Cpers aponta precariedades e caminhos para a educação

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Por ocasião da conclusão da Caravana pela Democracia, realizada em um mês pelo Cpers-Sindicato e encerrada na última terça-feira, 13, a entidade faz um retrospecto histórico da luta do magistério pela democracia e reforça a necessidade  das lutas dos dias atuais.

O encerramento culminou com um ato, em Porto Alegre, em defesa da educação. Educadores de todo o estado foram às ruas da Capital contra o confisco dos salários dos aposentados, pela valorização dos funcionários de escola e o pagamento integral do Piso e em defesa do IPE Saúde público e de qualidade.

A concentração ocorreu pela manhã, em frente à sede do Cpers, no Centro da cidade e depois seguiu em caminhada até o Palácio Piratini.

História

Nos anos 70, o Cpers foi um dos primeiros sindicatos a sair às ruas para defender a democracia na época da ditadura. Em 1979, o Magistério foi a primeira categoria do estado e a segunda do Brasil a entrar em greve após o Golpe Militar.

Foi inspirado neste contexto histórico, que em pouco mais de 30 dias, o Sindicato visitou aproximadamente 300 escolas e cerca de 90 rádios por todo o Rio Grande do Sul.  Em todos os locais propôs o debate sobre a defesa da democracia e da necessidade de se votar em projetos que valorizem os educadores(as) e a educação pública.

Saldo positivo

O presidente em exercício do Cpers, Alex Saratt, durante visita às escolas da região de Osório (13° Núcleo), avaliou como positiva a 3ª Caravana do Cpers.

“Percorremos cerca de 300 escolas no RS, tivemos um alcance muito bom sobre as questões referentes aos nossos direitos, ao IPE Saúde, à Previdência, além da importante discussão eleitoral de que futuro queremos para a educação pública”.

O presidente ainda ressaltou que, no próximo dia 2 de outubro, os trabalhadores da educação e a sociedade têm uma importante decisão nas mãos.

“Temos que fazer uma discussão muito criteriosa e honesta quanto aos governos e parlamentos. Precisamos tomar as rédeas em nossas mãos para fazer a mudança pelo voto consciente e avançar nas conquistas sociais para todos os professores, funcionários de escola, da ativa e aposentados, e nossos estudantes brasileiros e gaúchos”.

Encerramento

Ato no Palácio Piratini depois de caminhada pelo centro de Porto Alegre encerrou Caravana pela Democracia- Foto: Cpers/Divulgação

No encerramento da Caravana, o vice-presidente do Sindicato, Edson Garcia, visitou escolas da região de Guaíba (34º Núcleo) e destacou que, mesmo após quase sete meses do início do ano letivo, ainda foram encontradas escolas com problemas estruturais graves.

“Realizamos uma Caravana extremamente importante, na qual tivemos a possibilidade de dialogar com a base de trabalhadores e trabalhadoras da educação a respeito das nossas questões. Infelizmente, verificamos que ainda há muito descaso por parte do governo quanto à infraestrutura das escolas. Muitas seguem com problemas como falta de energia elétrica e telhados quebrados, além da falta de professores e funcionários”.

A realidade encontrada pelo Cpers e um olhar para o futuro

Alex Saratt, presidente em exercício do Cpers-Sindicato
Foto: Thayse Ribeiro/CPERS Sindicato

Em conversa com o Extra Classe, o presidente do Cpers, Alex Saratt, avaliou o saldo da Caravana pela Democracia, relatou sobre a realidade encontrada e manifestou sobre o que precisa ser feito para alterá-la.

Extra Classe – Com qual realidade da educação pública a Caravana pela democracia se defrontou nessas visitas?
Alex Saratt –
 A realidade que encontramos nas escolas nas três caravanas que realizamos permanece inalterada. O governo do estado faz muita propaganda, mas na prática pouco executa. Nós temos uma situação de degradação das estruturas físicas das escolas estaduais do Rio Grande do Sul, problemas muito sérios e alguns de solução fácil. Também constatamos que as escolas que se encontram em bom estado de conservação, assim estão porque a comunidade escolar e o próprio grupo de profissionais da da escola se dedica a buscar recursos for do orçamento, que deveria vir, fora das verbas que são necessárias, para garantir pintura, reformas, manutenção de  banheiros, refeitórios, entre outras coisas. Esta é uma faceta do atual governo, que deu continuidade ao sucateamento eu vem ocorrendo desde a época do governo Sartori. Também temos a problemática da falta de professores e funcionários. E já estamos em setembro. Ainda assim encontramos escolas sem professores desde o início do ano.

