaram barricadas em torno de algumas das áreas contaminadas. Mas autoridades dos EUA se recusam a construir cercas, que segundo eles seria proibitivamente caro e provavelmente ineficaz.

Tratados internacionais

O Afeganistão não é signatário da Convenção das Nações Unidas sobre Uso de Armas Convencionais, por isso autoridades norte-americanas dizem que não são legalmente obrigados a limpar qualquer uma das áreas com explosivos não detonados.

Em 2002, o governo Afegão aderiu ao Tratado de Proibição de Minas Antipessoal (explosivos que não distinguem entre soldados e civis), o Plano Ottawa. Assim, é legalmente obrigado a limpar todas as áreas conhecidas contaminadas por minas. 38 países não fazem parte do tratado, entre eles os EUA.

Em 2012, com o apoio de entidades ligadas às Nações Unidas, o governo afegão pediu por mais 10 anos para cumprir o tratado. Os dois primeiros anos do plano cobrem o período que vai de abril de 2013 à março de 2015 (1392 à 1393, nos anos afegão). O país precisa de recursos para concluir 97 projetos, o que custará US$ 70,9 milhões para o primeiro ano, e US$ 64 milhões para o segundo.

Fonte: Opera MundiAfghanistan2002

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