A GRAÇA DOS SEM-PALAVRA QUE TERIAM O QUE DIZER ( Por Pedro Moacyr Pérez)

Claro, é possível vermos as trocas de mensagens entre juízes, procuradores e policiais como diálogos adequados a uma investigação complexa sobre corrupção. Afinal de contas, ajustam combinações para enfrentar esquemas sofisticados de apropriação indevida de dinheiro público, e facilitam, com certos expedientes processuais, as melhores maneiras de obter sucesso. Deveríamos, de fato, ter orgulho desses arrojos judiciais, até então desconhecidos da vida política brasileira.

Nem ao tempo da Colônia e do Império, nossos períodos formativos como sociedade, e nem ao tempo da República, período em que pretendemos estabelecer nossa soberania e nossa autonomia nacional na geopolítica mundial. Portanto, há que se considerar correto dedicarmos louvações a esses valentes paladinos, que destemidamente enfrentaram quem nunca havia sido minimamente importunado à conta de seus malfeitos. Gente rica, gente poderosa. É possível sentirmos, inclusive, júbilo por esses homens e mulheres, esses rapazes e essas moças, que parecem nos mostrar a fisionomia de novos, e inéditos, tempos.

Mas então começamos a notar que, desde o início dos atos realizados pela Operação Lava Jato, há algumas estranhezas acontecendo, especialmente as vinculadas a práticas que, mesmo denotando interesse em desvendamentos, pareciam se constituir em atitudes ilegais, e, até mais nitidamente, imorais. A princípio, essas estranhezas pareciam decorrer de um açodamento, talvez, ainda que eu nunca me tenha enganado sobre as verdadeiras intenções dos moços e das moças da Lava Jato.

Quando fomos verificando que o que se estava fazendo, e que ganhava a tênue designação de “seletividade”, se constituía em uma caçada política travestida de judicialidade, e que o grande objetivo pouco tinha a ver com um combate efetivo à corrupção, mas muito se relacionava ao banimento de uma esquerda liberal do poder, compreendeu-se mais claramente que Dilma precisaria ser afastada e Lula preso, tudo à custa de qualquer tipo de incriminação, especialmente as forjadas pelo engenho maligno da cúpula da força-tarefa.

Um monumental “lawfare” foi levado adiante no processo de Lula, com o invariável indeferimento de todas as suas petições e recursos diante de uma debilidade probatória absoluta. Mas, mesmo assim, ainda perdurava uma certa impressão, mesmo que minimamente defensável, de que os atropelos pudessem se justificar para o cometimento de uma justiça real e efetiva. Poderíamos, por equívocos avaliativos e em razão de nossos apreços políticos, estar entendendo os atos judiciais perpetrados com o tônus de uma má vontade, viciando a normalidade dos procedimentos com a anormalidade de nossos ânimos e volições.

Assim, durante angustiantes meses, agora já computados em pelo menos quatro ou cinco anos, vivemos – nós, os que, desconfiando da Lava Jato, éramos-lhe críticos – um tempo de incertezas mescladas com convicções. Tomamos contato com a percepção da melhor imprensa internacional, com o pensamento dos mais qualificados intelectuais e dos juristas mais referenciais na área do Direito Penal, nacionais e estrangeiros, e constatamos que todos, de forma praticamente invariável, compreendiam que estava em curso um golpe branco, que Dilma deveria ser impedida de continuar seu mandato para abrir portas para investidas de outra ordem sobre a administração do Brasil (neoliberal, inicialmente; após, neoliberal com o tempero nefasto do fascismo, uma vez que o sentido original do referido golpe mudou de titular para conduzi-lo, e saímos do âmbito dos partidos políticos tradicionais de direita para ingressarmos na obscuridade de corte político fascista, com o “outsider” Jair). 

Há duas semanas vieram a lume as revelações do The Intercept Brasil, que dia após dia vamos conhecendo através de uma extraordinária estratégia de divulgação (contra o grande poder, é preciso usar a inteligência aguda e profunda, senão nada se rompe) de Glenn Greenwald, que vai fazendo as revelações dos bastidores sinistros da orquestração judiciário-midiática voltados a pôr fim à esquerda e fazer florescer um ambiente propício para o desenvolvimento do interesse de um modelo de capitalismo sem absolutamente qualquer freio ético, assim como sem nenhuma mediação honesta para atingir suas finalidades de acumulação ilimitada, como é o neoliberalismo (mesmo que os economistas mais ortodoxos, inclusive, recusem essa denominação).

Pois bem, depois dessas revelações, que agora estão, inclusive, repartidas com o jornalismo empresarial, verifica-se que o golpe sofreu baixas em seu apoio, e a Rede Globo, fundamentalmente, se mostra como o último grande bastião golpista (como lhe é de hábito), procurando, em todas as oportunidades que lhe são possíveis, desacreditar o material recolhido pela mídia do The Intercept Brasil para fortalecer o ex-juiz e a Lava Jato em geral, uma vez que muito lucrou com os vazamentos que essa mesma operação lhe vendeu, mas que mais pôde lucrar com a exposição, para a sua enorme audiência, das notícias que obtive junto a servidores públicos da força-tarefa, que repassaram informações sigilosas para manter o formato da aliança midiática-judicial que pudesse ter a força necessária para acabar com Dilma e Lula (através da medida suficiente para cada um); De resto, a finalidade era acabar com a esquerda em sentido amplo, sem dúvida, em acordo, aliás, com uma intenção do capital mundial.