EC – E os funcionários?
Saratt –
 No caso dos funcionários de escola existe uma agravante, que é a falta de pessoal. As escolas estão funcionando com menos profissionais do que o necessário, sobrecarregando os que estão trabalhando. E, também a ocorrência disseminada da terceirização, que tem trazido muitos problemas, seja pela rotatividade da mão de obra, seja pelo não pagamento dos salários e outras práticas antitrabalhistas que as empresas fazem e que acaba gerando prejuízo aos trabalhadores e para as escolas.

EC – O que os professores manifestaram durante as visitas?
Saratt –
 Tem ainda um agravante, que nós debatemos as questões mais estruturais e também as questões que são da relação trabalhista, das condições de ensino-aprendizagem, da saúde dos trabalhadores em educação. E em todos esses quesitos, nós recebemos denúncias, muitas queixas.

EC – De que tipo?
Saratt –
 Relatos de uma precariedade crescente, seja por conta da infraestrutura já citada e pela falta de pessoal, como também pela sobrecarga de trabalho, os baixos salários, a imposição de uma forma de trabalho muito intensificada na pandemia e após esta, com o retorno presencial. São todos temas muito preocupantes. Há uma sobrecarga muito grande demanda a partir do Novo ensino Médio, seja por não termos ainda uma formação apropriada dos professores para disciplinas completamente novas, seja porque existe a preocupação de que essas disciplinas sejam substituídas por plataformas digitais, eliminando objetivamente os postos de trabalho. Então, além do prejuízo pedagógico para os educandos e sobrecarga de trabalho, existe também o risco do desemprego.

EC – O papel histórico do magistério na defesa da democracia também transformou os professores em alvo daqueles que tem pouco apreço pela democracia? Como isso se manifesta politicamente?
Saratt – 
O Cpers foi um dos primeiros sindicatos a fazer greve ainda no período da Ditadura, em 1979. Uma greve, que junto com outros movimentos, se mostrou ponta de lança de uma mudança mais geral na sociedade. Ajudou a encaminhar o fim da Ditadura Militar junto com outros movimentos. Nós avaliamos que neste momento atual, devido aos ataques das instituições e ao estado democrático de direito, o Governo Bolsonaro é o maior inimigo do povo e do país. Precisaríamos, portanto, ter na questão democrática e na questão eleitoral, uma abordagem mais incisiva e foi isso que o Cpers fez nesta última caravana, intitulada Caravana pela democracia, nas escolas, nas ruas e nas urnas.

EC – O que foi feito na caravana?
Saratt – Debatemos projetos. Fizemos um comparativo histórico. Mostramos que nem sempre o discurso e a prática coincidem, especialmente quando a gente está falando de políticos de governos fascistas e neoliberais. Também apontamos que além da luta social, a luta eleitoral é fundamental para a gente fazer as transformações e as mudança necessárias.

EC – Isso passa por eleições?
Saratt –
 Eleger um novo governo no plano federal, derrotar as candidaturas aqui no estado que representam o atraso, o retrocesso, o sucateamento, a privatização e o arrocho. E, colocar uma proposta do campo popular e democrático no segundo turno para buscar essa vitória também. Importante salientar que nós temos uma preocupação especial com a composição dos parlamentos, seja no Congresso Nacional, seja na Assembleia Legislativa.  E nesse sentido, também temos discutido com a categoria, a importância do voto consciente, politizado e de forma coletiva ligado aos projetos que interessam à classe trabalhadora e à Educação.

EC – Que tipo de valorização da educação deve ser observada pelos eleitores no dia 2 de outubro?
Saratt – A valorização da educação envolve múltiplos fatores. Quando falamos sobre isso estamos falando, desde um investimento público, no financiamento da educação propriamente dita, das condições salariais de professores e funcionários e o reconhecimento da extensão de uma política salarial para os aposentados que já contribuíram com seu trabalho por décadas da sua vida. Falamos da necessidade do concurso público, da recusa às reformas que foram aprovadas, do golpe até os dias atuais; com a mudança da emenda constitucional 95, da reforma trabalhista, a reforma da previdência, das reformas aqui do RS, que foram muito duras e retiraram direitos da categoria. Temos tratar do debate sobre a formação profissional e pedagógica dos professores e funcionários.

EC – E os estudantes?
Saratt –
 E, uma atenção especial aos estudantes. O novo ensino médio, por exemplo, é um modelo que do jeito que está colocado não serve para a emancipação do indivíduo, para criar um senso de  solidariedade e coletividade. O Novo Ensino Médio, dentro de uma plataforma neoliberal é só oferta de ensino de baixa qualidade, formação de mão de obra barata e formação intelectual de crianças, adolescentes e jovens abaixo da crítica, no sentido amplo do termo. Só forma pessoas subordinadas e submissas ao invés de pessoas pensantes, ativas e críticas, com a plenitude da cidadania em sua concepção.

Por César Fraga /Extra Classe

Foto: Thayse Riberio/Cpers Sindicato

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