Boate Kiss, famílias das vítimas ainda aguardam justiça

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Uma extensa programação em Santa Maria no último final de semana marca os seis anos da tragédia da boate Kiss. O incêndio, ocorrido em 27 de janeiro de 2013, deixou 242 pessoas mortas e mais de 600 feridas. Mais uma vez, familiares, amigos e a comunidade em geral se reúnem para homenagear as vítimas, enquanto aguardam a definição sobre o julgamento dos réus no caso. 

No sábado (26), foi realizado seminário no auditório da UFSM com assuntos como prevenção de tragédias evitáveis, papel da mídia e direitos humanos, além da exibição de documentário sobre o incêndio. Às 21h, iniciou vigília na tenda dos familiares no centro da cidade e, às 23h, o grupo acompanha a chegada da Cavalgada da Paz em frente ao prédio onde funcionava a boate, na Rua dos Andradas.

No domingo, as atividades serão na praça Saldanha Marinho, a partir das 18h, incluindo exposição de fotos, apresentação do projeto e do site do memorial às vítimas, eventos artísticos e ato ecumênico.

Julgamento

A tragédia ocorreu durante show musical na madrugada, quando um material pirotécnico foi aceso e as fagulhas atingiram o teto de espuma, com as chamas se espalhando rapidamente pela casa noturna. Houve tumulto e muitas pessoas não conseguiram sair da boate.

Quanto ao processo criminal, os tribunais superiores, em Brasília, devem decidir se vão ou não a júri popular os quatro réus: os ex-sócios da boate Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Hoffmann e os integrantes da banda que tocava na boate Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Bonilha.

É que, em julho de 2018, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) admitiu recurso especial e extraordinário do Ministério Público e da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) contra a decisão anterior da 1° Câmara Criminal, em dezembro de 2017. Esta sentença foi favorável aos réus porque a votação ficou empatada. A decisão significou que eles seriam julgados por homicídio culposo e não por homicídio com dolo eventual (quando o acusado, por suas ações, assume o risco de matar). 

O advogado Pedro Barcellos Júnior, da AVTSM, defendeu na ocasião que os acusados assumissem a responsabilidade do risco de incêndio. Ele lembra que havia número de pessoas acima da capacidade da casa noturna, caracterizando crime com dolo. Os réus respondem por homicídio duplamente qualificado pelas 242 mortes e por 636 tentativas de homicídios.

A espera

O presidente da AVTSM, Sérgio Silva, diz lamentar a demora na definição do futuro dos réus. “Estamos deprimidos. Continuamos buscando todos os meios na Justiça para que os acusados sejam levados a júri popular. Os culpados precisam de punição severa para que sirva de exemplo de forma que nunca mais ocorra uma tragédia como a de 2013.”

O vice-presidente da AVTSM, Flávio da Silva, se diz convicto de que a decisão sobre o julgamento será revertida, e os réus irão a júri popular. “A Justiça demora e deixa um gosto amargo, principalmente para as famílias dos que morreram.”

Ligiane Righi da Silva perdeu a filha Andrielle, que completaria 28 anos na última quinta-feira. “A minha filha e todos os jovens que estavam na boate morreram devido à irresponsabilidade dos que deveriam dar segurança para uma casa noturna”, afirma a mãe. “Quando ela saiu para festejar seu aniversário nos tínhamos a preocupação de que nada acontecesse na rua, mas jamais imaginaríamos que o pior aconteceria em um local de confraternização.” 

Memoriais

A tenda dos familiares da Kiss, onde ocorrem vigílias frequentemente, deverá se tornar um memorial ou monumento permanente no centro de Santa Maria. “Estamos lançando o projeto para que a ideia da associação se torne realidade”, afirmou o vice-presidente da AVTSM, Flávio da Silva.

Segundo ele, o local terá um novo visual e se tornará referência, principalmente, para os familiares e amigos das vítimas. “Temos o auxílio do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Franciscana e precisamos ainda do apoio da prefeitura para a liberação do local.”

Outro projeto é o do memorial previsto para ser construído na área onde fica o prédio da boate. A iniciativa é uma parceria da AVTSM, da prefeitura e do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

Conforme Flávio da Silva, em março a associação vai lançar uma campanha de captação de recursos. O projeto vencedor do concurso para o memorial é do Escritório Motta e Zene Engenharia e Arquitetura (SP) e prevê um jardim circular de flores, com 242 pilares de madeira. Inclui auditório, três salas e outros espaços.

De acordo com a associação, o custo da obra deverá ficar em cerca de R$ 2,6 milhões. O prédio onde funcionava a casa noturna foi desapropriado pela prefeitura em 2017, e a demolição deverá ocorrer depois do julgamento dos réus. 

A construção do memorial previsto para o campus da UFSM, cuja pedra fundamental foi lançada em março de 2018, não tem data para se iniciar. “Estamos buscando alternativas para obter recursos a fim de iniciar a obra”, afirmou o secretário-geral de gabinete do reitor, Marionaldo da Costa Ferreira. A comissão para a construção é composta por servidores da instituição e dirigentes da AVTSM.

Entre as vítimas estavam muitos estudantes da universidade. O projeto arquitetônico prevê uma passarela, rodeada por espelho d’água com 242 esguichos, dando acesso a um prédio com salas multimídia e outros espaços

Fonte: Com informações do Correio do Povo

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