O fracasso do locaute bolsonarista e os desafios do governo Lula (por Jorge Branco)

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Empresários apoiadores das políticas e da candidatura de Jair Bolsonaro intentaram produzir uma paralisação do Brasil nesta semana. Contando com um ostensivo abuso do poder econômico, articularam uma “greve” forçada pelos próprios patrões. Porém, segundo a imprensa, “não houve nenhum registro de paralisação”.

O fracasso dessa mobilização, entretanto, não deve justificar indiferença com as movimentações da extrema direita no Brasil. Apenas a tentativa de impedir o reconhecimento dos resultados da eleição que resultou na vitória de Lula – objetivo expresso das manifestações do bolsonarismo – já seria suficiente para compreendermos que se formou um campo político reacionário, de extrema direita, que não tem vínculo com a democracia, nem mesmo com o sistema democrático liberal.

Lula não enfrentará somente esta adversidade. A atual crise de crescimento econômico terá que ser resolvida para podermos pensar na superação da pobreza. O primeiro passo está apontado pelo próprio presidente eleito e pela “transição”: reorganizar o orçamento da União para dar conta de investimentos sociais urgentes e emergenciais, no combate à fome e ao empobrecimento. O papel e a capacidade do governo federal neste campo são grandes sendo necessário que se faça uma reorientação, tipo “cavalo de pau”, no que vinha sendo feito por Bolsonaro. Políticas sociais, tais como a cesta de programas aplicada nos governos anteriores de Lula e Dilma, têm alto valor econômico, sendo uma estratégia eficiente de reaquecimento das atividades, da geração de trabalho e de renda.

Mas será necessário lançar as bases de um novo ciclo longo de crescimento. Neste aspecto, também as adversidades serão grandes. A reforma trabalhista, o teto de gastos e o retrocesso na inovação, ciência e tecnologia implementados pela dupla Temer/Bolsonaro, foram desastrosos para o país. O governo Lula terá que associar políticas de inovação com relações internacionais, crédito e tributação para restabelecer um novo ciclo de expansão econômica, com ampliação da oferta de bens e serviços, baseada na reindustrialização verde, moderna, inovadora e que gere agregação de trabalho e emprego.

As ações golpistas da extrema direita têm o objetivo de impedir que Lula lance, ao longo do primeiro período de seu governo, as bases deste novo ciclo. Três frentes deverão ser abertas para superar estes entraves, todos plausíveis para um governo e um presidente com tanta credibilidade e legitimidade. Primeiro, relações internacionais assertivas para estabelecer um regime de cooperação com novos países, em especial com a América do Sul, que reorganize as relações econômicas com o mundo. Segundo, pactuação política que permita uma reorganização do papel do Estado e do governo, no sentido de superar os entraves aos investimentos públicos, incluindo os da área social. Por fim, defesa ostensiva da democracia, criando um sistema de autoproteção da própria Constituição contra o golpismo e a extrema direita; estabelecendo, sob a forma da lei e do Estado democrático de direito, o combate aos centros difusores e financiadores do golpismo no Brasil.

A vitória de Lula foi épica, considerando-se toda sorte de armadilhas e de ofensiva para manter o atual centro de poder no país. Os desafios que seu governo tem são diretamente proporcionais a esta dramaticidade e significado. O que pode ser considerado, erroneamente, de patologia ou sandice é, em verdade, uma operação de sabotagem ao governo eleito. E assim deverá ser enfrentada.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

por Jorge Branco

Edição: Katia Marko

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