a saída é reinventar as esquerdas (por enilton grill)

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eu sou um cara de esquerda. sempre fui e sempre vou ser. mas tenho um jeito meio particular de ser esquerdista. sou um anarquista que não abro mão de votar.

então, coerente comigo mesmo, todos os meu votos, desde o primeiro até o mais recente, foram no pt e no psol.

até hoje, meus votos foram decididos de duas formas. uma, eu comigo mesmo, ou seja, o que eu penso e o que eu quero para o país. a outra, o que o país precisa, não importando o que eu penso e o que eu quero para o país.

na minha cabeça é mais ou menos assim que funciona: se o país está vivendo uma normalidade institucional, me arvoro a ser eu mesmo, ou seja, trilho caminhos mais radicais (quanto mais à esquerda, melhor), sempre em busca do socialismo libertário e do aprofundamento da democracia.

caso contrário, como agora, penso no que o país precisa (vejo, então, quem talvez tenha mais potencial eleitoral para enfrentar o inimigo — sim, a direita é minha inimiga) e vou à luta. de braços dados seja com quem for. desde que seja da esquerda, é óbvio.

essa segunda hipótese, no entanto, requer de mim um tremendo esforço. é uma luta diária minha comigo mesmo. por quê? porque nada do que está aí me representa. vejo graves e recorrentes defeitos na esquerda brasileira. todo dia tenho que engolir em seco, pra não sair atirando pra tudo quanto é lado.

então, hoje acordei disposto a ser eu mesmo. enchi o saco de de ser o que a conjuntura exige. foda-se a conjuntura.

fodam-se todos os que lavaram as mãos e, enamorados do próprio umbigo, não foram capazes de ver o que estava por acontecer.

fodam-se todos os que lavaram as mãos e, enamorados do próprio umbigo, só fizeram o que queriam fazer.

fodam-se todos os que lavaram as mãos e, enamorados do próprio umbigo, não fizeram o que tinham que fazer.

fodam-se todos os que lavaram as mãos e, enamorados do próprio umbigo, não pensaram no brasil, só pensaram em si e em crescer, só pensaram em si e em se manter no poder.

sim, estou falando do psol e do pt.

yo sueño panes enteros
en un mundo de migajas
respiro fuerte y no muero
porque no me da la gana.

https://www.youtube.com/watch?v=VxQdVGfzVzk
si yo digo lo que digo | facundo cabral, 1974

Enilton Grill epílogo

para ler em 2050: uma reflexão sobre a utopia ou sobre sociologia das ausências das esquerdas

os inconformados dividiam-se em três estratégias: tentar melhorar o que havia, tentar romper com o que havia, tentar não depender do que havia. visto hoje, a tanta distância, era óbvio que as três estratégias deviam ser utilizadas articuladamente, ao modo da divisão de tarefas em qualquer trabalho complexo, uma espécie de divisão do trabalho do inconformismo e da rebeldia.

mas, na época, tal não foi possível, porque os rebeldes não viam que, sendo produto da sociedade contra a qual lutavam, teriam de começar por se rebelar contra si próprios, transformando-se eles próprios antes de quererem transformar a sociedade.

a sua cegueira fazia-os dividir-se a respeito do que os deveria unir e unir-se a respeito do que os devia dividir. por isso, aconteceu o que aconteceu. o quão terrível foi está bem inscrito no modo como vamos tentando curar as feridas da carne e do espírito ao mesmo tempo que reinventamos uma e outro.

porque teimamos, depois de tudo? porque estamos a reaprender a alimentar-nos da erva daninha que a época passada mais radicalmente tentou erradicar, recorrendo para isso aos mais potentes e destrutivos herbicidas mentais – a utopia.

boaventura de sousa santos

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«a maior de todas as revoluções é revolucionar-se»

Fonte: Enilton Grill – Colunista do Site da RádioCom

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