Vê-se, agora, que o dinheiro e o poder são os autores do golpe, e que cada vez mais caminhamos para a compreensão de que esse dinheiro é estrangeiro e que os seus proprietários são empresas transnacionais que pretendem sugar nosso pobre pais e nossa infeliz gente até o limite, sempre com o interesse de aumentar o tamanho das suas riquezas.
Mostradas as coisas como estamos vendo, repito que é possível vermos como se nada muito grave estivesse ocorrendo.

São conversas aparentemente necessárias para encurralar corruptos e deter a sanha corrupta de poderosos até então tidos como intocáveis. Essa pretensão é boa, por certo, e disso ninguém duvida. Agora sabemos, entretanto, que todas as nossas desconfianças se vão revelando, senão como verdades indiscutíveis, ao menos como evidências profundas. Isso me leva a conclusões que me põem triste, e sobre elas deixarei um pequenos registro abaixo.

Estou cada vez mais convencido de que o orgulho denegatório dos adversários da esquerda desde sempre, em face do que se está vendo, e por mais que tentem desmerecer essas revelações apresentadas cada vez mais de forma inteligentíssima, porque graduais, aguardando a tigrada da Lava Jato negar algo para, logo a seguir, desmenti-la (amigos e amigas, não há outra forma de fazer com que se tenha êxito, mesmo que diminuído, diante da Globo e da grana), não tem futuro com pauta na verdade, mas talvez apenas com os favores das depreciações fortíssimas que se tentam fazer.

Não há nenhuma razão agora para defender a lisura da Lava Jato. Não há nenhuma razão para constatar que Moro e os procuradores são – perdoem-me a expressão, não é esse meu feitio – filhos da puta. Não há nada que autorize a admissão, em nome da normalidade das conduções processuais, sobre os crimes cometidos pelo Judiciário e pelo Ministério Público Federal, que se justifique tecnicamente.

Os que apoiam Moro e os moços do MPF são pessoas que, diga-se o que se disser, apenas quiseram que o PT ficasse fora das disputas políticas. Tudo o que fosse contra Dilma e Lula lhes seria bom. Se essas combinações terríveis entre acusação e órgão julgador se tivessem passado entre Moro e os advogados de Lula, essas mesmas pessoas seriam contrárias a tais acertos. O que está em jogo é, antes de tudo, o que caminha através do atavismo da mente nacional, vinculado à ideia de elite, de patriarcado, de patrimonialismo e a todos os conceitos “batidos” que, mesmo claros, essas pessoas não reconhecem.

Vocês não são amigos da justiça, ou da justiça mais possível mediante a condição da honestidade de propósitos. Vocês vibram com a morte da esquerda, saúdam a ideia de que a direita de boas vestes e modos bons deve ser admirada, entram em frenesi quando um nordestino é desconsiderado em face de sua falta de ilustração escolar. Vocês são da mesma classe a que pertenço, a classe média, ou talvez até pertençam a alguma burguesia mais conceitual, em sentido marxista. Só lhes peço que não me convoquem a alguma igualdade por eu também ser, para fins conceituais, integrante da classe média do funcionalismo público.. Meu lado é outro. Espantam-me vocês que, ao invés de capitular e constatar que mesmo que seja a esquerda ela está do lado mais acertado da história, continuam teimando, com dissimulações voltadas ao convencimento de que têm boas intenções, quando, na verdade, detestam o povo, são indiferentes à miséria e pensam essencialmente em vocês próprios.

Não nasci ontem. Não comecei a estudar ontem. Reconheço de longe todas as pequenas iniciativas, mesmo as de aparência mais ingênua, que procuram, antes de reconhecer as barbaridades do que se faz com a esquerda nacional, como podem desmerecer sacanamente os que são injustiçados. Em nada mudei e nem vocês, mas basta agora. Se me reconhecem como um sujeito ao qual não se deve dar importância porque tenho reflexões muito contrárias à ordem que desejam, e que considero nociva, tenho vocês à conta de pessoas que, podendo ser mais honestas, se mantêm, contudo, cativas de ideias que – e isso bem sabem – só irão salvar vocês próprios nesse mundo bruto. Ou nem isso, mas contando que não auxiliem a pobreza, lhes trazem alguma tranquilidade essas compreensões de mundo que, antes de tudo, veem o que se pode fazer para melhor favorecer a riqueza. Moro lhes ajuda. Dallagnol lhes ajuda.

Gente dessa investigação imensa lhes ajuda. Vejam bem, no fundo, no fundo, Jair lhes ajuda. Mas, claro, como ele é um idiota indiscutível, vocês, que tem pejo de caminhar junto a imbecis, criticam esse inominável Presidente da República. Afinal de contas, manter uma certa compostura é essencial para manter a identidade.Melhor apoiarem Sérgio Moro e Paulo Guedes, que não parecem ser ignaros completos, ou até mesmo mentalmente enfermos como Jair.

Mas eu estou fora – queria lhes dizer -, e meus companheiros também. Não só estamos fora desses propósitos – estamos do outro lado do balcão, compreendem? Não nos tentem ensinar nada sobre seus valores e seus propósitos; as lições são para vocês. Sem arrogância, caríssimos, sem arrogância.

A verdade mais possível, quando compartida, se revelou como a melhor pedagogia concebida pela espécie humana. Ela contém o amor em si mesma, diferentemente das lições autoritárias e estúpidas, como estamos começando a considerar as de vocês. Não é difícil vocês nos entenderem, puxa! Deem o braço a torcer, nada mais do que isso…

Fonte: Pedro Moacyr Pérez da Silveira ( Colunista do Site da RádioCom)

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